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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

“Um agrado de Plinio”

À semelhança das senhoras de seu tempo, mamãe usava uma pulseira de marfim com incrustações, vinda da Europa. E eu, aos doze ou treze anos, brincando com o braço dela — não sem alguma brutalidade inerente aos meninos que vão se tornando mais velhos —, girava a pulseira, e, sendo o marfim um material muito duro, machucava-a um pouco. Não se tratava de nada muito grave, mas, sendo a pulseira muito dura, isso fez uma mancha escura num ponto de seu braço. E ela não se queixou de nada; em vez de se zangar — porque uma mancha dessas é feia, uma senhora não gosta de ter isso —, ela ficou encantada.
Certo dia, quando almoçávamos em casa de minha avó, onde morávamos, uma pessoa da família perguntou para ela:
— Lucilia, o que é esta machucadura em seu braço?
Ela olhou — para ter tempo de pensar — e depois disse com muita naturalidade:
— Isso foi um agrado do Plinio.
Foi uma gargalhada geral na mesa, gargalhada afetuosa, mas que mexia com ela. Era tal o encanto dela por mim, que até quando eu, involuntariamente, a machucava, ela ficava maravilhada.
Mesmo quando eu era importuno, a mansidão de mamãe a fazia ficar ainda mais encantada; e isso me deixava enlevadíssimo por ela.

A harmonia afetuosa e grandiosa que ela exprimia, fazia-me pensar: “Ela é formidável, acima de qualquer pessoa que eu conheço. Eu vejo tantas pessoas em torno dela, pessoas muito boas, mas ninguém tem essa virtude extraordinária, essa harmonia de personalidade, essa lógica e esse afeto contínuo que ela tem.”

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Os nobres deveres da viuvez

A partir de 27 de janeiro de 1961, o trato feito por Dª Lucilia com o esposo, de rezar uma Ave-Maria diante do pôr-do-sol, entraria em vigor. Alguns dias após um derrame cerebral, Dr. João Paulo, então com 87 anos de idade, rendeu sua alma a Deus.
Embora Dª Lucilia estivesse de há muito com seu espírito preparado para a eventualidade da morte do esposo, a rapidez do desfecho a abalou. Mas era tal a sua paz de espírito, e tão grande sua confiança na Providência que, sem deixar de demonstrar natural tristeza e dor, não perdeu a serenidade em nenhum momento, guardando um aplomb admirável.
Aplomb, isto é, o estar de pé com aprumo, seguindo o excelso exemplo de Nossa Senhora aos pés da Cruz, era sua constante atitude diante da dor.
Uma vez falecido seu esposo, Dª Lucilia mudou alguns hábitos de acordo com sua nova situação. Guardou luto até o fim de seus dias, inclusive deixando de usar jóias pelo espaço de um ano, tempo acostumado.
De início, Dr. Plinio achou tudo isso natural, mas, passado certo tempo, perguntou-lhe:
— Mãezinha, a senhora deixou de usar seu colar de pérolas? (Tratava-se de uma jóia que ela usava diariamente.)
— Meu filho, eu não o usarei mais. Uma senhora só se adorna para seu esposo.
De fato nunca mais usou o colar, tão de seu gosto, por onde se vê com que despretensão e desapego, ao longo de toda sua vida, utilizara suas belas jóias.
Poucos meses depois, Dr. Plinio convidou sua mãe a sair com ele para uma visita, certo de que ela ficaria agradada e se distrairia um pouco. A resposta dela não deixou de surpreendê-lo, pela seriedade demonstrada no cumprimento dos deveres para com o falecido esposo.
— Eu vou — respondeu com sua firme mansidão — mas depois de ter visitado, uma vez pelo menos, a sepultura de seu pai. Antes disso, não farei visita alguma.

De fato, ela nunca mais saiu para visitas, pois não lhe foi possível ir ao jazigo de seu esposo. Naquela época não se permitia a entrada de automóveis no Cemitério da Consolação. Já tendo muita dificuldade de locomoção, não era podia Dª Lucilia percorrer considerável distância a pé, o que tornou impraticável a realização de seu desejo.

sábado, 8 de outubro de 2016

Um trato para a eternidade

Certo dia estavam Dª Lucilia e seu esposo na sala de jantar, contemplando as belezas do entardecer, que na cidade de São Paulo se reveste com frequência de esplêndidos coloridos. Mas ela não se limitava a apreciar do ponto de vista natural a vivacidade cambiante das cores ígneas com as quais o sol, em seu declínio lento e majestoso, ia pintando os tufos de nuvens, na aparência espalhados no céu por mãos invisíveis. Seu espírito logo se elevava a considerações de ordem sobrenatural. E essa cena lhe trouxe à mente quão próximos estavam, ela e seu esposo, do ocaso da vida terrena e da aurora da eternidade. Fez-lhe então a seguinte proposta:
— João Paulo, vamos fazer um trato?... Já estamos idosos e não sabemos quem de nós vai ficar só. Aquele que restar reza pelo outro uma Ave-Maria, todas as tardes, diante do pôr-do-sol.

Dr. João Paulo aquiesceu. Seria ele o grande beneficiado desse acordo, pois em breve terminariam seus dias, e ela cumpriria fielmente a promessa até o fim de sua vida.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Harmoniosa vida conjugal

Havendo acompanhado por mais de 50 anos o convívio de pais, Dr. Plinio podia dar o testemunho de nunca haver presenciado uma desavença entre eles. Nunca uma palavra áspera ou um levantar de voz, nem tampouco uma bravata ou um gesto de mal-humor.
 “Dr. João Paulo era o mais pacífico e cordato dos homens”, contava Dr. Plinio, “e Dª Lucilia, uma senhora boníssima. Ele morreu com 84 anos e ela, com 92. Portanto, longa vida conjugal.
“Claro, às vezes eles entravam em desacordo e discutiam. Ambos eram pessoas inteligentes, e apresentavam argumentos apertados de parte a parte. Porém, o máximo que acontecia, quando meu pai ficava com os nervos um pouco mais tomados, era ele dizer para mamãe: ‘Senhora, mas esta opinião?!’ Parece que é comum no Nordeste o marido zangado chamar a esposa de ‘senhora’. Não era uma atitude de desaforo, mas quase uma cortesia.
“Por sua vez, mamãe tinha um modo característico de levantar a cabeça e contestar. Usava um penteado em forma de coque, e um certo jeito de movê-lo era sinal de desacordo. Manifestando-se às vezes dessa maneira, ela dizia: ‘Não, João Paulo, eu não acho isso...’
“Acima dessas minúsculas e inevitáveis desavenças, mamãe devotava a seu marido o respeito e a obediência que se deve esperar de uma esposa verdadeiramente católica, de maneira que ela nunca teria feito nada que fosse do desagrado dele.
“A única circunstância em que ele se impacientava — para o bem de mamãe — era quando ela, à medida que foi avançando em idade, em vez de se deitar, ficava rezando até altas horas da madrugada. Como pernambucano, habituado a se recolher cedo, papai assustava-se com aqueles horários tardios, julgando-os prejudiciais à saúde da esposa. Então, quando o relógio batia uma hora, uma e meia da manhã, ele às vezes se levantava da cama e se dirigia até a sala onde ela se encontrava imersa nas suas orações.
“Cena por mim presenciada em diversas ocasiões: papai se detinha um pouco atrás dela; mamãe percebia a presença dele mas não se voltava, continuando a rezar. Ele dizia:
“— O que é isto, senhora?! Já são quase duas horas!
“Ela não se importava, fazia-lhe um pequeno sinal, amável, como quem diz: “Já estou indo”, mas acabava por rezar tudo o que ela queria...

“Às vezes ele retornava, insistia, e mamãe então encerrava suas orações, acompanhando-o para o quarto.”
Continua

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Profundo senso do dever doméstico

Continuação do post anterior
No âmbito da vida de família, Dª Lucilia considerava seu dever proporcionar bem- estar, alegria e elevação de alma ao ambiente para seu marido, e formar os filhos de maneira a serem perfeitos católicos e cumprirem sua missão nesta terra. Para isto, devia marcar o lar doméstico com uma afabilidade e um afeto pelos quais ele se tornasse atraente, e fosse um meio de disputar a influência aos antros de perdição. Além disso, habituar os filhos que tivessem tomado essa tradição, a formar depois as respectivas proles na mesma escola, perpetuando tais costumes ao longo das gerações, porque assim se devia viver.
Ela era recolhida, tranquila, forte e meiga em todas as circunstâncias da vida. Estas podiam mudar, e ela mantinha sempre idêntico estado de espírito, por trás do qual palpitava seu entranhado senso do dever.
Profundamente católica, Dª Lucilia não entendia que a finalidade do homem neste mundo fosse conquistar honras, prazeres, glórias e dinheiro, para se deleitar o mais possível e depois estourar de morto. Havia, sem dúvida, satisfações e tristezas no existir humano. Devia-se, até, tirar partido dos prazeres lícitos para suportar as tristezas. Para ela, porém, a vida era antes de tudo um dever a cumprir, em ordem a formar a própria alma segundo os desígnios de Deus. Ou seja, com vistas à santificação e à salvação eterna.

Dever que ela procurou realizar, de forma exímia, em sua condição de esposa modelar e de extremosa mãe.
Continua

sábado, 23 de julho de 2016

Deveres de esposa

No ano de 1905, o Dr. Antônio Ribeiro dos Santos, conhecido advogado em São Paulo, que havia feito boa fortuna, preocupava-se com o futuro de suas três filhas solteiras. Resolveu ter uma conversa séria com a mais velha delas, Lucilia, então com 29 anos.
— Minha filha, se eu morrer sem você se casar, tocar-lhe-á como herança uma boa quantidade de dinheiro. Você, porém, irá ficando madura, e o casamento se tornará cada vez mais difícil. Ora, aqui há esse moço que está trabalhando comigo, o Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira, que manifesta o desejo de se casar com você. Não dou ordem, mas aconselho que você se case. Ele tem várias qualidades, entre as quais a de pertencer a uma ilustre família de Pernambuco. É sobrinho do Conselheiro João Alfredo (homem famoso naquele tempo, pois fora presidente do Conselho de Ministros do Império, e assinara a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888). Terceiro, é de uma inteligência invulgar, e, portanto, talvez faça fortuna. Insisto, pois, na recomendação de que você aceite a proposta dele.
— Acho que ele é uma pessoa distinta, não tem dúvida, mas eu preciso pensar melhor — respondeu Lucilia.
Dr. Antônio ainda ponderou que o dote a ser levado por ela seria suficiente para o casal encaminhar a vida. Ele era advogado, podia sair-se bem na carreira, e, para ela, casar seria mesmo menos inconveniente do que permanecer solteira.
— Mas penso que talvez fosse melhor eu me tornar freira — volveu Lucilia.
— Bom, talvez... Mas pense bem no que irá fazer. É verdade que casamento traz desilusões, contudo você verá que a vida religiosa as traz igualmente. Reflita com mais vagar sobre o que você deseja antes de decidir.
Lucilia, que nutria um extraordinário encanto e enlevo pelo pai, na mesma hora lhe respondeu:
— Papai, eu sigo cegamente o rumo que o senhor me indicar. O que é mesmo que o senhor aconselha?
— Dado você como é, e como me parece ser o Dr. João Paulo, acho mais acertado casar com ele.
— Está bom, farei conforme os desejos do senhor.
Matrimônio encarado com limpidez de olhar
E a jovem Lucilia cumpriu a palavra. Tornou-se noiva de Dr. João Paulo, e o casamento se realizou pouco tempo depois.
Desde o início, Dª Lucilia encarou o estado matrimonial com saliente candura e limpidez de olhar e, ao mesmo tempo, com elevação de espírito, colocava-se sob o amparo e proteção da Santíssima Virgem para o perfeito cumprimento de seus deveres de esposa e mãe.

 A vida de dona de casa dará maior profundidade ao seu espírito sobrenatural, que tomará contornos mais definidos à medida que problemas, aflições e achaques se multiplicarem. Fiel a seu antigo costume, juntava as mãos, e com os olhos postos no Sagrado Coração de Jesus, implorava, por meio de sua querida Madrinha, Nossa Senhora da Penha, amparo e solução.
Continua

sábado, 11 de junho de 2016

Carinho extremo...

À primeira vista, dir-se-ia que veneração e ternura são incompatíveis, mas, na realidade, tais sentimentos se confundem a propósito do carinho: sentindo-se objeto do carinho materno, o filho deseja retribuí-lo.
A veneração é a manifestação do grande respeito que um ser inferior presta a um superior.
Em princípio, o superior tem o direito de julgar e punir o inferior. A mãe, embora anciã e sem forças, continua tendo o poder e o direito de castigar seu filho maior de idade. Para um filho que sabe o que é uma mãe, e uma mãe que entende o significado deste título — portanto é mãe no sentido próprio, direto e pleno da palavra —, uma censura, um conselho, um elogio feito pela mãe tem o peso que poucas coisas humanas possuem. Só um elogio, um conselho ou uma censura da Santa Igreja podem pesar mais sobre um homem.
Essa veneração envolve certo elemento que a Igreja, empregando muito bonita expressão, define como temor reverencial; ou seja, o temor que se tem a uma pessoa não tanto devido à força de que ela dispõe, quanto ao respeito que impõe. Então, o temor reverencial que o filho tem para com a mãe parece ser o contrário do carinho. Porque o carinho é de modo especial o afeto que o mais velho, mais poderoso, mais pleno dá àquele que é mais fraco, mais débil.
Veneração, ternura e carinho
Pode-se falar, por exemplo, do carinho de uma mãe para com seu filho. É mais difícil falar do carinho de um filho para com sua mãe. O próprio “inho” da palavra “carinho” tem qualquer coisa que soa aos nossos ouvidos como se fosse um diminutivo, o qual vai bem para quem é mais em relação a quem é menos; e não tão bem para aquele que é menos relativamente a quem é mais.
Na realidade, porém, a veneração e a ternura se confundem completamente, a propósito do carinho. Quer dizer, o filho, sentindo-se objeto do carinho da mãe, tem um desejo de retribuí-lo; o carinho da mãe desperta o carinho no coração do filho.
De maneira tal que um homem poderá ser durante toda a sua vida particularmente bom, misericordioso, condescendente — no bom sentido da palavra — se ele teve uma mãe muito carinhosa. Porque nasce no coração dele o carinho e, portanto, todas as formas de bondade. Ele gosta até de se sacrificar, de fazer alguma coisa difícil por quem merece seu carinho.

Então, o carinho materno jorrando sobre o filho é como a água que cai de grande altura sobre uma pedra. Quanto maior a altura, mais a água sobe de novo ao bater na pedra. Assim é o carinho materno: verte-se sobre o filho e deste como que respingam gotas de água, as quais se pudessem voltariam ao alto. O equilíbrio dessas duas coisas faz propriamente o equilíbrio do homem, porque quando ele só quer impor o respeito dos outros, mas não sabe ser afetuoso, fica faltando algo; e quando apenas é afetuoso, porém não sabe impor respeito, ele não é um homem autêntico, porque o próprio do homem é saber se impor.
Quando o homem impõe respeito e tem carinho, ele possui um equilíbrio semelhante ao do pêndulo de um relógio, que chega a um extremo, vai ao outro extremo, e deste volta para o primeiro, fazendo os ponteiros marcarem a hora certa.
Debaixo de certo ponto de vista, o carinho e a veneração também se equilibram dessa forma: quem chega ao extremo do carinho fica desejoso de venerar; quem atinge o extremo da veneração quer acariciar. Essas duas coisas se completam.
Compreende-se assim que em presença de uma mãe como foi Dona Lucilia, a tendência para a veneração e para o carinho eram enormes. 
Texto extraído dos comentários de Plinio Correa de Oliveira

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Incomparável intérprete da Santa Igreja (cont)

Continuação do post anterior
Intransigente quanto aos princípios
Dela também aprendi a intransigência, pois ela a tinha muito. Sua irmã mais nova, chamada Zili, costumava dizer que ela era uma “teimosa mansa”. Nunca ela era teimosa com coisas pessoais, pois quando era algo de interesse próprio ela cedia com toda facilidade. Porém, quando se tratava de defender um princípio, ela era implacável!
Mestra da admiração ao próximo
Também ela me ensinou o modo de admirar as pessoas. Era muito raro ela fazer um comentário malévolo em relação a alguém. Criticar alguém por ter adotado uma posição revolucionária era muito incomum; via-se que ela tomava atitude de descontentamento, mas só a vi criticar alguém quando era para abrir meus olhos ao mal que essa pessoa poderia me fazer.
Nobilitada pelos sofrimentos
Dentre todos esses exemplos que via nela, o que mais estava acentuado era sua atitude diante da dor.
Sua vida foi muito cheia de sofrimentos. Já moça, tardou muito em se casar; o normal era que toda moça se casasse, e cedo.
Ela temia que, morrendo o pai dela, a vida da família toda mudasse e ela ficasse como uma solteirona, o que naquele tempo era uma coisa inconcebível. Ela chegou a pensar em ficar freira, mas ela não tinha verdadeira vocação religiosa. Meu avô disse isso a ela, mas deixou-a livre para escolher. Mas a confiança que ela possuía no pai fazia com que sua opinião fosse decisiva.
Após ter se casado, durante muito tempo viveu entre a vida e morte, a tal ponto que teve que ir à Alemanha para submeter-se a uma dolorosa e arriscadíssima operação. Diante de todos os sofrimentos, ela aceitava a dor como sendo um fator que enobrece a vida. Para ela, quem não sofreu não viveu, pois o normal da vida é sofrer, e fazê-lo com paz, suavidade e ânimo. Ser derrotado nos acontecimentos da vida não é nada se, dentro desses acontecimentos, se toma as atitudes que devia, enfrentando-os sem se incomodar. A aceitação desses sofrimentos, de fato, trouxe para ela uma extraordinária nobilitação, dando-lhe, no fim da vida, o aspecto de uma matriarca sumamente venerável, respeitável e doce, que encantava todos que a conheciam.
Perfeita contrarrevolucionária tendencial
Outro aspecto da formação que recebi de Dona Lucilia é o seguinte: por causa dessa elevação de alma dela, eu me dei conta de que se eu aceitasse qualquer dos postulados da Revolução, que iam surgindo, eu tomaria, pela lógica que há nas coisas, uma posição de alma contraria à elevação de espírito dela. Ainda quando se tratasse de matérias, princípios e problemas que ela nem sequer conhecia. Mas a alma dela era tal que, como que, vivia por cima de toda esta temática, e embora não a conhecesse inteiramente, por eminência continha a Contra-Revolução.
Desta forma era incompatível com aquela elevação que havia na alma dela quem aderisse à Revolução; e mesmo quando se aceitasse somente algumas de suas teses, isso pressupunha uma fratura com o estado de espírito de Dona Lucilia. Vista por esse ângulo, a Contra-Revolução estava presente nela.
Esta elevação de espírito que havia em Mamãe teve grande papel no fato de eu rejeitar as tendências revolucionárias que surgiam.
No campo das ideias nunca vi Mamãe aceitar uma posição revolucionária, mas ela não as compreendia com toda a profundidade, mas tendencialmente Dona Lucilia foi profundamente contrarrevolucionária.  

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 29/11/1981

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Incomparável intérprete da Santa Igreja

Dona Lucilia agia nas tendências de seu filho de maneira que, mais tarde, este pudesse explicitar a verdade. Vejamos uma descrição dada por seu filho Plinio Correa de Oliveira.
Quando meus olhos começaram a se abrir para a Igreja Católica, pelo favor de Nossa Senhora, vi desde logo que ela era divina e infalível, e aceitei-a como tal.
Nessa compreensão Dona Lucilia teve um importante papel, pois percebendo inúmeras afinidades entre a alma dela e o espírito da Igreja eu compreendi muita coisa da Igreja por aquilo que eu conhecia de Mamãe.
Também logo se tornou claro em meu espírito que o padrão da verdade não era Mamãe, mas sim a Igreja. Porém, muitas das explicações sobre a Doutrina da Igreja eu entendia porque interpretava à luz do que eu via em Dona Lucilia e aprendia dela. Quer dizer, ela foi uma intérprete incomparável da Igreja para mim. das mães, o qual ela cumpriu eximiamente.
Cumprido o maior dever de mãe
Minha seriedade de alma se deve em larga medida a ela. Caso eu não tivesse conhecido a Igreja, eu teria jogado isso tudo pelo caminho. Pois foi a Fé que me robusteceu nisso, espero em Nossa Senhora que definitivamente.
Mas, se a Fé teve tanta eficácia foi porque — como uma mãe ideal — Dona Lucilia preparou-me de modo incomparável para recebê-la. Este é, segundo a Doutrina Católica, um dos mais importantes deveres das mães, o qual ela cumpriu eximiamente.
Modelo de verdadeira amizade
Dentre as inúmeras coisas que aprendi dela, estão as seguintes: A prestatividade é um dos sinais da amizade, mas não é sua substância. A substância da amizade é a atração cheia de benevolência, produzida pela semelhança. Semelhança que deve ser segundo Deus, do contrário é inútil. Esta semelhança produz uma afinidade e uma benevolência que se explicam pelo princípio: “omnes ens apetit sum esse” — cada ser ama seu próprio ser — e, portanto, ama aquilo que é semelhança dele. Esta benevolência comporta uma ternura e um afago que levados a fundo, como era levado entre ela e eu, podem chegar a um grau supereminente que desabrocha em compaixão e paciência.
A compaixão, por sua vez, leva à contemporização e ao perdão. Foi por ela que Santa Mônica, apesar dos maiores desatinos do filho, não deixou de querê-lo bem e esperar seu retorno como o do filho pródigo. Essa benevolência, não basta descrever teoricamente para compreendê-la; é preciso tê-la sentido.
Não pude deixar de lembrar-me de Mamãe quando li a afirmação de que Santa Teresinha considerava a amizade uma coisa tão séria que uma vez que ela a tinha dado a uma pessoa ela não rompia nunca. Ainda quando o outro lado rompesse, ela conservava suas disposições benévolas intactas, para o caso de o outro lado abrir-se de novo.
Essa longanimidade e paciência existiam em Dona Lucilia num grau inimaginável. Nela eu nunca vi cólera, ressentimento, desejo de vingança, alegria pelo mal ocorrido a alguém que a tivesse feito algum mal individualmente. Pelo contrário, o que sempre notei nela era uma completa equanimidade, não só para com as pessoas que tivessem feito mal a ela, mas também — o que para ela era mais grave — para os que tivessem feito mal a mim.
Se alguém tivesse relações muito respeitosas e cordiais com ela, mas cometesse contra mim as maiores injustiças, e depois a procurasse, ela o trataria como tratava na véspera: com tristeza, manifestando-se triste com ele, mas com o mesmo espírito afável, bondoso e acolhedor.

Este seu estado de espírito era tal que creio que se hoje, por absurdo, essa pessoa passando diante da sepultura dela encontrasse alguém rezando lá e lançasse contra ele toda espécie de injúria, eu não tenho a menor dúvida de que ela pediria a Nossa Senhora que desse uma graça e tocasse a alma dele. Chegando até este extremo de, com muita tristeza, mas com meiguice, ainda querer advogar a causa dele.
Continua no próximo post

domingo, 22 de março de 2015

Séria para com o filho

No dia de minha formatura na Faculdade de Direito, ocasião em que  os estudantes usavam fraque e cartola para a cerimônia, lembro-me de  um fato que me impressionou profundamente  pela  seriedade  de  Dona Lucilia. A formatura realizou-se  no prédio da faculdade. As famílias  dos que se formavam compareciam  inteiras ao salão nobre, grande e de  boa aparência, da própria faculdade,  para a realização de tal cerimônia.  Todos os docentes com becas, numa  atitude muito solene. Eram chamados, um a um, os vários alunos, e entregava-se o diploma. 
Tive eu também que mandar fazer meu fraque. Entretanto, por não  considerar nada agradável o fato de  experimentar as novas roupas, para  que o alfaiate com alfinetes e giz pudesse tomar as medidas correspondentes, adiei um tanto a encomenda  do fraque.
Resultou daí que o alfaiate prometeu aprontar o fraque para o dia  estrito da formatura, e não para os  dias anteriores, como se costuma fazer.
Na manhã do dia da formatura, o  fraque ainda não estava pronto. Mamãe não me indagou, e também eu  evitei estar próximo dela, pois certamente  ficaria  muito  apreensiva  caso soubesse que o fraque não estava pronto. Particularmente, a formatura não era o que mais me preocupava, pois já possuía o título e podia  advogar.
Não vem o seu fraque?
Entretanto, não era desta forma  que ela considerava o fato. Sendo a  formatura  uma  grande  solenidade,  elevada, ela entendia que todos deviam prestigiar e, portanto, também  eu tinha obrigação de estar presente  em tal evento. Dar à formatura uma importância secundária não era uma  atitude séria. 
Resultado: ela com certa angústia  perguntou-me:
— Mas não vem o seu fraque, filhão?
— Mamãe, o fraque já chega. A  senhora  pode  entrar  no  automóvel  com minha irmã e meu pai, e seguem  para a Faculdade de Direito. Eu os  alcanço lá.
Notei  que  ela  não  ficou  muito  agradada, entretanto não podia fazer outra coisa. Achou melhor, então, dirigir-se para a faculdade a fim  de arranjar um lugar para sentar-se,  pois ela padecia um incômodo nos  pés, devido a sua idade, que lhe impedia de permanecer em pé por muito tempo. Então, seguiu.
Por longo tempo esperei, porém  o fraque não chegava. O que acontecera durante esse tempo, nem sequer cheguei a imaginar.  po da volta e das comemorações, ela  permaneceu inteiramente normal.
Aparente normalidade
Afinal de contas o fraque chegou.  Eu  vesti  depressa,  tomei  um  automóvel e rumei para a Faculdade de  Direito. Quando lá cheguei — a sala da formatura era um pouco longa  —, achei pelo ambiente que a cerimônia estava terminando. Fui apressadamente até à entrada da sala para  ver se ainda chegava a tempo. Quando entrei, o secretário da faculdade,  que lia os nomes dos alunos, estava  no  penúltimo  nome.  O  último  nome seria o meu, pois eles haviam me  chamado, mas como não respondesse, deixaram-me então para o fim.
Afinal,  apresentei-me  e  ele  chamou:
— Plinio Corrêa de Oliveira.
— Presente! Dona Lucilia fitou-me, com olhar alegre, enquanto fui até a frente para receber o diploma. Dirigi-me então até ela para receber seus cumprimentos, como também da família toda, e saímos. Durante todo o tem-

Pelo amor de Deus, nunca repita isso
Ao chegar em casa, Mamãe voltou-se a mim dizendo:
— Plinio, precisaria dizer uma palavra a você em particular. Venha comigo ao meu quarto.
O quarto dela, porém, era na parte  mais  interna  da  casa,  depois  de  um  corredor.  Era  um  apartamento  que ela possuía ali.
Eu a segui, e ela nada me disse,  mantendo um ar de normalidade. Tive o receio de que fosse algum drama de família, ou algo semelhante.  Entrei, ela fechou a porta a chave, e  permaneci  intrigado  por  desconhecer a razão daquele ato. 
Então, Mamãe ajoelhou-se diante de mim, atitude que nunca tomara na vida. O contrário é normal, o  filho por uma razão especial ajoelhar-se diante de sua mãe para receber a bênção dela, por exemplo.  Mas uma mãe ajoelhar-se diante do  filho, dir-se-ia que não tem propósito.
Então,  compreendi  profundamente  como  ela  tomava  a  sério  as  menores coisas da vida.
Ajoelhada diante de mim, Dona  Lucilia disse o seguinte:
— Pelo amor de Deus, mas pelo amor de Deus, você tem de prometer que nunca virá a repetir um  atraso como este. Seja pontual nas  coisas,  e  faça  tudo  com  compenetração.
— Mas mamãe... A senhora me vê  chegar sempre um tanto impontual e  nunca fica apreensiva, até um ou outro brinca comigo diante da senhora,  a senhora sorri e não se incomoda —  os parentes brincavam muito comigo porque eu vivia atrasado — e nesse caso a senhora vai tomar a sério?  Meu bem, levante-se — e quis ajudá-la a levantar.
— Não me levanto enquanto você  não me prometer.
— Mas não posso prometer uma  coisa  dessas,  pois  é  uma  mudança  completa nos meus hábitos. Faz parte de meu temperamento deixar que as coisas fluam, sem me preocupar.
Depois  disse  para  ela,  pois  era  uma forma de fazer um amável gracejo:
— É meu sangue Ribeiro dos Santos que faz isso.
Ribeiro dos Santos era a família  dela.  Então,  dava  a  entender  que  era  herdado  da  família  dela.  Eu  disse com respeito e até com carinho, mas disse. Entretanto, ela me  respondeu:
— Ou você me promete, ou nunca  mais eu quererei obrigar você a fazê-lo...
—  Então,  faremos  uma  coisa.  Prometo à senhora que em todas as  ocasiões graves e gravíssimas nunca  me atrasarei. Porém depois a senhora me explica a razão pela qual não  devo me atrasar.
—  Durante  todo  o  tempo,  sua  irmã  e  eu  ficamos  na  aflição  de  que  um  automóvel  houvesse  se  chocado com você pelo caminho,  deixando-o morto ou esticado numa esquina. Isso por você ter atrasado a encomenda de um fraque.  Está errado, você não deveria agir  dessa forma.
Sempre as consequências mais profundas
Eu a acariciei e prometi que nas ocasiões de grande gravidade jamais  me atrasaria.
As circunstâncias ou a Providência quiseram algo diferente. Eu sofri um desastre de automóvel — dirse-ia que talvez ela previa esse perigo —, porém tal fato não se deveu a  atraso  nenhum.  Lembro-me de ter chegado à  hora,  para  embarcar  no  automóvel, então ele seguiu seu curso; o desastre ocorreu por outras razões.
Então, eu compreendi como Mamãe discernia nas coisas suas consequências mais profundas, o mal que  podiam  produzir,  e  como  se  devia  evitá-lo.  

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 1/ 7/ 1995

quinta-feira, 12 de março de 2015

Exemplo de amor materno ( Cont )

Continuação do post anterior
Zelando pela honra dos filhos
Por experiência própria, ela sabia quanto a má saúde física faz sofrer a alma. E para evitar tais sofrimentos ela queria que fôssemos saudáveis. Mamãe contava, com todos os pormenores possíveis e como um drama, o perigo de vida pelo qual passei quando criança; ela ainda vivia aquele drama. Explicava como rezou e, depois de afastado o risco, como agradeceu.
Dona Lucilia tinha grande cuidado para que minha irmã e eu — por uma questão de honra em face de nós mesmos e também de Deus, não dos outros — fôssemos pessoas comme il faut, quer dizer, como se deve ser. Então, dentes, o asseio em geral, alguma preocupação de saúde, mas, sobretudo a noção de honra, que é uma idéia católica, e no tempo dos pais dela, era uma tradição. Por exemplo, na pintura representando a mãe dela, a idéia de honra da pessoa perante si mesma está presente, e também, de modo menos saliente, nas pessoas retratadas em outros quadros de nossa residência.
Há determinadas regras para que as pessoas se tornem dignas. Naturalmente ela cuidava de alguns aspectos disso com relação a minha irmã, segundo certo matiz; é a ordem das coisas. Comigo era de outro modo.
Mamãe acompanhava muito toda a minha vida, sabia onde e como eu estava, quais eram os meus horários de refeição, de saída, de chegada, entretanto sem ar de fiscalização, nem mesmo de vigilância, mas simplesmente com atenção. E atenção extrema, acompanhando certos pormenores, como, por exemplo, a roupa que eu trajava.
Síntese das tradições da família
Por alguns lados Dona Lucilia era uma síntese das tradições de sua família; por outros, um renouveau de uma série de coisas que, ao longo das gerações, foram sofrendo um processo de modernização e, portanto, se alterando. Em algumas matérias ela comunicava — para usar uma expressão atual — uma mensagem inteiramente diversa. Em outras refletia propriamente a tradição.
O essencial da nota que diferenciava mamãe das outras pessoas era o seguinte: a idéia da verdade absoluta, do bem absoluto, do eterno, imperecível, era muito mais tênue nos outros do que nela. De maneira que eles não se opunham, em princípio, a nenhuma modificação; iam sempre acompanhando numa linha conservadora. Enquanto ela, sendo o caso, reagia: “Isso não pode ser. Há aqui um princípio, um modo de ser, uma tradição imutável da qual não abro mão.”
Ela conservava as tradições católicas com muito mais fé do que seus antepassados. Não quero dizer que não possuíssem fé, mas não tinham a fé que ela possuía.
O afeto pelo filho vinha em larga medida por ver os lados bons de sua alma
O afeto dela para comigo vinha, evidentemente, pelo fato de ser minha mãe, mas, sobretudo, porque ela via muito bem os aspectos bons da minha alma.
Não se pode dizer que mamãe me queria “debandadamente”, pois a palavra “debandada” não tem a dignidade devida. Nela nada era debandado, embora pudesse ser com uma intensidade inteira.
Na época de mamãe, os homens eram avaliados muito mais pelo que eram do que pelo que faziam. Assim, pelo pouco que ela sabia que eu fazia, achava minha vida justificada. Em minha vida de lutas, algumas coisas ela não via, pois de modo mais consciente ou menos, tinha também a preocupação de não engrandecer o que era dela. Portanto, de não me considerar maior do que estava na proporção do universo que ela conhecia.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 14/3/81

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Exemplo de amor materno

O modo de ser, as atitudes, a maneira de falar de Dona Lucilia causaram profunda e duradoura impressão em seu filho. Durante toda a sua vida, Dr. Plinio se recordará de episódios e situações que o deixaram encantado. Acompanhemo-lo em algumas dessas recordações.
Entre Dona Lucilia e mim não havia esse relacionamento mãe-filho tão comum e que poderia ser expresso com um exemplo: ela aproximar-se de mim e dizer-me alguma vez: “Meu filho você deve estar sofrendo com tal coisa...”; e eu responder: “Mas, meu bem! a senhora também...” Isso absolutamente nunca acontecia. Havia de parte a parte uma espécie de pudor nesse ponto.
Presença suave, cerimoniosa e comunicativa
A presença dela me era muitíssimo suave. Eu percebia como mamãe aguentava suas dificuldades, e isto me ajudava a entender o que eu devia fazer para suportar as minhas. Mas julgo que a maior parte dos meus revezes, ela não percebeu, pois estavam inteiramente fora do ângulo de visão dela. Sua vida era de tal maneira segundo outro estilo, que mamãe não tinha possibilidade de compreender certos problemas com os quais me defrontava.
Ela me tratava com carinho, porém sempre mantendo certa distância cerimoniosa. Era um modo de ser próprio à sua família, pelo qual as pessoas se comunicavam muito entre si, sem falar.
Devoção a Nossa Senhora
Na família dela havia devoção a Nossa Senhora da Penha, cujo santuário em São Paulo era considerado como uma fonte de milagres. Em casos de aflição ou coisas semelhantes, era muito frequente as pessoas exclamarem “Nossa Senhora da Penha!” Até quando eu era mocinho, faziam-se promessas de ir a pé até a Penha, para se conseguir algum benefício. Eu mesmo fiz uma promessa de caminhar até lá.
Mamãe foi em moça, já casada, mais de uma vez à Penha. Ela tinha muita devoção a Nossa Senhora, que foi se tornando muito mais saliente à medida em que eu, gota a gota, fui-lhe transmitindo a doutrina da Mediação Universal de Nossa Senhora e considerações sobre Ela.
Falei-lhe sobre o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, a consagração a Nossa Senhora, mas não a respeito da escravidão, porque ela não entenderia. A diferença de meridiano entre a geração dela e a seguinte é enorme!

Para mamãe, a escravidão se referia, primariamente, à que sofreram os negros e contra a qual o pai dela lutou, porque era um abolicionista; o Dr. João Alfredo, tio de meu pai, trabalhou nesse sentido; e a Princesa Isabel, uma eminente personagem, aboliu a escravidão no Brasil.
Continua no próximo post

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Exemplo de perfeição

Com extrema maternalidade, Dona Lucilia procurava orientar seus filhos para uma vida de perfeição. Dr. Plinio se recorda de fatos do dia-a-dia que deixam transparecer a bondade de sua mãe.
Se houve uma pessoa que me deu todas as formas de exemplos de perfeição, foi Dona Lucilia. Em primeiro lugar pela sua elevação moral. O espírito dela tinha certa tendência, continuamente manifestada, para o que há de mais alto, mais belo, mais delicado.
À noite, após fazer todas suas orações, ela me esperava chegar da rua para trocar mais uma palavrinha comigo. Eu percebia que o tempo decorrido entre o término de suas preces e minha chegada era considerável, às vezes três quartos de hora. Mamãe estava cansada, com sono, mas não queria ir dormir. Não sei no que ela pensava, mas eu notava que seu espírito se desprendia de regiões mais altas do pensamento para descer e conversar comigo.
Espírito impregnado pelo “perfume” da elevação
Imaginem uma pessoa que subisse em uma montanha, no alto da qual houvesse árvores com flores perfumadíssimas, e lá ficasse certo tempo. Quando descesse, seus trajes estariam penetrados do cheiro daquelas flores. Assim, eu tinha a impressão de que seu espírito ficava impregnado do perfume das coisas nas quais ela tinha pensado.
Eu não ia conversar com ela para tratar de algum assunto específico, mas apenas por ser seu filho; era inteiramente espontâneo. E aquilo que me ocorresse e tivesse a vontade de dizer-lhe naquele momento, eu falava. Ainda que fosse uma coisa insignificante, por exemplo, um episódio com o cobrador das passagens de bonde porque ele não tinha troco. Ela entrava naquele assunto, embora fosse minúsculo.
Algumas vezes mamãe me perguntava: “Filhão, o que você fez hoje à tarde após sair do escritório?” Eu lhe contava: fui ao dentista ou ao barbeiro ou a uma loja paracomprar um par de sapatos. Ela prestava atenção e iluminava o assunto pelo espírito dela, fazendo assim que o tema deixasse de ser banal.
Mas não prolongava a conversa perguntando: “Onde estão os sapatos? São bonitos  ou feios?” Normalmente as senhoras se interessam por essas coisas.
Aliás, eu gostava de sapatos bem largos, e a única preocupação dela nessa matéria tão banal era que, sendo folgados demais, de repente me causassem um tombo. Então ela sempre dizia:
— O sapato não é largo demais?
Eu sorria e respondia:
— Para meu gosto não, para o seu é.
— Olha, filhão, você toma um tombo... — Reze por mim — e encerrava o assunto.

Continua no próximo post

sábado, 22 de novembro de 2014

Primeiros encantos com a Igreja

Continuação do post anterior
Pouco depois de nossa Primeira Comunhão, terminado o curso de catecismo, o meu vínculo estreito com mamãe me ajudaria a discernir outras riquezas da Igreja Católica. Eu ia com ela às Missas de domingo na Igreja do Coração de Jesus e, sentado ao seu lado, me punha a analisar o ambiente do edifício sagrado, e o conjunto que seus diversos aspectos formava com os ritos e simbolismos da celebração litúrgica. Então, considerava o som do órgão, do sino que tocava para anunciar a entrada do padre, as expressões de fisionomia desta ou daquela imagem, tal paramento, tal gesto, tal vitral que me parecia muito bonito — de tudo aquilo resultava uma soma, uma unidade incomparavelmente mais bela e preciosa do que a soma das pessoas ali reunidas.
De tal maneira que, quando aquelas pessoas saíam e o templo se esvaziava, essa riqueza do ambiente permanecia inalterada até a Missa seguinte, quando outros fiéis ocupariam aqueles espaços e encontrariam aqueles mesmos e precisos aspectos dispostos para a contemplação deles.
Na minha mente de menino formava-se a idéia — incipiente e confusa como só podia sê-lo na cabeça de uma criança — de que se tratava de uma graça do Divino Espírito Santo a pairar naquele ambiente, e que agia na alma das pessoas, levando-as a compreender e a amar as belezas da Igreja. Daí, também, a noção do sagrado do templo católico, casa de Deus, onde se entra para adorá-Lo.
“Querendo bem à Igreja, queria bem à mamãe”
A concepção artística do interior da Igreja do Coração de Jesus é muito própria a despertar essas impressões. Por exemplo, do banco onde mamãe e eu costumávamos ficar, podia-se ver a imagem do Sagrado Coração de Jesus, na nave esquerda, e a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, do lado direito. Eu considerava aquelas imagens, que sempre me tocaram, analisava as decorações em volta, as pinturas que representam cenas bíblicas, as outras imagens de santos e, sentindo também a presença de mamãe, pensava: “Como ela se harmoniza tanto com todo esse ambiente! Como tudo isso penetra na sua alma e faz um com ela! Querendo bem a ela, quero bem a isso. Mas também, querendo bem a isso, quero bem a ela!”
Embora eu não conhecesse o conceito de “reversibilidade”, na minha cabeça estava a idéia de que havia uma analogia, uma certa semelhança, uma como que reversibilidade entre a Igreja e mamãe.
Cumpre dizer que a Igreja me impressionava incomparavelmente mais do que mamãe. E se é verdade que o convívio com Dona Lucilia me ajudou a compreender a Igreja, mais ainda a Igreja me ajudou a amar mamãe, porque eu a amei por ser ela um reflexo daquela Igreja à qual eu devotei minha vida inteira. Se quis tanto bem a mamãe, foi porque percebi na sua alma um reluzimento da mesma graça que pairava na Igreja do Coração de Jesus.
Lógica e coerente, como o lado racional da religião
Essa ideia da reversibilidade entre o espírito de mamãe e a Igreja se acentuou ainda mais quando comecei a frequentar o Colégio São Luís e, neste, além do contato mais assíduo com as práticas de piedade, fui conhecendo, pelos ensinamentos dos padres jesuítas, o lado racional da religião.
Como sempre tive particular apreço pela lógica, de um lado, e, de outro, como os jesuítas raciocinavam muito bem, diante de todo raciocínio bem feito por eles eu me extasiava: “Isso está direito, concatenado, é assim que se raciocina!”. E através daqueles ensinamentos, eu admirava o pensamento sério da Igreja que chega às últimas conseqüências. Encantava-me e me alegrava, com a alegria que a certeza tem de sentir-se a si mesma.
E então, voltava-me para a figura de mamãe: “Veja como ela é uma simples senhora, uma mãe de família, mas, naquilo que posso discernir dela, como é semelhante a tudo isso que me ensinam da Igreja. Como ela é lógica, coerente e direita! Portanto, eu a amo e a quero, porque ela se parece tanto v com a Santa Igreja Católica!” 

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência em 21/9/1982