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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Os nobres deveres da viuvez

A partir de 27 de janeiro de 1961, o trato feito por Dª Lucilia com o esposo, de rezar uma Ave-Maria diante do pôr-do-sol, entraria em vigor. Alguns dias após um derrame cerebral, Dr. João Paulo, então com 87 anos de idade, rendeu sua alma a Deus.
Embora Dª Lucilia estivesse de há muito com seu espírito preparado para a eventualidade da morte do esposo, a rapidez do desfecho a abalou. Mas era tal a sua paz de espírito, e tão grande sua confiança na Providência que, sem deixar de demonstrar natural tristeza e dor, não perdeu a serenidade em nenhum momento, guardando um aplomb admirável.
Aplomb, isto é, o estar de pé com aprumo, seguindo o excelso exemplo de Nossa Senhora aos pés da Cruz, era sua constante atitude diante da dor.
Uma vez falecido seu esposo, Dª Lucilia mudou alguns hábitos de acordo com sua nova situação. Guardou luto até o fim de seus dias, inclusive deixando de usar jóias pelo espaço de um ano, tempo acostumado.
De início, Dr. Plinio achou tudo isso natural, mas, passado certo tempo, perguntou-lhe:
— Mãezinha, a senhora deixou de usar seu colar de pérolas? (Tratava-se de uma jóia que ela usava diariamente.)
— Meu filho, eu não o usarei mais. Uma senhora só se adorna para seu esposo.
De fato nunca mais usou o colar, tão de seu gosto, por onde se vê com que despretensão e desapego, ao longo de toda sua vida, utilizara suas belas jóias.
Poucos meses depois, Dr. Plinio convidou sua mãe a sair com ele para uma visita, certo de que ela ficaria agradada e se distrairia um pouco. A resposta dela não deixou de surpreendê-lo, pela seriedade demonstrada no cumprimento dos deveres para com o falecido esposo.
— Eu vou — respondeu com sua firme mansidão — mas depois de ter visitado, uma vez pelo menos, a sepultura de seu pai. Antes disso, não farei visita alguma.

De fato, ela nunca mais saiu para visitas, pois não lhe foi possível ir ao jazigo de seu esposo. Naquela época não se permitia a entrada de automóveis no Cemitério da Consolação. Já tendo muita dificuldade de locomoção, não era podia Dª Lucilia percorrer considerável distância a pé, o que tornou impraticável a realização de seu desejo.

sábado, 8 de outubro de 2016

Um trato para a eternidade

Certo dia estavam Dª Lucilia e seu esposo na sala de jantar, contemplando as belezas do entardecer, que na cidade de São Paulo se reveste com frequência de esplêndidos coloridos. Mas ela não se limitava a apreciar do ponto de vista natural a vivacidade cambiante das cores ígneas com as quais o sol, em seu declínio lento e majestoso, ia pintando os tufos de nuvens, na aparência espalhados no céu por mãos invisíveis. Seu espírito logo se elevava a considerações de ordem sobrenatural. E essa cena lhe trouxe à mente quão próximos estavam, ela e seu esposo, do ocaso da vida terrena e da aurora da eternidade. Fez-lhe então a seguinte proposta:
— João Paulo, vamos fazer um trato?... Já estamos idosos e não sabemos quem de nós vai ficar só. Aquele que restar reza pelo outro uma Ave-Maria, todas as tardes, diante do pôr-do-sol.

Dr. João Paulo aquiesceu. Seria ele o grande beneficiado desse acordo, pois em breve terminariam seus dias, e ela cumpriria fielmente a promessa até o fim de sua vida.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Exemplo de perfeição

Com extrema maternalidade, Dona Lucilia procurava orientar seus filhos para uma vida de perfeição. Dr. Plinio se recorda de fatos do dia-a-dia que deixam transparecer a bondade de sua mãe.
Se houve uma pessoa que me deu todas as formas de exemplos de perfeição, foi Dona Lucilia.
Em primeiro lugar pela sua elevação moral. O espírito dela tinha certa tendência, continuamente manifestada, para o que há de mais alto, mais belo, mais delicado.
À noite, após fazer todas suas orações, ela me esperava chegar da rua para trocar mais uma palavrinha comigo. Eu percebia que o tempo decorrido entre o término de suas preces e minha chegada era considerável, às vezes três quartos de hora. Mamãe estava cansada, com sono, mas não queria ir dormir. Não sei no que ela pensava, mas eu notava que seu espírito se desprendia de regiões mais altas do pensamento para descer e conversar comigo.
Espírito impregnado pelo “perfume” da elevação
Imaginem uma pessoa que subisse em uma montanha, no alto da qual houvesse árvores com flores perfumadíssimas, e lá ficasse certo tempo. Quando descesse, seus trajes estariam penetrados do cheiro daquelas flores. Assim, eu tinha a impressão de que seu espírito ficava impregnado do perfume das coisas nas quais ela tinha pensado.
Eu não ia conversar com ela para tratar de algum assunto específico, mas apenas por ser seu filho; era inteiramente espontâneo. E aquilo que me ocorresse e tivesse a vontade de dizer-lhe naquele momento, eu falava. Ainda que fosse uma coisa insignificante, por exemplo, um episódio com o cobrador das passagens de bonde porque ele não tinha troco. Ela entrava naquele assunto, embora fosse minúsculo.
Algumas vezes mamãe me perguntava: “Filhão, o que você fez hoje à tarde após sair do escritório?” Eu lhe contava: fui ao dentista ou ao barbeiro ou a uma loja para comprar um par de sapatos. Ela prestava atenção e iluminava o assunto pelo espírito dela, fazendo assim que o tema deixasse de ser banal.
Mas não prolongava a conversa perguntando: “Onde estão os sapatos? São bonitos ou feios?” Normalmente as senhoras se interessam por essas coisas.
Aliás, eu gostava de sapatos bem largos, e a única preocupação dela nessa matéria tão banal era que, sendo folgados demais, de repente me causassem um tombo. Então ela sempre dizia:
— O sapato não é largo demais?
Eu sorria e respondia:
— Para meu gosto não, para o seu é.
— Olha, filhão, você toma um tombo...
— Reze por mim — e encerrava o assunto.
Preparando presentes para os filhos
Às vezes, ela contava pequenos fatos tais como:
Quando éramos crianças, mamãe preparava para minha irmã e para mim presentes de Natal e Ano Bom. Ela mandava a Fräulein nos levar para as duas ou três melhores casas de presentes de São Paulo e nos dizia: “Escolham os presentes e rezem a São Nicolau, para que ele os consiga para vocês.” Acreditávamos que era assim; íamos às lojas e escolhíamos coisas muito desiguais: minha irmã preferia bonecas e eu soldadinhos de chumbo, objetos que exprimiam luta.
Além desses brinquedos, mamãe — creio que por dedicação — gostava de ela mesma fazer presentes para nós, especialmente para minha irmã, porque é mais fácil fabricar uma coisa para menina do que para menino. Este gosta de coisas meio brutas, enquanto aquela, de objetos mais delicados.
Lembro-me de vê-la trabalhar para compor algo semelhante a um abat-jour, colando em sua copa uma série de figuras de meninas, uma segurando na mão da outra, formando guirlanda, dando certa impressão de dança, em torno de um chafariz. Ela recortava essas figuras femininas de jornais brasileiros ou figurinos franceses, e colava-as em papel especial. Depois pintava os bordos das saias, espalhava uma espécie de poeira dourada e dava o abat-jour para minha irmã.
Apesar de sua má saúde, mamãe ficava às vezes até meia-noite, meia-noite e meia, preparando esse presente. Era algo trabalhoso, mas ela o fazia com perfeição.
Porém, o mais perfeito estava nisso:
Passado certo número de dias, a cola ia secando, as figuras se desprendendo e aquilo ficava feio. Então, ela mandava rasgá-lo e jogá-lo no lixo, sem o menor pesar. Agora a perfeição consiste em pensar noutra coisa, não lastimar o passado mas, isto sim, em ir para frente.

Desde o mais delicado e carinhoso, até ao mais firme e decidido, tudo mamãe fazia com perfeição.
Continua no próximo post

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Preparação para compreender a misericórdia de Maria

Continuação do post anterior
Mas, insisto, era uma correção intransigente mesclada com tanto afeto que não hesito em afirmar ter constituído essa postura de Dª Lucilia uma preparação para eu compreender a superior e insondável misericórdia de Nossa Senhora. Tal ideia se vincou ainda mais no meu espírito quando pude contemplar a imagem da Mãe do Bom Conselho de Genazzano.
Chamou-me muito a atenção a inteira intimidade do Menino Jesus com Nossa Senhora, refletida até no modo pelo qual Ele envolve com o braço o pescoço d’Ela. E essa efusão de carinho me trouxe à lembrança a intimidade que eu tinha com minha querida e saudosa mãe, feita de respeito, cheia de admiração, cumulada de veneração e de ternura, mas verdadeira intimidade.
E mamãe soube ser pequena, afável, meiga, quando eu era ainda um menino em tudo dependente dela. Por isso, desde os primeiros momentos em que comecei a articular palavras, eu a chamei de “mãezinha”, e por não saber falar direito, eu dizia “manguinha”. Seja como for, era já a expressão da ideia do que havia nela de miúdo, de proporcionado ao filho pequeno, de exorável por mim, de compassivo para comigo. Essa era a noção que despertava em mim o contato com a mansidão e a bondade de Dª Lucilia.
Clemência para justos e pecadores
Bondade e mansidão inteiras que me ajudaram a compreender melhor a figura da Mãe do Bom Conselho, que expressa de maneira tão eloquente a infatigável clemência de Maria.
Dir-se-ia fluir da imagem um mundo de misericórdias para a alma boa que a contempla, assim como para a alma do pecador que por Ela não se sente rechaçado nem desclassificado. Pelo contrário, o semblante materno e acolhedor de Nossa Senhora lhe incute ânimo e o faz se sentir amparado. Do olhar da Virgem se depreende um imenso teor de santidade, que convida e encoraja a alma presa de pecados a rezar o “Lembrai-Vos”, a Lhe dizer, gemendo sob o peso de suas culpas, que n’Ela confia e n’Ela espera a salvação. Maria Santíssima se mostra então acessível, e oferece ao pecador o contato com sua insondável bondade.
Entretanto, não sei deveras se eu teria compreendido assim essa manifestação de clemência da Mãe do Bom Conselho, se não fosse o exemplo de bondade séria e de intransigência afetuosa que me foi dado conhecer, ao longo de várias décadas, na pessoa de Dª Lucilia...

Plinio Corrêa de Oliveira - Extraído de conferências em 6/5/1968 e 18/6/1968

sábado, 27 de setembro de 2014

Compaixão e serenidade de Dona Lucilia

Dr. Plinio evoca alguns aspectos da bondade de sua mãe, manifestada ao longo de uma edificante existência, até o derradeiro sinal da Cruz com que se despediu deste mundo. Talis vita, finis ita: tal como foi sua vida, repassada de fé e compaixão, tal se apresentou a Deus.
Um dos predicados morais de Dona Lucilia que mais me tocava e estreitava minha união com ela era sua compaixão. Em diversos episódios e circunstâncias me era dado notar a ternura de mamãe para comigo e o modo como considerava as necessidades de uma criança, máxime sendo filho dela. A fragilidade daquele ser pequenino despertava em seu coração materno um desejo de proteção, ao lado de uma compreensão íntima, pormenorizada e delicada das carências próprias às condições de um menino.
 Compassiva nas doenças do filho
Ela percebia bem como eu mesmo sentia as minhas debilidades, e me acompanhava com um olhar solícito, como quem diz: “Essa é a trajetória de todo homem. Mas, é natural que um homem tenha uma mãe, e que esta seja toda ternura para ele. É conforme à lei da vida que as coisas se passem assim; você deve se sentir compreendido em tudo e não ter nenhuma espécie de amor próprio falso que lhe faça esconder de mim a sua debilidade. Pelo contrário, coloque-a em minhas mãos, que eu tratarei dela”. Essa disposição me era manifestada com um sorriso cumulado de afeto, e da promessa de que ela atravessaria comigo aquele caminho semeado de dificuldades.
De maneira especial, a compaixão de Dona Lucilia se mostrava inteira quando eu adoecia. Nessas circunstâncias, seu desvelo e seu carinho eram levados ao extremo, com uma preocupação inteira por causa de minha doença. Eu, sempre observador, não deixava de considerar sua atitude ao entrar no meu quarto nas pontas dos pés, sorrindo, com um copo de remédio de homeopatia nas mãos, e dizer-me: “Filhinho, chegou a hora de tomar o medicamento”. Na verdade, era a consolação de minha alma tê-la ali perto, e a presença dela compensava a dor que eu sofria.
Como se sabe, as analogias na cabeça de uma criança são vivazes, e eu fazia correlação entre o refrigério da água com que eu tomava o remédio e a bondade de mamãe. Pensava: “Ela é para mim o que esta água é para meu corpo doente — um refrigério. Sinto o meu espírito refrigerado na companhia dela”.
O mesmo desvelo na maturidade de Dr. Plinio
Essa compaixão manifestou-se invariável ao longo de toda a vida dela. Por exemplo, quando eu já era homem feito e formado, morávamos numa casa na Rua Itacolomi, onde tive uma indisposição física muito forte. Mamãe, num tom afetuoso e inquiridor de quem havia percebido, me perguntou:
— Filhão, você está indisposto, não é?
— Meu bem, realmente estou, mas prefiro não recorrer aos seus médicos. Eu não gostaria de dizer “não” à proposta da senhora de chamar algum deles, mas sobretudo não quero dizer “sim”.
Ela, com sua calma característica, aproximou-se de mim e colocou a mão sobre minha testa, e só aquele contato o frescor de sua mão me transmitiu alívio e tranqüilidade. Disse-me: “Você está com febre”. E eu pensei: “Agora ela vai colocar o termômetro e este indicará 38°, 39°. Mamãe ficará preocupada e eu vou me meter em uma engrenagem que não me agrada em nada”. Ela pôs o termômetro e, após alguns minutos, verificou a temperatura.
— Não é nada. O que você quer fazer meu filho?
— Meu bem, quero ganhar tempo, deitado e tranquilo.
Então, ela trouxe uma cadeira do quarto, colocou-a próximo à minha cama, sentou-se e começou a rezar. Ali permaneceu durante horas, até anoitecer. Em certo momento, eu disse:
— Meu bem, estou com muita fome e a senhora vai querer que eu coma algo.
— Diga o que você quer que sua mãe traz. Ela mesma foi preparar o que eu pedi, serviu-me, conversamos um pouco, e quando nos despedimos ela me disse, no mesmo tom de carinho e solicitude: “De outras vezes, você não esconda nada de sua mãe, porque ela percebe e não vai lhe impor coisa alguma”.
Só então eu percebi como ela não considerava bagatela aquela minha indisposição. Entretanto, a rogos de Nossa Senhora, a Providência me favorecera com boa saúde e na manhã seguinte eu já estava recuperado. Assim que me levantei, fui ao quarto de mamãe para cumprimentá-la, tranquilizá-la e agradecê-la pelos cuidados da véspera. E retomamos a vida comum de todos os dias.

Porém, ficara-me a certeza de que, se a doença se agravasse, o desvelo dela se desdobraria até o fim. E, provavelmente, se eu morresse, ela não sobreviveria por muito tempo. 
Continua no próximo post.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Amor alicerçado na Fé

O oceano de benquerença de Dª Lucilia por seu catolicíssimo filho tinha suas mais profundas raízes firmadas na Fé. Era por ver em sua mãe um amor tão desinteressado e sublime à Igreja Católica que, instantes após a morte dela, Dr. Plinio, na câmara mortuária, fez esta impressionante afirmação:
“Eu a admirava muito mais por ela ser como era e pela virtude que nela discernia, do que por ser minha mãe. De tal modo que, se ela fosse mãe de outrem, e não minha, eu faria de tudo para ir morar junto a ela.”
Tais disposições de alma de Dr. Plinio, para as quais tanto contribuiu a formação dada por sua mãe, levaram-no, na longínqua década de 40, a fazer no Legionário a magnífica descrição de uma mãe católica. A cada passo desse artigo julgamos ver a figura nobre e serena de Dª Lucilia. Curiosamente, nessas comoventes linhas, nas quais transparece a admiração por insignes virtudes, refere-se Dr. Plinio à mãe de um outro...
A dama de cabeleira branca
Eu tinha diante de mim uma figura genuína de grande dama cristã. Em todo o seu ser, o tempo deixara a marca indefinível de fundas dores, sofridas com grande nobreza, com imensa suavidade de alma. Olhos calmos, belos e tristonhos, penetrantes mas doces, inteligentes mas serenos. O porte, o jeito, o traje tinha a elegância singela, nobre e despreocupada que a verdadeira educação comunica ao vestuário humano. O timbre de voz afável, reservado, cheio de matizes, revelava um coração a um tempo forte e delicado.
Pela janela entrava a jorros a claridade, que iluminava em certos momentos a cabeleira branca.
Um reflexo prateado, confundindo-se com a suavidade do olhar, se difundia então por sua fisionomia. Toda a luz faz pensar em felicidade. A luz destes cabelos brancos fazia pensar na felicidade extra-terrena. Era a grandeza da ancianidade cristã, santificada pelo mérito da maternidade, glorificada pela auréola discreta que os sofrimentos padecidos em união com Cristo deixam em toda alma e em todo semblante justo. Muita dignidade, certa majestade diríamos mesmo. Não a majestade árdua, esforçada e duvidosa do dinheiro, mas a majestade única e suprema que decorre da dignidade de mãe, sentida e vivida até as últimas fibras de um coração nascido de nobre estirpe.
Preciso dizer que a contemplação do que essa dama sofria, de quanto ela sofria, de como ela sofria, edificou-me, enlevou-me, encheu-me de veneração? Nunca vi mãe que oferecesse seu filho [a Deus] com espírito mais sobrenatural, embora com tão sentida dor. Fora, a grande metrópole vivia, suava e muitos pecavam. De mim para mim, pensei no valor expiatório deste sereno sacrifício. Os instantes que passei naquele apartamento foram inesquecíveis para mim.
Quantas vezes pensei depois disto, nesta genuína e grande dama cristã. E que especial inflexão de alegria teve o meu “Magnificat”, quando me lembrei do júbilo que naquele momento lhe deveria inundar o coração.
Perdoe-me ela se levantei indiscretamente o véu de seu recolhimento2.
De uma mesma ogiva, dois arcos que se completam
Tal como a dama cristã descrita por Dr. Plinio, Dª Lucilia, antes mesmo de seus filhos nascerem, generosamente os consagrara a Deus. Talvez tenha renovado seu oferecimento ao apresentá-los à fonte batismal, a fim de introduzi-los no seio da Igreja. Depois os levara a dar os primeiros passos nos caminhos da Fé e lhes ensinara a pronunciar, antes de qualquer outra palavra, os Santíssimos Nomes de Jesus e Maria. Com seu exemplo, incentivara-os a praticar as virtudes que ela mesma lhes fizera conhecer através de narrações da História Sagrada.
Tendo Dr. Plinio, ao entrar para o Colégio São Luís, de enfrentar pela primeira vez o rijo embate da vida, Dª Lucilia o sustentara na fidelidade. A firmeza dela lhe servira de estandarte no decurso de incontáveis pugnas na Faculdade de Direito.
Já no Movimento Católico, Dr. Plinio fora penetrando ainda mais a fundo no conhecimento da doutrina e da História da Igreja. Chegara então para ele a vez de tomar respeitosamente pela mão a sua mãe e comunicar-lhe muito do que ele ia aprendendo de maravilhoso na Santa Igreja. Assim, um e outro, cada qual a seu turno, foram-se impregnando a fundo do espírito católico.
Essa catolicidade se refletia naturalmente na vida de oração de ambos, marcando de forma notável aquele recolhido e elevado ambiente do apartamento da Rua Alagoas. As preces do indômito batalhador, principal arma de todas as pugnas que travava, apoiadas pelas serenas mas intensas súplicas de sua mãe, subiam ao trono do Altíssimo a implorar graças especiais pela causa da Santa Igreja.
Nesses atos de piedade, enquanto Dª Lucilia se inclinava mais aos acordes da misericórdia, Dr. Plinio fixava suas intenções nas lides apostólicas. Esse convívio, ungido pelo silencioso fervor da mãe e do filho, constituía assim uma harmoniosa ogiva, em que um braço completava e apoiava o outro.

Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons.João S. Clá Dias

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O afeto de uma mãe

Vejamos pelas palavras de Plinio Correa de Oliveira alguns aspectos da bondade de Dona Lucilia.
Um dos predicados morais de Dona Lucilia que mais me tocava e estreitava minha união com ela era sua compaixão. Em diversos episódios e circunstâncias me era dado notar a ternura de mamãe para comigo e o modo como considerava as necessidades de uma criança, máxime sendo filho dela. A fragilidade daquele ser pequenino despertava em seu coração materno um desejo de proteção, ao lado de uma compreensão íntima, pormenorizada e delicada das carências próprias às condições de um menino.
Compassiva nas doenças do filho
Ela percebia bem como eu mesmo sentia as minhas debilidades, e me acompanhava com um olhar solícito, como quem diz: “Essa é a trajetória de todo homem. Mas, é natural que um homem tenha uma mãe, e que esta seja toda ternura para ele. É conforme à lei da vida que as coisas se passem assim; você deve se sentir compreendido em tudo e não ter nenhuma espécie de amor próprio falso que lhe faça esconder de mim a sua debilidade. Pelo contrário, coloque-a em minhas mãos, que eu tratarei dela”. Essa disposição me era manifestada com um sorriso cumulado de afeto, e da promessa de que ela atravessaria comigo aquele caminho semeado de dificuldades.
De maneira especial, a compaixão de Dona Lucilia se mostrava inteira quando eu adoecia. Nessas circunstâncias, seu desvelo e seu carinho eram levados ao extremo, com uma preocupação inteira por causa de minha doença. Eu, sempre observador, não deixava de considerar sua atitude ao entrar no meu quarto nas pontas dos pés, sorrindo, com um copo de remédio de homeopatia nas mãos, e dizer-me: “Filhinho, chegou a hora de tomar o medicamento”. Na verdade, era a consolação de minha alma tê-la ali perto, e a presença dela compensava a dor que eu sofria.
Como se sabe, as analogias na cabeça de uma criança são vivazes, e eu fazia correlação entre o refrigério da água com que eu tomava o remédio e a bondade de mamãe. Pensava: “Ela é para mim o que esta água é para meu corpo doente — um refrigério. Sinto o meu espírito refrigerado na companhia dela”.
O mesmo desvelo na maturidade de Dr. Plinio
Essa compaixão manifestou-se invariável ao longo de toda a vida dela. Por exemplo, quando eu já era homem feito e formado, morávamos numa casa na Rua Itacolomi, onde tive uma indisposição física muito forte. Mamãe, num tom afetuoso e inquiridor de quem havia percebido, me perguntou:
— Filhão, você está indisposto, não é?
— Meu bem, realmente estou, mas prefiro não recorrer aos seus médicos. Eu não gostaria de dizer “não” à proposta da senhora de chamar algum deles, mas sobretudo não quero dizer “sim”.
Ela, com sua calma característica, aproximou-se de mim e colocou a mão sobre minha testa, e só aquele contato o frescor de sua mão me transmitiu alívio e tranquilidade. Disse-me: “Você está com febre”. E eu pensei: “Agora ela vai colocar o termômetro e este indicará 38°, 39°. Mamãe ficará preocupada e eu vou me meter em uma engrenagem que não me agrada em nada”. Ela pôs o termômetro e, após alguns minutos, verificou a temperatura.
— Não é nada. O que você quer fazer meu filho?
— Meu bem, quero ganhar tempo, deitado e tranquilo. Então, ela trouxe uma cadeira do quarto, colocou-a próximo à minha cama, sentou-se e começou a rezar. Ali permaneceu durante horas, até anoitecer. Em certo momento, eu disse:
— Meu bem, estou com muita fome e a senhora vai querer que eu coma algo.
— Diga o que você quer que sua mãe traz.
Ela mesma foi preparar o que eu pedi, serviu-me, conversamos um pouco, e quando nos despedimos ela me disse, no mesmo tom de carinho e solicitude: “De outras vezes, você não esconda nada de sua mãe, porque ela percebe e não vai lhe impor coisa alguma”.
Só então eu percebi como ela não considerava bagatela aquela minha indisposição. Entretanto, a rogos de Nossa Senhora, a Providência me favorecera com boa saúde e na manhã seguinte eu já estava recuperado. Assim que me levantei, fui ao quarto de mamãe para cumprimentá-la, tranquilizá-la e agradecê-la pelos cuidados da véspera. E retomamos a vida comum de todos os dias.
Porém, ficara-me a certeza de que, se a doença se agravasse, o desvelo dela se desdobraria até o fim.
Extraído de conferência 11/1/1982

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Nos cuidados da própria saúde, preocupação com os filhos

O precário estado de saúde de Dª Lucilia causava constante apreensão a seus filhos, e os levava a não pouparem esforços nem recursos a fim de aliviá-la — o quanto estava ao alcance deles — da penosa enfermidade de fígado que a acometia. Por tal motivo nunca deixaram de lhe proporcionar longas permanências em Águas da Prata, que resultavam em sensíveis melhoras para ela.
Porém, na sinceridade de seu desprendimento, mais preocupada com os outros do que consigo mesma, Dª Lucilia não queria pesar no orçamento deles. Receava fazerem excessivos gastos com ela e, como se pode comprovar por uma afetuosa resposta de Dr. Plinio, chegou a externar isso numa de suas cartas, infelizmente perdida:
 Santos, 27 de março [de 1942]
Mãezinha,
Recebi sua ultima carta, da qual lhe devo dizer francamente que, se uma parte me agradou muito, a outra não me desagradou menos.
Agradou-me muito, é claro, saber que a Sra. está, graças a Deus, passando melhor.
No entanto, a forma pela qual a Sra. se refere ao interesse que Rosée e eu tomamos por sua saúde, me desagradou categoricamente. Em tudo, meu bem querido, é preciso ser lógico. Em primeiro lugar, o que Rosée e eu estamos fazendo não passa de trivialidades, certamente feitas com grande afeto, mas que nem por isto deixam de estar na órbita das trivialidades. O que de mais natural do que ela levar a Sra. para a casa, e lá lhe dispensar todo o carinho? Pois não é sua filha? O que é ser filha? De minha parte, o que de mais vulgar do que empregar algum dinheiro para o bem-estar de minha Mãe? Se o dinheiro que, com o auxílio de Nossa Senhora, tenho podido ganhar, não se empregasse com suma satisfação neste assunto, mereceria eu o castigo de que ele me fugisse inteiramente das mãos, pois que, gastando-o assim, outra coisa não faço senão dar cumprimento a uma obrigação grave, cuja observância de minha parte é destes “minimuns” que se exigem de qualquer pessoa de sentimentos vulgarmente bem formados.
Por outro lado, ainda que o sacrifício fosse de monta, sendo feito para a Sra. estaria idealmente bem, e não poderia estar melhor. Se eu precisasse da Sra. um sacrifício pesado, pedi-lo-ia e aceitá-lo-ia com tão absoluta naturalidade, com tal certeza da inteira dedicação com que a Sra. o prestaria, que nem me ocorreria fazer lamentações sobre o caso. Não sei por que a Sra. ha de imaginar que a recíproca não deve ser a mesma......
Assim, meu bem, nada de lamúrias, de lamentações, de agradecimentos. Agradeça simplesmente a Deus e a Nossa Senhora que tenhamos com que fazer face às necessidades, e lhes peça que continue a ser sempre assim. Quanto ao mais, o assunto está definitivamente encerrado, ouviu meu bem?
A seguir, a carta nos coloca uma vez mais ante a perspectiva da Segunda Guerra Mundial, na qual o Brasil acabara de se envolver. De fato, após ter mantido, junto com o bloco maciçamente católico de nações latino-americanas, uma tal ou qual neutralidade, nosso País entrou na guerra quando a opinião pública de modo definido se decidiu contra o nazismo. Solidário com os Estados Unidos, que acabavam de sofrer o ataque de Pearl Harbour (7 de dezembro de 1941), o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo.
A propósito dos novos panoramas, Dr. Plinio comentava na mesma carta:
[Imagino que contaram] à Sra. o excelente passeio que fizemos ao forte Munduba. Estava muito impressionante a sensação de, em pleno território nacional, nos encontrarmos em uma autêntica “maginot” escavada dentro da própria rocha, e conversar-se sobre descida possível de paraquedistas, a eventual chegada de esquadras estrangeiras, a ação da quinta coluna em Santos, etc., etc. É um novo capítulo que se abre, uma nova era em que se entra, na História nacional. Em outros termos, começamos a ser “gente”, a correr riscos, a tratar de coisas sérias, e a impuberdade política em que nossa situação geográfica e nossa debilidade nos colocavam, parece ter cessado de vez. Assim se abre o capítulo: como se encerrará? Qual será o mapa do mundo, quando isto tudo amainar? É o que só Deus sabe.
Devo chegar terça-feira, não sei bem a que horas, mas certamente depois do almoço. Aí mataremos, se Deus quiser, as saudades que estão até rendendo juros, de tão grandes.
Papai já deve ter chegado. Mande-lhe um apertado abraço. Para a Sra., meu bem querido, muitos e muitos beijos e abraços do filho saudosíssimo, que lhe pede respeitosamente a bênção.
Plinio
Na solidão de seu quarto, Dª Lucilia deve ter lido e relido inúmeras vezes essas linhas, consolada por lhe haver dado Deus um filho tão dedicado e generoso...

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Suaves repreensões

Foi o Sagrado Coração de Jesus, sempre pronto a perdoar e acolher o pecador arrependido, o modelo perfeito com o qual Dª Lucilia sempre procurou se identificar. Assim, em suas atitudes, palavras e gestos iam transparecendo de modo crescente, com o correr dos anos, a extrema suavidade e doçura de trato que tanto refulgiram na figura do Divino Mestre.
Já seu filho, exposto a rudes pelejas apostólicas, além da infinita Bondade, adorava de maneira particular a Nosso Senhor enquanto intransigente com o mal que se mostrava empedernido. Essa dualidade de aspectos do Divino Modelo fazia desprender do convívio mãe-filho uma melodia de notas opostas, mas sempre harmônicas. Dr. Plinio era tendente a manifestar categoricamente as próprias opiniões, até nas menores coisas, e Dª Lucilia procurava refrear um pouco este expansivo modo de ser, às vezes por demais contundente segundo os padrões dela.
Certo dia a empregada não acertou na compra da manteiga. Após ter untado abundantemente uma fatia de pão, Dr. Plinio, ao prová-la, logo sentiu um gosto desagradável, indicativo de que o alimento não estava fresco.
Dª Lucilia, que punha todo empenho em lhe proporcionar um cardápio de acordo com sua preferência, estava sempre atenta às reacções dele, e percebeu de imediato sua repulsa.
— Meu bem — disse ele — essa manteiga que a empregada comprou não serve nem para engraxar os trilhos dos bondes!
Dª Lucilia ficou com a fisionomia um tanto penalizada. Mesmo em se tratando de um alimento de qualidade inferior, não era bondoso um comentário tão forte, segundo seus critérios.
Mas, como admoestar um filho já homem feito, professor universitário? Era uma situação para a qual só ela podia encontrar uma boa saída. Estando sentada à mesa, ao lado dele, tocou-lhe suave e repetidamente com a ponta dos dedos no dorso da mão, como que a lhe dizer: “Meu filho... Meu filho!...” O macio dos toques, o sedoso da pele, reflexos de seu modo de ser, transmitiam uma censura que inundava a alma dele de doçura.
E sempre que Dr. Plinio dizia o que pensava a respeito deste ou daquele, Dª Lucilia, quando não tinha mais como defender o atingido — por ser indefensável — apelava para este último e mudo recurso: discretos toques no dorso da mão dele.

Era bem provável que Dr. Plinio tivesse vontade de acrescentar outro comentário, para que ela lhe proporcionasse mais uma suave repreensão...
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Um desígnio da Providência que Dona Lucilia intuía

Dona Lucilia parecia discernir algum desígnio da Providência a respeito de seu filho, embora não o compreendesse até o fundo. Certas atitudes dela o exprimiam claramente, como, por exemplo, as orações assíduas que fazia por ele diante do altar dedicado ao Menino Jesus em discussão com os Doutores da Lei no Santuário do Sagrado Coração de Jesus.’ Intuía que a vida de Dr. Plinio seria inteiramente consagrada a um alto ideal, e isso talvez exigisse dele alguns sacrifícios, como, por exemplo, o manter-se solteiro.
Ora, ele ainda não se decidira pelo celibato naquela época. Conheceu então uma moça que lhe pareceu simpática e de bom caráter, cuja família pertencia à mais alta sociedade de São Paulo, e tinha muitas posses. Julgando ser um bom partido, começou a se encontrar e conversar com ela em algumas festas. Depois de certo tempo, resolveu levar adiante seu projeto.
Tratando ambos, uma vez, a respeito de música, afirmou ela não conhecer tais e tais discos. Ele disse que lhos mandaria, e efetivamente o fez tão logo pôde. Ao enviar o presente, anexou um cartão de visita. Pelo correio ela mandou um cartão agradecendo.
Sobre a escrivaninha de Dr. Plinio havia, fixo a uma pla ca de mármore, um baixo-rele vo de metal que representava Nosso Senhor dando a Sagra da Eucaristia a uma criança. A fim de obter de Deus bom andamento para aquela questão, ele colocou atrás da placa de mármore o cartão que recebera. Deixá-lo junto da imagem simbolizava um constante pedido nesse sentido. Mas o incipiente compromisso acabou se desfa zendo e ele até se esqueceu de haver ali deixado o cartão.
Algum tempo depois, ao chegar Dr. Plinio de seu escritório,
Dona Lucilia abordou-o maternalmente, com ar de quem descobrira um segredo ciosamente guardado:
— Então, hein?! Sua mãe ignorava...
Dr. Plinio, não fazendo ideia do que se tratava, respondeu:
— Mas ignorava o quê, meu bem?
— Eu estava rezando por você, à sua mesa, e vi aparecer por detrás daquele mármore uma pontinha de papel. Fiquei curiosa de saber o que era, virei a placa e encontrei o cartão muito amável de Fulana, agradecendo tão gentilmente um presente... Eu vejo bem o que isso quer dizer...
Dr. Plinio então respondeu jocosamente:
— Mas o que tem isso? A senhora não vê todo o mundo casado?
Eu vou me casar um dia...
E riu afetuosamente. Depois disse:
— Ó mamãe, isso já está desfeito, não tem mais nada!
Dr. Plinio notou que um eventual noivado seria uma decepção para ela. Mais tarde, quando resolveu adotar o celibato, não lhe disse nada, porque considerava o assunto muito pessoal. Mas Dona Lucilia acabou percebendo sua resolução e ficou deveras satisfeita.

Outros parentes também intuíram que ele havia renunciado ao casamento para se entregar ao apostolado, e comentavam o fato em conversas de família. Um dia, alguém disse que assim era melhor, pois, pelo seu modo de ser enérgico, ele não daria um bom marido. Dona Lucilia imediatamente respondeu que não concordava com essa afirmação, pois sendo ele tão bom filho, não podia deixar de vir a ser bom esposo. Os parentes, conhecendo já as intransigências de Dona Lucilia, preferiram bater em retirada e não abordar mais o assunto.