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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

“Um agrado de Plinio”

À semelhança das senhoras de seu tempo, mamãe usava uma pulseira de marfim com incrustações, vinda da Europa. E eu, aos doze ou treze anos, brincando com o braço dela — não sem alguma brutalidade inerente aos meninos que vão se tornando mais velhos —, girava a pulseira, e, sendo o marfim um material muito duro, machucava-a um pouco. Não se tratava de nada muito grave, mas, sendo a pulseira muito dura, isso fez uma mancha escura num ponto de seu braço. E ela não se queixou de nada; em vez de se zangar — porque uma mancha dessas é feia, uma senhora não gosta de ter isso —, ela ficou encantada.
Certo dia, quando almoçávamos em casa de minha avó, onde morávamos, uma pessoa da família perguntou para ela:
— Lucilia, o que é esta machucadura em seu braço?
Ela olhou — para ter tempo de pensar — e depois disse com muita naturalidade:
— Isso foi um agrado do Plinio.
Foi uma gargalhada geral na mesa, gargalhada afetuosa, mas que mexia com ela. Era tal o encanto dela por mim, que até quando eu, involuntariamente, a machucava, ela ficava maravilhada.
Mesmo quando eu era importuno, a mansidão de mamãe a fazia ficar ainda mais encantada; e isso me deixava enlevadíssimo por ela.

A harmonia afetuosa e grandiosa que ela exprimia, fazia-me pensar: “Ela é formidável, acima de qualquer pessoa que eu conheço. Eu vejo tantas pessoas em torno dela, pessoas muito boas, mas ninguém tem essa virtude extraordinária, essa harmonia de personalidade, essa lógica e esse afeto contínuo que ela tem.”

sábado, 11 de junho de 2016

Carinho extremo...

À primeira vista, dir-se-ia que veneração e ternura são incompatíveis, mas, na realidade, tais sentimentos se confundem a propósito do carinho: sentindo-se objeto do carinho materno, o filho deseja retribuí-lo.
A veneração é a manifestação do grande respeito que um ser inferior presta a um superior.
Em princípio, o superior tem o direito de julgar e punir o inferior. A mãe, embora anciã e sem forças, continua tendo o poder e o direito de castigar seu filho maior de idade. Para um filho que sabe o que é uma mãe, e uma mãe que entende o significado deste título — portanto é mãe no sentido próprio, direto e pleno da palavra —, uma censura, um conselho, um elogio feito pela mãe tem o peso que poucas coisas humanas possuem. Só um elogio, um conselho ou uma censura da Santa Igreja podem pesar mais sobre um homem.
Essa veneração envolve certo elemento que a Igreja, empregando muito bonita expressão, define como temor reverencial; ou seja, o temor que se tem a uma pessoa não tanto devido à força de que ela dispõe, quanto ao respeito que impõe. Então, o temor reverencial que o filho tem para com a mãe parece ser o contrário do carinho. Porque o carinho é de modo especial o afeto que o mais velho, mais poderoso, mais pleno dá àquele que é mais fraco, mais débil.
Veneração, ternura e carinho
Pode-se falar, por exemplo, do carinho de uma mãe para com seu filho. É mais difícil falar do carinho de um filho para com sua mãe. O próprio “inho” da palavra “carinho” tem qualquer coisa que soa aos nossos ouvidos como se fosse um diminutivo, o qual vai bem para quem é mais em relação a quem é menos; e não tão bem para aquele que é menos relativamente a quem é mais.
Na realidade, porém, a veneração e a ternura se confundem completamente, a propósito do carinho. Quer dizer, o filho, sentindo-se objeto do carinho da mãe, tem um desejo de retribuí-lo; o carinho da mãe desperta o carinho no coração do filho.
De maneira tal que um homem poderá ser durante toda a sua vida particularmente bom, misericordioso, condescendente — no bom sentido da palavra — se ele teve uma mãe muito carinhosa. Porque nasce no coração dele o carinho e, portanto, todas as formas de bondade. Ele gosta até de se sacrificar, de fazer alguma coisa difícil por quem merece seu carinho.

Então, o carinho materno jorrando sobre o filho é como a água que cai de grande altura sobre uma pedra. Quanto maior a altura, mais a água sobe de novo ao bater na pedra. Assim é o carinho materno: verte-se sobre o filho e deste como que respingam gotas de água, as quais se pudessem voltariam ao alto. O equilíbrio dessas duas coisas faz propriamente o equilíbrio do homem, porque quando ele só quer impor o respeito dos outros, mas não sabe ser afetuoso, fica faltando algo; e quando apenas é afetuoso, porém não sabe impor respeito, ele não é um homem autêntico, porque o próprio do homem é saber se impor.
Quando o homem impõe respeito e tem carinho, ele possui um equilíbrio semelhante ao do pêndulo de um relógio, que chega a um extremo, vai ao outro extremo, e deste volta para o primeiro, fazendo os ponteiros marcarem a hora certa.
Debaixo de certo ponto de vista, o carinho e a veneração também se equilibram dessa forma: quem chega ao extremo do carinho fica desejoso de venerar; quem atinge o extremo da veneração quer acariciar. Essas duas coisas se completam.
Compreende-se assim que em presença de uma mãe como foi Dona Lucilia, a tendência para a veneração e para o carinho eram enormes. 
Texto extraído dos comentários de Plinio Correa de Oliveira

sábado, 27 de setembro de 2014

Compaixão e serenidade de Dona Lucilia

Dr. Plinio evoca alguns aspectos da bondade de sua mãe, manifestada ao longo de uma edificante existência, até o derradeiro sinal da Cruz com que se despediu deste mundo. Talis vita, finis ita: tal como foi sua vida, repassada de fé e compaixão, tal se apresentou a Deus.
Um dos predicados morais de Dona Lucilia que mais me tocava e estreitava minha união com ela era sua compaixão. Em diversos episódios e circunstâncias me era dado notar a ternura de mamãe para comigo e o modo como considerava as necessidades de uma criança, máxime sendo filho dela. A fragilidade daquele ser pequenino despertava em seu coração materno um desejo de proteção, ao lado de uma compreensão íntima, pormenorizada e delicada das carências próprias às condições de um menino.
 Compassiva nas doenças do filho
Ela percebia bem como eu mesmo sentia as minhas debilidades, e me acompanhava com um olhar solícito, como quem diz: “Essa é a trajetória de todo homem. Mas, é natural que um homem tenha uma mãe, e que esta seja toda ternura para ele. É conforme à lei da vida que as coisas se passem assim; você deve se sentir compreendido em tudo e não ter nenhuma espécie de amor próprio falso que lhe faça esconder de mim a sua debilidade. Pelo contrário, coloque-a em minhas mãos, que eu tratarei dela”. Essa disposição me era manifestada com um sorriso cumulado de afeto, e da promessa de que ela atravessaria comigo aquele caminho semeado de dificuldades.
De maneira especial, a compaixão de Dona Lucilia se mostrava inteira quando eu adoecia. Nessas circunstâncias, seu desvelo e seu carinho eram levados ao extremo, com uma preocupação inteira por causa de minha doença. Eu, sempre observador, não deixava de considerar sua atitude ao entrar no meu quarto nas pontas dos pés, sorrindo, com um copo de remédio de homeopatia nas mãos, e dizer-me: “Filhinho, chegou a hora de tomar o medicamento”. Na verdade, era a consolação de minha alma tê-la ali perto, e a presença dela compensava a dor que eu sofria.
Como se sabe, as analogias na cabeça de uma criança são vivazes, e eu fazia correlação entre o refrigério da água com que eu tomava o remédio e a bondade de mamãe. Pensava: “Ela é para mim o que esta água é para meu corpo doente — um refrigério. Sinto o meu espírito refrigerado na companhia dela”.
O mesmo desvelo na maturidade de Dr. Plinio
Essa compaixão manifestou-se invariável ao longo de toda a vida dela. Por exemplo, quando eu já era homem feito e formado, morávamos numa casa na Rua Itacolomi, onde tive uma indisposição física muito forte. Mamãe, num tom afetuoso e inquiridor de quem havia percebido, me perguntou:
— Filhão, você está indisposto, não é?
— Meu bem, realmente estou, mas prefiro não recorrer aos seus médicos. Eu não gostaria de dizer “não” à proposta da senhora de chamar algum deles, mas sobretudo não quero dizer “sim”.
Ela, com sua calma característica, aproximou-se de mim e colocou a mão sobre minha testa, e só aquele contato o frescor de sua mão me transmitiu alívio e tranqüilidade. Disse-me: “Você está com febre”. E eu pensei: “Agora ela vai colocar o termômetro e este indicará 38°, 39°. Mamãe ficará preocupada e eu vou me meter em uma engrenagem que não me agrada em nada”. Ela pôs o termômetro e, após alguns minutos, verificou a temperatura.
— Não é nada. O que você quer fazer meu filho?
— Meu bem, quero ganhar tempo, deitado e tranquilo.
Então, ela trouxe uma cadeira do quarto, colocou-a próximo à minha cama, sentou-se e começou a rezar. Ali permaneceu durante horas, até anoitecer. Em certo momento, eu disse:
— Meu bem, estou com muita fome e a senhora vai querer que eu coma algo.
— Diga o que você quer que sua mãe traz. Ela mesma foi preparar o que eu pedi, serviu-me, conversamos um pouco, e quando nos despedimos ela me disse, no mesmo tom de carinho e solicitude: “De outras vezes, você não esconda nada de sua mãe, porque ela percebe e não vai lhe impor coisa alguma”.
Só então eu percebi como ela não considerava bagatela aquela minha indisposição. Entretanto, a rogos de Nossa Senhora, a Providência me favorecera com boa saúde e na manhã seguinte eu já estava recuperado. Assim que me levantei, fui ao quarto de mamãe para cumprimentá-la, tranquilizá-la e agradecê-la pelos cuidados da véspera. E retomamos a vida comum de todos os dias.

Porém, ficara-me a certeza de que, se a doença se agravasse, o desvelo dela se desdobraria até o fim. E, provavelmente, se eu morresse, ela não sobreviveria por muito tempo. 
Continua no próximo post.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Anelos de elevação, gentileza e bom trato

Sempre solícita e diligente em tudo que dizia respeito à educação de seus filhos, Dª Lucilia aproveitava-se de todas as circunstâncias favoráveis para fazê-los progredir na formação de suas personalidades, bem como na aquisição de valores morais que os tornassem aptos a enfrentar as vicissitudes desta vida. Nessa preparação tinha lugar de destaque a arte de conversar, na qual Dª Lucilia era exímia.
As crianças introduzidas no mundo dos adultos
Em sua residência da Alameda Barão de Limeira, costumava-se congregar grande número de parentes, sendo habitual transformar-se a ampla sala de jantar em palco de prolongados entretenimentos e debates, que se estendiam após as refeições, já de si demoradas.
Concluída a sobremesa, as pessoas se sentavam confortavelmente nos sofás e poltronas dispostos nos cantos da sala e, enquanto sorviam a pequenos goles um aromático cafezinho, prosseguiam a conversa. Esta, sempre animada, comportava com frequência o trato de temas elevados, feita ao mesmo tempo com naturalidade e distinção. Naquela época, as conversas desse tipo, apesar de espontâneas, obedeciam a regras não escritas em nenhum manual e constituíam uma verdadeira arte, que o aparecimento do cinema e, mais tarde, do rádio e da televisão, extinguiu por completo.
Saber manter presa a atenção dos interlocutores, conseguir interessá-los por um tema, fazê-los participar sem constrangimento do animado diálogo, eram habilidades de espírito que tinham seus campeões, cujo mérito era vivamente apreciado pelas pessoas cultas. A tal ponto que a história sempre registrou os grandes causeurs de cada época. Um deles foi um bisavô de Dª Lucilia, o Dr. Gabriel José Rodrigues dos Santos, notável parlamentar do Segundo Reinado, não lhe tendo ficado atrás alguns de seus descendentes, que cultivaram e transmitiram o elevado dom da conversação.
A partir de certa idade, as crianças eram admitidas à mesa dos adultos, mas sem tomar parte na troca de ideias, a não ser quando alguma pergunta era dirigida a elas ou se lhes pedia uma opinião. Eram introduzidas desse modo ordenado no mundo das pessoas de mais idade, o que lhes ajudava a desde cedo tomar posição definida sobre as grandes questões do momento.
Aprendendo a julgar os fatos com Dª Lucilia
Naqueles pós-jantares, se alguém, folheando o jornal, encontrasse uma notícia interessante, lia-a em voz alta aos demais, contribuindo para alimentar a prosa. Dª Lucilia, porém, para melhor formar seus filhos, não se contentava em ouvi-la de modo passivo. Pelo contrário, procurava explicar-lhes a importância dos diversos fatos estampados nos diários. Quando ela reputava que algo tinha especial interesse, dizia em voz baixa:
— Meus filhos, prestem atenção no que foi comentado agora.
Habitualmente, as matérias tratadas pelos mais velhos iam variando e, ao discorrerem sobre acontecimentos relacionados com os assuntos pouco antes assinalados por Dª Lucilia, ela voltava a chamar a atenção dos pequenos, sempre em voz baixa:
— Meus filhos, isto também é muito importante.
E assim Dª Lucilia os educava, proporcionando-lhes de forma paulatina mais experiência e conhecimento, a fim de poderem relacionar os temas entre si e hierarquizá-los. Não tardou Plinio em perceber que os assuntos que Dª Lucilia mais comentava nem sempre eram os que saíam em manchete. Pelo contrário, não raras eram as notícias à primeira vista secundárias às quais ela dava mais importância. Isto despertou-lhe a curiosidade e o desejo de conhecer as razões desse modo de proceder. Sem muita dificuldade, concluiria ele: “Mamãe dá mais importância aos fatos que se relacionam com a Religião...”
Personagens históricos, modelos a imitar
Ao lado da arte de conversar, do interesse por narrações de histórias e de acontecimentos grandiosos do passado, bem como do senso do maravilhoso que Dª Lucilia procurava despertar nas crianças, ela se preocupava igualmente em lhes apresentar modelos que lhes pudessem orientar os passos. Foi assim que, em 1920, quando estiveram em visita a São Paulo o rei Alberto da Bélgica e sua consorte, a rainha Elizabeth, Dª Lucilia não perdeu a oportunidade de mostrá-los aos pequenos. Na ocasião, quando a comitiva dos soberanos passava pela Alameda Barão de Limeira, ela ressaltou aos olhos dos filhos a categoria, a distinção e o heroísmo daquele rei que, na Primeira Guerra Mundial, soubera defender com intrépida coragem seu país contra o invasor alemão. Fez notar também a postura correta da dama de honra da Soberana e comentou: “É assim que se deve ser!”
Era, portanto, explícita a intenção de apresentar aos filhos tais personagens históricos como modelos a imitar.
Última fantasia
Nesses seus preciosos desígnios de formação, Dª Lucilia idealizava para seus filhos (por ocasião dos inocentes festejos de carnaval daqueles tempos) fantasias que correspondiam aos modelos a eles propostos por ela.
Plinio e Rosée, entretanto, no início da década de 20, já iam abandonando a meninice. As tragédias e desilusões da vida estavam cada vez mais presentes aos olhos dos jovenzinhos, não lhes cabendo mais algo que não condissesse com a realidade, como eram tais disfarces.
Todavia, estando a família em Águas da Prata na época do carnaval, houve uma festa no hotel em que se hospedavam, e se tornava um tanto pesado e desgracioso, ante parentes e conhecidos, não participarem da alegria geral. Dª Lucilia então, habilidosamente, improvisou para seus filhos trajes típicos espanhóis. Seria a última vez que Plinio vestiria uma fantasia. Como nas ocasiões anteriores, ela soube dar-lhes um caráter muito mais real que ilusório.
Em consonância com aquela formação que lhes proporcionava, em ordem a admirar a tradição, ela procurava sempre, nessas circunstâncias, exprimir em trajes os valores de uma nação ou de um tipo humano determinado. No caso concreto, o que ela procurava incutir nos filhos de forma bem autêntica era a Espanha católica, das épicas touradas, dos grandes santuários e dos guerreiros cristãos.
“Ah! Agora o mundo entrou em seu verdadeiro eixo...”
É por essa época, em que os trens se mostravam ainda vagarosos e pouco estáveis, que um susto, seguido de aflição, não só marcará a pré-adolescência de Plinio, como deixará novamente transparecer o entranhado amor dele por sua querida mãe.
Dª Lucilia se encontrava em Águas da Prata. Iam ter com ela Dr. João Paulo, o filho e a governante deste. Ora, durante o percurso de trem, como acontecia por vezes, Plinio sentiu enjoo. Assim, quando de uma parada na estação de Campo Limpo, antes de Campinas, pediu licença ao pai para sair e tomar ar. Desceu à plataforma e pôs-se a percorrê-la tranquilamente de uma ponta a outra.
De repente ouviu um apito e notou que o trem se punha em movimento. Correu e, quando ia saltar, sentiu que decididas mãos o seguravam vigorosamente por trás, impedindo-o de realizar seu intento. Tratava-se da Fräulein que, muito perspicaz, também descera para não perdê-lo de vista.
— E agora, o que vamos fazer? — perguntou ele.
— Não tem nada. Vamos nos encontrar com seu pai em Campinas.
— Mas, como papai vai tomar contato conosco?
— Isto é muito simples. Vou falar com o chefe da estação. Ele passará um telegrama para a estação de Campinas, pedindo que avisem “o senhor que procura um filho, que o menino está em Campo Limpo e partirá para lá no próximo trem de tantas horas”.
Plinio pensou: “Há o risco de papai adormecer e não perceber o trem passar por Campinas”. Mas isto não se deu. Ao chegarem a Campinas, encontraram Dr. João Paulo tão satisfeito por ver resolvido o problema, que não continha seu afável e generoso riso pernambucano.
Passaram a noite num hotel daquela cidade e no dia seguinte Plinio se encontrava entre os braços de sua mãe. De forma instantânea configurou-se em seu interior a ideia: “Ah! Agora o mundo entrou em seu verdadeiro eixo...”
Pêsames pela morte da Princesa Isabel
Ao longo dos anos, desde 1912, quando se conheceram em Paris, a mãe de Dª Lucilia manteve assíduo contato epistolar com a Princesa Isabel e com a dama de honra desta, a baronesa de Muritiba. Evocativas de outras eras, algumas dessas missivas foram cuidadosamente conservadas pela filha, possibilitando-nos degustar agora um pouco daquele elevado relacionamento.
As cartas endereçadas à matriarca dos Ribeiro dos Santos, em geral lhe chegavam às mãos no final do almoço. Era a hora em que Luís, o copeiro, como de estilo, as apresentava a Dona Gabriela numa salva de prata.
Nessas ocasiões era comum estarem à mesa vários membros da família, que com indisfarçável interesse ouviam, por exemplo, Dona Gabriela anunciar: “Acaba de chegar uma carta da Princesa Isabel...”, e ler em voz alta as palavras da imperial signatária. Por vezes, como no caso a seguir, tratava-se de um simples postal:
Minha querida Dª Gabriela
Muitíssimo lhe agradeço seu telegrama por ocasião de nosso grande dia 13 de Maio. A baronesa de Muritiba lhe dará noticias de nós todos.
Sua muito afeiçoada
Isabel Condessa d’Eu Boulogne-sur-Seine, 4 de junho de 1917
Nesses momentos todos prestavam atenção, e era patente que seus espíritos ficavam tomados de um passageiro enlevo, do qual brotavam comentários elogiosos.
Próximo ao fim daquele ano, chegou a notícia do falecimento da Princesa Isabel, que encheu de tristeza os corações, em especial o de Dª Lucilia. Sua mãe redigiu um telegrama de pêsames para o Conde d’Eu e demais membros da Família Imperial: Queira Vossa Alteza aceitar...
Plinio, que fazia sozinho, havia já algum tempo, suas incursões ao centro da cidade, foi incumbido de passar esse telegrama. Décadas depois, ele ainda se lembraria da reação da funcionária ao ler as primeiras palavras da mensagem. Ela se voltou para uma colega e disse:
— Fulana, venha aqui depressa ver que beleza!... Veja que coisa linda!
Tratava-se presumivelmente de uma pessoa em dia com as modas e costumes mais avançados, e que, naquele instante, fora tocada por uma brisa de tradição. Aquelas simples palavras de pêsames dirigidas a um Príncipe constituíam um símbolo dos tempos passados, que naqueles já tão modificados anos ainda exerciam sua benéfica influência.
Não nos é difícil imaginar o apreço com que Dª Lucilia deve ter acompanhado tal correspondência, tão adequada a seus anelos de um mundo onde só reinassem benquerença, gentileza, elevação e bom trato...
(Transcrito e adaptado da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Educando os filhos pela narração de histórias

Sobressaindo entre os excelentes atributos com que a Providência ornou sua alma de mãe e educadora, o fino senso psicológico de Dª Lucilia lhe proporcionava adequado conhecimento dos filhos e dos sobrinhos. Conhecimento este que ela sabia aplicar, de modo todo especial, no momento de lhes contar alguma história. Razão pela qual não nos é difícil compreender como, em tempos idos, as crianças se apinhavam alegres ao seu redor, pedindo-lhe mais uma narração.
Todas as noites de quinta-feira, a maior parte da família se reunia na residência de Dª Gabriela para um longo e cerimonioso jantar. Os pequenos tomavam a refeição numa dependência secundária, e naturalmente acabavam antes dos adultos. Nesse momento, estando a casa cheia de meninos, estes chamavam Dª Lucilia:
— Queremos histórias de tia Lucilia! Queremos histórias de tia Lucilia!
Ela, embora muito carinhosa, fazia valer o princípio de que os mais velhos não são interrompidos pelos mais moços. Assim, estes não podiam entrar na sala de jantar enquanto aqueles não terminassem. Do lado de fora, através da porta entreaberta, os pequenos passavam a dirigir agradinhos a Dª Lucilia, para obter que fosse logo estar com eles. Ela não respondia e, tranquilamente, continuava a comer. Quando acabava, dizia muito comprazida:
— Vou para o escritório e conto uma história para vocês.
O aposento ficava apinhado de crianças, todas encantadíssimas, à espera de mais uma atraente descrição.
Enquanto na sala de jantar os adultos prosseguiam a conversa sobre assuntos da atualidade, Dª Lucilia se recostava numa chaise longue do escritório do esposo, e os meninos, literalmente, se empoleiravam em torno dela, até mesmo atrás de sua cabeça.
A história do nobre manco
Dª Lucilia modelava suas descrições no intuito de favorecer a maturação do espírito de seus jovens ouvintes, o que constituía um dos principais atrativos de suas histórias. Levada por maternal carinho, procurava ela incutir-lhes o amor ao cumprimento do dever e a admiração pelos atos belos e louváveis. E, em certas ocasiões, aproveitava os contos para dar às crianças uma lição de caráter moral e religioso.
O do nobre manco, fato que se havia passado no Ancien Régime, era característico. Assim descrevia ela:
A pequena distância de uma estalagem, à beira de uma estrada, conversavam animadamente alguns rapazes do povo miúdo, fortes, saudáveis e bem dispostos.
Em certo momento aproximou-se uma carruagem puxada por cavalos brancos, magnificamente ajaezados, e parou diante da casa. Os ornatos dourados do coche, o brasão pintado em suas portas, os finos cristais das janelas, os postilhões vestidos de libré, tudo, enfim, denotava a nobre origem do ocupante daquele belo veículo.
Saltam em terra os lacaios: um segura com força os cavalos, outro, ligeiro, corre a abrir a porta, enquanto um terceiro estende a escadinha até o chão. Os rapazes se apressam, curiosos, para ver quem era o feliz viajante. Através das cortinas de damasco vermelho, entreabertas, distinguem o busto de um jovem de bela aparência que se prepara para sair. Com elegante gesto, este se cobre com seu tricórnio ornado de plumas e, lentamente, desce da carruagem... apoiado, porém, em muletas, pois tinha um pé cortado.
Os jovens, então, caíram em si. Quão pouco vale o dinheiro, e quão pouco valem as aparências da terra! Eles, por não terem nenhum pé amputado, eram mais felizes do que o nobre manco em meio de toda a sua opulência.
Os Três Mosqueteiros
Vendo Dª Lucilia aproximar-se o fim da infância de seus filhos e sobrinhos, julgou adequado incutir-lhes o gosto pela literatura. Sem descurar daquele seu grande empenho em fazer crescer o espírito analítico das crianças, nas quais começavam a despontar as primeiras manifestações de preferências ou repulsas, já próprias à adolescência.
Assim, os enredos por ela elaborados sempre terminavam de modo exemplar: o personagem era premiado por sua virtude ou, quando derrotado, ela o descrevia em seu isolamento, na tranquilidade majestosa de uma consciência limpa — outro tipo de prêmio do qual, com maestria, ela sabia realçar os aspectos aprazíveis e gloriosos.
Supérfluo será dizer que os resumos feitos por Dª Lucilia excluíam qualquer forma de episódios ou detalhes atentatórios à moral. Para fixar a atenção das crianças naqueles longínquos tempos prenunciativos de um apogeu cinematográfico, era preciso que a história fosse novelesca, recheada de aventuras imprevistas e sensacionais. Se o tema escolhido fosse diverso, elas logo se alheavam da narração, que só continuavam a ouvir de olhos distraídos e distantes.
Nessas circunstâncias, a escolha de Dª Lucilia não podia recair sobre tema mais apropriado do que Os Três Mosqueteiros, um dos famosos romances de Alexandre Dumas, cujas passagens inconvenientes eram por ela censuradas com todo o cuidado.
A história também se desenrolava em pleno Ancien Régime, no reinado de Luís XIII. Dª Lucilia, rodeada de seus pequenos ouvintes, ia pintando na imaginação deles, com vivas cores, através de suas harmoniosas palavras, aquela remota época como um período áureo, em que o Ocidente estava para atingir um ápice de bom gosto, de boas maneiras, de elegância e de nobreza de atitudes.
Depois da atraente introdução, os meninos, com sua imaginação presa, já estavam ávidos de ouvir Dª Lucilia descrever a personalidade de cada um dos mosqueteiros, com suas virtudes e defeitos. Os quatro mosqueteiros eram gentis-homens característicos de seu tempo e ela procurava, ressaltando esse aspecto, incentivar as crianças a tomarem suas qualidades cavalheirescas como modelo.
Porém, mais belo do que a descrição sobre os valentes mosqueteiros era o aparente contraste entre a narradora e aqueles heróis: ela, suave, delicada, afável; eles, acostumados aos perigos, ao risco, às rudezas próprias da guerra. As palavras de Dª Lucilia eram tão expressivas que despertavam nos inocentes corações de seus ouvintes o entusiasmo por feitos heróicos, realizados por esses insignes batalhadores, entretanto exímios em brilhar nos salões, com suas reverências, rendas e panaches.
Excelente educadora, analisava ela os personagens sob o ponto de vista da moral católica. Como juiz imparcial, reprovava com severidade o que neles merecia censura, e exaltava as virtudes e outros predicados dignos de louvor.
Quando falava da probidade e correção de Athos, deixava transparecer sua própria integridade moral. Ao pintar a coragem de D’Artagnan, fazia-o com tanta admiração que os meninos pareciam notar o heróico vento da intrepidez acariciar-lhes a face.
De outro lado, Dª Lucilia procurava mostrar-lhes como era rejeitável o “ideal” de um Porthos, cuja preocupação primordial consistia no gozo da vida, e explicava o que havia de superior na carreira intelectual, na preeminência do espírito sobre a matéria. Finalmente, fazia reluzir aos olhos das crianças o que havia de mais elevado no tipo humano de um valente Aramis, eclesiástico e guerreiro.
Com a mente povoada de feitos de armas, grandes heróis, épocas de esplendor e de fidalguia, mas especialmente enlevadas com aquela atraente narradora, as crianças aguardavam, não sem impaciência, o próximo dia em que ela daria seguimento ao conto.
Assim, em sucessivos e animados encontros, Dª Lucilia chegou ao epílogo da história, enriquecendo-a sempre de novos pormenores. Como fecho daquela aventura, descreveu aos pequenos o que ela, na sua rica e virtuosa imaginação, pensava ter sucedido a cada um dos briosos mosqueteiros.
O Conde, o Bispo, o “parvenu” e...
Athos, amadurecido pelos reveses da vida, aperfeiçoado pelo ofício militar, retirou-se para o antigo feudo de sua família, onde passou a morar só, envolto em sua nobre e melancólica tristeza.
Era de ouvir como Dª Lucilia pintava aos olhos das crianças uma tarde no castelo de Athos, quando este, terminados seus afazeres no campo, se recolhia ao aconchego de sua morada. Segundo Dª Lucilia, ele atravessava um pátio interno, adornado de trepadeiras e plantas aromáticas, em cujo centro se erguia um gracioso chafariz.
Assim continuava ela a narração:
Quem, naquele sereno crepúsculo, espreitasse por entre as cortinas do salão nobre do castelo, surpreenderia o Conde de la Fère andando de um lado para outro, entregue a profundas meditações. Chegado o momento do jantar, o Conde se dirigia à sua grande sala de refeições, onde, à bruxuleante luz das velas, degustava saborosos pratos e requintados vinhos. Dentro em pouco, todo o castelo estava imerso no silêncio, entrecortado apenas pelo ecoar dos passos do Conde que, novamente, palmilhava o solo de seus ancestrais. Afinal, recolhia-se ele também a seus aposentos. E quando sua luz se extinguia, era escuridão em todo o feudo...
Desse modo, de acordo com o senso poético de Dª Lucilia, transcorria a vida de Athos. Em seguida, narrava ela o que acontecera ao elegante Aramis:
Satisfazendo seus mais ardentes anseios, abandonou a carreira militar e tomou ordens num convento. A seriedade coerente e profunda dos estudos eclesiásticos veio assim somar-se às suas qualidades de tato e de tino no tratar com as pessoas, predicados estes preciosos para um zeloso pastor de almas. Assim, Aramis não tardou a atrair sobre si a atenção de seus superiores, o que, dentro de pouco tempo, ocasionou sua elevação ao episcopado. Passou assim ele a viver num pequeno castelo de uma diocese, no interior da França.
Depois de ter apresentado às crianças a dignidade da vida particular de Athos e a grandeza da condição eclesiástica de Aramis, Dª Lucilia se voltava, uma vez mais, para aquele a quem os pequenos não deviam imitar: o vaidoso Porthos...
Contava-lhes que, fiel a uma concepção mais bem materialista da vida, Porthos também abandonou a carreira militar em troca da fortuna que lhe prometia uma rica viúva e, nunca dispensando os prazeres da mesa, tornou-se ainda mais avantajado de físico. Passou a ostentar um luxo desmesurado, bem ao contento de suas pretensões. Assim, comprou um castelo que enfeitou e engalanou com um gosto muito discutível. Adquiriu também uma carruagem, em cuja porta mandou fixar, esculpida em madeira e revestida de ouro, uma figura mitológica tocando uma cornetinha, que era o símbolo de Monsieur de Porthos.
... D’Artagnan!
— E D’Artagnan?! — perguntavam as crianças.
Com sua invariável amenidade, Dª Lucilia respondia:
Ele foi o único que continuou na carreira das armas. Combateu em diversas batalhas, e alcançou, por sua coragem e dedicação, o marechalato de França.
Havia muito tempo que os quatro amigos não se encontravam, quando uma arriscada circunstância exigiu que eles se reunissem em torno de D’Artagnan. Então Athos, Porthos e o Bispo Aramis vieram socorrer seu antigo companheiro. Foi a última vez em que foram vistos juntos.
Pouco depois, numa guerra contra os holandeses, comandando as tropas francesas que faziam cerco à cidade de Maastricht, D’Artagnan, atingido por um tiro, caiu do cavalo. Estava morto...
Era o desfecho de uma maravilhosa história, que trouxera o juveníssimo auditório, ao longo de várias noites, suspenso dos lábios de Dª Lucilia. Assim, ela formava seus filhos e sobrinhos, recomendando-lhes imitar a nobreza de sentimentos, a abnegada dedicação, a desinteressada fidelidade a uma causa superior, que constituíam o verdadeiro ornato daqueles heróicos personagens.
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)

domingo, 9 de setembro de 2012

BENQUERENÇA COROADA PELA FÉ CATÓLICA

Em nosso post nos foi dado considerar como Dª Lucilia, em relação às diversas necessidades de seus filhos — máxime quando se achavam enfermos — desdobrava-se em zeloso carinho e notável abnegação. Tais qualidades se mostravam heróicas durante as doenças e indisposições que ela mesma sofria. O episódio a seguir servirá de exemplo.
Querer bem, até o fim!
Certa ocasião, tendo ido a um dentista cujo consultório ficava num desses prédios antigos, sem elevador, Dª Lucilia, ao descer a escada, pisou em falso e escorregou. Para evitar a queda, agarrou-se ao corrimão, num movimento forçado, deslocando um dos braços à altura do ombro.
A dor agudíssima, provocada pelo acidente, quase a fez perder os sentidos. Os circunstantes socorreram-na imediatamente, levando-a a um médico. Entretanto, passada a ação do clorofórmio com que a tinham adormecido, voltaram as dores pro duzidas pela distensão de ligamentos, acrescidas do forte incômodo próprio ao efeito do anestésico. Tornou-se por isso necessário transportá-la de ambulância para casa, onde já tudo estava preparado para recebê-la.
Tratava-se agora de avisar convenientemente as crianças, para não se impressionarem muito. Bem podemos calcular a aflição que delas se apoderou, ao saberem haver Dª Lucilia sofrido um sério acidente. Talvez alguma delas, ignorando o alcance do acontecimento, até pensasse que sua mãe iria morrer. Impressão certamente reforçada ao vêla chegar numa padiola, gemendo e pálida como um cadáver. As crianças aproximaram-se da porta do quarto, cheias de espanto, para ver como ela estava passando. No entanto, os mais velhos da família impediram-nas de entrar, a fim de não atrapalharem, involuntariamente, a acomodação de Dª Lucilia na cama, o que não se fez sem muito sofrimento para ela.
Quando se encontrava perfeitamente instalada, chamaram os filhos, recomendando- lhes não fazer barulho nem tocar no braço acidentado.
No aposento da mãe, apenas iluminado por uma fraca luz, os pequenos ficaram vivamente impressionados ao verem Dª Lucilia prostrada na cama, gemendo baixinho, com o braço todo enfaixado. Era algo de terrível para eles, pois nunca tinham visto alguém naquela situação. Ela, imersa em dor, não os vira entrar e continuava de olhos cerrados. Plinio, com a alma cortada de angústia, dela se aproximou, pé ante pé, e sem dizer palavra deu-lhe um beijo. Dª Lucilia não abriu sequer os olhos, mas percebeu de quem se tratava e perguntou quase num sussurro:
— Meu filho, é você?
Ao que ele respondeu, mais sossegado, ouvindo a voz de sua querida mãe:
— Mãezinha, sou eu.
Dª Lucilia, então, do fundo de seu lancinante padecimento, lembrou-se de que Plinio precisava de certos cuidados e, num extremo de abnegação vinda do mais íntimo da alma, lhe perguntou:
— Meu filho, você está tomando o remédio para seu defluxo, direitinho?
É natural que seus filhos, percebendo na mãe tanto esquecimento de si, tenham-se afeiçoado a ela ainda mais. Ao sair do quarto, ficara-lhes para sempre gravada no espírito a lição desse belo gesto. Querer bem até o fim é isto!

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)