quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Formadora exímia


Dona Lucilia tão meticulosa, precisa e exigente — embora bondosa e suave —, modelou vários aspectos da personalidade de seus filhos.

"No que Dona Lucilia concorreu para que eu fosse combativo? Enganar-se-ia quem supusesse que ela fez discursos, explicando que se deve ser combativo. Ela realizou uma coisa muito melhor, mais límpida, muito mais clara. Foi o seguinte: mamãe pôs em meu cérebro as seguintes coisas:

Em primeiro lugar, que Deus é o Ser supremo, Criador de todas as coisas e, portanto, merece nosso amor primordialmente. Mais do que à mamãe, eu deveria querer bem a Deus. Isso ela me ensinou muito bem, com o talento que têm as boas mães de falar aos filhos, de maneira que estes ouvem a voz delas como ao longo da vida não ouvirão voz nenhuma.

 Antes de minha irmã e eu aprendermos a dizer “papai” e “mamãe”, aprendemos a dizer “Jesus”. Minha irmã era um ano e meio mais velha do que eu. Mamãe, estando de vez em quando em seu quarto, arranjando alguma coisa, colocava minha irmã nos braços e, apontando com um dedo para a imagem de Nosso Senhor, de modo que os olhos da criança acompanhassem, dizia-lhe sorrindo afetuosamente, meigamente: “Onde está Jesus? Jesus está ali. Agora repita: Jesus, Jesus.” Minha irmã, que tinha muita vivacidade, respondia: “Jesus, Jesus.”

Depois ela fez a mesma coisa comigo. De maneira que mais tarde, quando chegava a hora, espontaneamente íamos aprendendo a dizer “papai”, “mamãe”, como todas as crianças.

Antes e acima de tudo, precisamos cumprir os Dez Mandamentos

A segunda ideia é que, em relação a Deus, nós temos deveres os quais são mais importantes do que as obrigações para com qualquer pessoa na Terra. Devemos obedecê-Lo antes e acima de tudo, cumprindo os dez Mandamentos.

Já no meu tempo de criança — nasci em 1908 —, a preocupação principal de um grande número de paulistas era ficar rico. Ficou rico, acertou na vida. Não ficou rico, foi um nulo. Perdeu fortuna, tornou-se pobre, foi um elemento negativo na vida, desprezado por todo mundo.

Mamãe dizia o contrário: “Eu prefiro ter um filho empobrecido, tido em conta de nada, mas que cumpra os Mandamentos da Lei de Deus, do que um filho rico, a quem todo mundo faça cortesias, mas que não pratica os Mandamentos. A primeira obrigação é fazer a vontade de Deus; as outras coisas vêm depois.”

Fazer a vontade de Deus significa conhecer o que Ele ensinou e cumprir exatamente o que Ele mandou. Não se pode relaxar, dizendo: “Dou tal jeitinho.” É preciso, antes de qualquer outra coisa, cumprir inteiramente a vontade de Deus com amor.

Servir a Deus com ufania

E, pelo seu modo de ser, ela era muito minuciosa nas coisas. Nos tempos de minha infância tudo era diferente de hoje. Atualmente, as senhoras compram roupas feitas em lojas. Naquela época, para tornar o trabalho mais cômodo, mandavam vir uma costureira em suas casas. Eu vi muitas vezes mamãe experimentar vestido com a costureira. Notando algumas dobrazinhas, mamãe dizia: “Aqui falta não sei o quê. Ali precisa fazer tal coisa”, até que o vestido ficasse na perfeição, porque o que ela fazia era perfeito.

Lembro-me de que, quando se tratava de fazer roupas para nós, mamãe também mandava vir a costureira, para elaborar uma roupa de menina para minha irmã, e para mim um traje de menino.

Quando chegava a minha vez de experimentar a roupa, eu tinha que ficar de pé, e Dona Lucilia dizia à costureira:

— Olha aqui, as costas não estão caindo bem. Por favor, ponha um alfinete aqui no paletó do Plinio e vamos ver se assim fica melhor.

A costureira objetava:

— Não vai bem, Dona Lucilia, porque se prende aqui, puxa lá.

E mamãe:

— É verdade, então vamos pensar um pouco onde colocar esse alfinete...

Aprendi com mamãe que as coisas verdadeiramente sérias devem ser feitas até o último ponto do exato; por exemplo, a Doutrina Católica. Se um Papa ensinou uma coisa, gozando do privilégio da infalibilidade, falando ex cathedra, ou seguindo o ensino ordinário, repetindo o que outros Papas disseram, devemos crer. Mas, para acreditar, a pessoa precisa ler o que o Sumo Pontífice escreveu, para compreender bem o que ele quis dizer, e depois quais são as consequências que decorrem, embora não estejam presentes porque o Papa não pode escrever tudo; há muita coisa que é preciso saber deduzir. E deduzir por inteiro e cumprir por inteiro, brigue com quem brigar, encrenque com quem encrencar, mas é necessário fazer.

Não basta isso. Deve-se servir a Deus não de modo escondido, com vergonha, mas com ufania e, portanto, ostensiva e publicamente.

Por exemplo, usar o terço. No tempo de minha juventude, homem nenhum usava o terço. Eu comprei um terço e comecei a usá-lo publicamente. Era uma afronta.

A alta sociedade de São Paulo era pequena, de maneira que todos se conheciam e, portanto, eu era conhecido por todo mundo. E, para fazer uma afronta maior a eles, nem comprei um terço de homem, mas um azul claro de Filha de Maria. Nas igrejas, diante de meus colegas da faculdade, eu puxava o tercinho e começava a rezar. Porque, se é preciso afrontar, vou afrontar até o fim! 

Assim, todos os cuidados que Dona Lucilia punha nos alfinetes e nos vestidos eu colocava na profissão da Fé Católica".

Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência de 11/2/1995

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Suavidade, intransigência, admiração


Durante toda a vida, as características da mãe ideal brilhavam no semblante e no modo de ser de Dona Lucilia. Por meio de longa formação, que constituiu a obra de sua existência terrena, ela preparou seus filhos para corresponderem com generosidade à ação santificante da Igreja de Deus.

Ela lhes ensinava a compreender e amar a fundamental importância da suavidade e da doçura no convívio humano. Quando duas ou mais pessoas têm afinidade entre si, sentem-se mutuamente atraídas por um movimento cheio de benevolência. Esta é a substância da amizade, que não será real e autêntica se estiverem ausentes o amor de Deus, a ternura, a afabilidade, a paciência e a compaixão.

É preciso ter conhecido Dona Lucilia para avaliar o quanto sua alma estava distante de qual quer ressentimento ou desejo de vingança. Nunca tisnou sua bela alma o mais leve movimento de alegria pelo mal ocorrido a alguém. Sua amizade, uma vez concedida, jamais era rompida, e a compaixão para com os sofredores tinha toda a amplitude aconselhada pelo Divino Salvador nos Evangelhos.

Assim, foi a suavidade uma das primeiras virtudes que Dona Lucilia, de forma modelar, procurava transmitir a quem dela se aproximava.

Outro exemplo perfeito, a se destacar no belo jardim de suas qualidades, era o da intransigência face ao mal, que se manifestava sob as mais varia das formas segundo as circunstâncias. Assim, ao corrigir os filhos por alguma falta, como anteriormente se referiu, empenhava-se em lhes mostrar a gravidade do ato praticado, salientando o quanto aquilo ofendia a Deus, de modo a incutir-lhes um profundo horror ao pecado.

De outro lado, por sua fidelidade aos Princípios católicos, rejeitava o espírito de tolerância que ia-se introduzindo na mentalidade de seus contemporâneos. Razão pela qual, estando Dona Lucilia presente numa conversa, nunca deixava passar sem reparos alguma crítica à Santa Igreja ou à Religião. Este não transigir face ao mal foi outro tesouro por ela legado a seus tão queridos filhos.

Além disso, Dona Lucilia tinha o grande mérito de saber admirar os predicados do próximo, sugerindo a Rosée e a Plinio, pelo inconfundível e atraente exemplo que dava, procederem desse modo. Com frequência, o dinamismo de seu contentamento se voltava todo para a exaltação dos talentos alheios. Em contrapartida, não se comparava com ninguém, nunca se referia a algum elogio que tivesse recebido, nem procurava chamar a atenção, mesmo que indiretamente, para alguma qualidade própria ou de seus filhos.

Essa atitude de alma, rara em nossos dias, ela a preservava ciosamente.

Ressaltar os dons por Deus concedidos a outras crianças era uma constante em Dona Lucilia, ainda quando os outros pais fingissem não perceber o valor de Rosée e de Plinio. Se uma criança, dizia algo que revelasse brilho de tudo, bom caráter, ela se tomava de alegria e não deixava de realçar, diante dos adultos, tais dotes.

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Voz com inflexões suaves e tons profundos

A arte de educar consiste em formar a criança fazendo com que veja o lado razoável da autoridade, o aspecto bonito da hierarquia, a fim de amar ser mandada, obedecer. Assim, ela se torna amiga da Contra-Revolução em vez de ficar amiga da Revolução.
A atitude de Dona Lucilia em face desse problema era a seguinte:
Sua voz, embora não fosse de cantora, era muito agradável para conversa, cheia de inflexões. E inflexões muito suaves, doces, que correspondiam aos movimentos do temperamento dela, e diziam o que queriam dizer. Por causa disso tinha também tons muito graves, profundos, que não eram de pito, mas para fazer ver a gravidade, a seriedade do que ela estava dizendo. O temperamento dela era capaz de uma grande seriedade e, falando, ela normalmente tomava muito a sério tudo aquilo que ela dizia. E, quando mencionava qualquer autoridade, ela falava com certo respeito e tinha um modo de entoar a voz, fazendo-nos sentir por que e de que jeito aquela autoridade era respeitada.
Veneração para com o sacerdócio
Por exemplo, o modo de mamãe, Dona lucilia, se referir a um padre. Meu pai tinha um primo-irmão que era sacerdote; chamava-se Cônego Luís Cavalcanti. Homem muito inteligente, ele ficara solteiro até tarde e, em determinado momento resolveu ficar padre e ordenou-se na Arquidiocese do Rio de Janeiro.
Ele mantinha muito boa conversa e às vezes vinha a São Paulo, sendo então convidado à nossa casa para almoçar ou jantar; compareciam também parentes de minha mãe para ouvir as palavras desse primo de meu pai. E faziam bem, porque ele era sacerdote e sustentava discussões com alguns meus tios, que eram ateus. Nessas discussões ele serrava de cima pela sua cultura, inteligência, com certa polidez e amenidade. De maneira que esses tios incrédulos até gostavam de entregar os pontos e davam risada; o padre, quando os encostava na parede, também ria de um modo amável; e aquilo tudo constituía uma conversa muito afável. Porque era muito menino, eu não entendia bem os temas das discussões, mas gostava de observar o jogo das fisionomias, os tons de voz, as atitudes das pessoas.
Minha mãe tinha um irmão muito inteligente, o qual fazia para o sacerdote perguntas muito provocantes. Eu olhava para o padre e pensava: “Dessa vez parece que ele está na parede.” Ele ouvia com toda a calma e dizia: “O senhor sabe, isto precisa ser visto num enfoque diferente”; o sacerdote mudava a questão, colocava-a no ponto certo e meu tio levava o tiro.
Quando Dona Lucilia falava desse parente, nunca o fazia sem uma inflexão de voz para dar a entender que, além de ser um primo do marido dela — portanto, primo dela também —, era um padre da Igreja Católica. Ela jamais dizia “o primo Luís”, mas “o Padre Luís”; e, posteriormente, quando ele ficou cônego, “o Cônego Luís”. No modo de ela dizer “Padre Luís” ou “Cônego Luís”, as palavras padre e cônego tomavam uma inflexão de voz que exprimia toda a sua veneração pelo homem superior a ela porque era consagrado a Deus.
Por causa disso, ela possuía para com ele solicitudes, atenções, que não tinha para com parentes muito mais ricos. Esse padre não era rico, mas isso para ela não queria dizer nada. Realmente, em se tratando de um sacerdote, isso não importa; ele é um ministro de Deus.
O modo de mamãe dizer “padre”, de se referir a ele, de tratá-lo, as atenções especiais para com ele, o verdadeiro afeto, porque, além de ser um parente, era um sacerdote, fazia a criança aprender o que era um padre, antes de compreender a doutrina católica sobre o sacerdócio. Dessa forma, o coração ficava pronto para receber o que a Fé haveria de dizer depois, pelo ensinamento da Igreja.
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência de 13/3/1993

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Mais uma lição a respeito do mal

Havia um caso, carregado de ensinamentos morais e sobre a tragédia da vida, que muito chocara Dona Lucilia e impressionava seus jovens interlocutores.
Um rapaz abastado, atraente e de boa conversa, que se vestia muito bem e era da melhor sociedade de São Paulo no tempo do Império, havia-se casado com uma moça rica e de boa famflia. Após nascerem os primeiros filhos, começou a se enredar em más companhias, com as quais seu dinheiro era gasto prodigamente. E foi sendo obrigado a vender um a um seus imóveis, a fim de se entregar aos prazeres espúrios e jogar na roleta.
Sabendo desses extravios, amigos avisaram a esposa, a qual, penalizada e entristecida, suportou o infortúnio com a suave passividade das senhoras fiéis de então.
Entretanto, a tal ponto aquele homem enveredara pelo mau caminho, que cinicamente contava em suas rodas uma cena ocorrida no aniversário de uma de suas concubinas. Ele havia comprado, para lhe oferecer, um desses conjuntos de toilette feminina usados na época, composto de caixas de pó de arroz, vidros de perfume e outros objetos, colocados numa caixa de bela apresentação. As peças eram todas de cristal, com tampas de prata. Mandou fazer a entrega na casa da tal mulher, certo de que o presente seria re cebido como um tesouro...
Ora, para surpresa dele, ao visitá-la, encontrou a caixa aberta, mas com todas as peças dentro, ainda embrulhadas no papel de seda. Ele então perguntou:
— 0 que é isto?! Você não gostou do presente que lhe mandei?
— Presente?! Isto é uma porcaria. Olhe o que eu fiz com uma das peças!...
No chão, reduzida a cacos, estava uma jarra de cristal...
— Eu não sou pessoa a quem se ofereça objetos de cristal!... Para mim, deve ser pelo menos de prata maciça! Eu exijo que você me traga amanhã um serviço de prata, ou então rompo com você,..
Dona Lucilia acrescentava a seguir que ele, apesar de não poder de modo algum arcar razoavelmente com tão avultada despesa — pois sofria privações em casa, em virtude de seus desmandos — acabou de forma vergonhosa por se dobrar à insolente, e encomendou o tal serviço de prata.
Saindo da casa dela, levou as peças de cristal à loja. Pediu que trocassem a caixa, de maneira a não ser notada a falta da jarra... e mandou enviar o conjunto a outro endereço: o da legítima esposa!...
Dona Lucilia frisava muito a cena da chegada ao lar do marido desleal. Alegre, cheia de gratidão, a esposa foi-lhe ao encontro:
— Mas você me dá um presente desses!... As nossas condições não comportam isso. Venha ver como nossa mesa de toilette ficou bonita, bem arranjada. Eu lhe agradeço, mas não faça esses gastos comigo!
Dona Lucilia, em tom grave, prosseguia a narração: esse marido devasso, apesar da extrema vergonha e remorso que lhe causou a carinhosa e agradecida reação de sua esposa, continuou de caindo por se recusar a abandonar o jogo, no qual era viciadíssimo. Em determinado momento, tais eram as dívidas que teve de vender a casa e os móveis.
Assim, não lhe ficou outra saída senão ir com toda a família para uma fazenda que lhe restava no interior. Ali, trabalhando arduamente, não jogando jamais, conseguiu afinal, ao cabo de uns dez anos, sanear suas finanças.
Certo dia ele combinou com a esposa:
— Graças a Deus, já reuni a quantia necessária para ir a São Paulo pagar as últimas dívidas. E, quem sabe se, economizando um pouco mais, possamos nos estabelecer novamente na capital.
Sua esposa, radiante, preparou tudo para a viagem, e ele à tardezinha partiu rumo à estação ferroviária. Qual não foi a surpresa dela quando, no dia seguinte, viu o marido aparecer a cavalo, extremamente abatido.
— Por que você não foi a São Paulo? — perguntou.
— Você está vendo... A noite organizaram uma roda de jogo. Hoje de manhã, eu já não tinha mais nada!
Aturdida, desfeita em lágrimas, gritando, a pobre senhora saiu correndo desesperada ao longode um renque de árvores. Ficara louca...
Era notável como Dona Lucilia, durante a narração, participava do drama, levando-o muito a sério, não deixando de salientar que um terrível castigo da Providência mais tarde atingiu aquele infiel e perdulário...
A infortunada, que passava por grandes períodos de lucidez, manteve e educou como pôde a numerosa prole. Quando se aproximava um ataque de loucura, ela mesma mandava cortar os cabelos, para que pudesse ser internada.
Supérfluo é dizer que Dona Lucilia tinha verdadeira veneração pela pobre senhora.
A cruz de uma vida inteira
Ao historiar outro caso de infidelidade conjugal, ocorrido em São Paulo, Dona Lucilia se compadecia da esposa, ferida em sua honra e ressaltava as situações ridículas a que se expunha um marido sem domínio das próprias paixões.
“Coitada de fulana...” Assim começava ela, com uma entonação de voz que já fazia sentir o caráter triste do episódio, movendo os ouvintes a terem pena da infeliz senhora.
Era esta, talvez, das pessoas mais ricas da São Paulo de seu tempo. Tinha-se casado com um homem de boa família, muito educado e que se tornara riquíssimo, fazendo a própria fortuna. Ele, porém, levava uma vida muito devassa, mantendo várias ligações adulterinas, com as quais se exibia em público, o que constituía um verdadeiro ultraje à esposa.
Quando, anos mais tarde, a filha do casal contraiu núpcias com um moço endinheirado e de boa família, o jovem par ficou morando na casa dos pais dela.
Um belo dia a moça aparece, banhada em lágrimas, diante de sua mãe. Esta lhe pergunta, entre surpresa e aflita:
— Mas minha filha, o que há com você?
— Mamãe, aconteceu-me a mais grave das desventuras!
— Mas o que é?
— Fulano me está sendo infiel.
A mãe, que já havia sofrido a amarga experiência da infidelidade do próprio marido — aliás, presente ali naquele momento — não achou improvável a acusação. Em todo caso, procurou consolar a filha. Mas esta, angustiada, continuou:
— Olhe, ele foi fazer a toilette em cima. Daqui a pouco vai sair diretamente, sem se despedir de nós. Atravessará a rua e irá, em diagonal, para a casa de sua concubina.
Não demorou muito, ouviram bater a porta da casa. A jovem esposa foi até a janela, olhou, e disse aos pais:
— Venham ver o que vai se passar.
Os três acompanharam, então, atrás da vidraça, os passos extraviados de quem acabara de sair. A moça, desconsolada, perguntou à mãe:
— E agora, mamãe, o que eu faço?
O pai, que assistia a toda aquela triste cena, tão própria a figurar na literatura romanesca do século passado, tinha a fisionomia contrafeita...
Então a mãe, abandonando toda a esperança de dissimular o óbvio, afirmou diante do próprio esposo:
— Minha filha, este é o destino de nós, mulheres, na sociedade. Você está apenas começando a carregar a cruz que eu carreguei a vida inteira...
Fez-se silêncio entre os três. A filha fitou o pai que, envergonhado, apenas balbuciou um “com licença” e saiu, batendo em covarde retirada.
Essa senhora era apresentada por Dona Lucilia como modelo de fidelidade conjugal, discreta, distinta, que apenas uma vez levantou seu brado de protesto para ensinar à filha e censurar o próprio marido, bem merecedor de ouvir essas verdades. E todo o episódio redundava num grande elogio à virtude da fidelidade conjugal.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Nunca permitir comparações, nem elogiar os seus



Durante as conversas é comum as mães estabelecerem um certo paralelo entre os próprios filhos e os das amigas, à medida que eles vão crescendo.

Dona Lucilia nunca o fez, nem sequer quando, anos depois Plinio se tornou o deputado mais jovem e mais votado do Brasil. Desejava que as almas dos filhos fossem transparentes como fino cristal, livres das imperfeições e apegos causados pelo vício da vaidade.

Mesmo quando outras pessoas louvavam muito os próprios parentes, proporcionando-lhe assim o ensejo de fazer o mesmo em relação aos seus, guardava silêncio, ouvindo tudo com polidez e atenção.

Esse elevado modo de proceder, além de proteger seus filhos contra o amor-próprio, criava nas almas deles obstáculos à inveja, triste tendêñcia presente em todos os homens.

Dona Lucilia só concedia em comparar seus filhos com outros quando, ao passar um pito neles, necessitava mencionar o caso de alguma criança que, naquele ponto, procedia bem.

E se na intimidade, Rosée e Plinio criticavam a alguma outra criança de sua geração, apontando reais defeitos, dona Lucilia logo cortava:

— Vocês não têm pena? Tenham pena. Rezem por ele  e peçam a Deus que preserve a vocês desse mal.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Magnífico equilíbrio entre cerimônia e intimidade

Dª Lucilia entre sua irmã Yayá (esquerda) e sua prima Anita. 
Ao lado, fac-símiles de uma das cartas transcritas nesta seção
Em harmonia com seus anelos de um mundo onde só reinassem elevação, benquerença e bom trato, Dª Lucilia demonstrava uma invariável delicadeza de sentimentos, sempre própria a encantar os corações abertos que dela se aproximassem. Exemplos paradigmáticos dessa riqueza de alma são as cartas e outros escritos que ela dirigia a seus filhos, procurando amenizar as saudades quando estes se ausentavam por breves ou longos períodos.
 “Parece-me ouvir-te e ver-te o dia inteiro”
Assim, em meados de 1921, por ocasião de uma estadia de Plinio e Rosée em Santos, na casa de sua tia Zili, irmã de Dª Lucilia, esta enviou ao filho as seguintes linhas, impregnadas de intenso carinho materno:
Filho querido!
Escrevo-te às pressas por estar passando mal e muito cansada pelas muitas visitas que temos recebido ontem e hoje.
Tenho tido tantas, tantas saudades tuas, meu filho, que se quisesse não saberia dizer-te!... Parece-me ouvir-te e ver-te o dia inteiro..... .arei todo o possível para ir ver-te e à minha filhona na segunda-feira, se Deus permitir.
Dizes-me que a casa de tia Zili está lindinha, o que é natural com o seu bom gosto, e tenho muito desejo de vê-la. Recebi ontem e hoje à tarde tuas cartinhas que me alegram tanto...
Sê sempre bonzinho, obediente e delicado para com teus bons tios, e carinhoso e delicado para com Ilka.
Um apertado abraço a tio Nestor¹, muitos beijos a tia Zili e Ilka, e para você..... muitas bênçãos e o coração saudoso de tua mamãe,
Lucilia
De outra estadia, um pouco posterior, é este cartão escrito por Dª Lucilia a Plinio:
Filho querido!
Recebi tua carta que muito prazer me causou. Dora² te dirá porque não te escrevo mais hoje, o que farei amanhã sem falta. Vai este pequeno money para ficares mais um dia. Sê bem amável para com tua irmã e prima. Estou com muitas saudades tuas, e envio-te com minha bênção, muitos e muitos beijos e abraços. Divirta-te mas com juízo.
De tua mamãe que muito te quer,
Lucilia
“Quer ver Lucilia? Olhe para Plinio”
 Nestor Barbosa Ferraz,
esposo de Dona Zili
O Sr. Nestor, mencionado na carta acima transcrita, sempre manteve afetuoso relacionamento com Dª Lucilia e os seus. Havia-se formado na Inglaterra, ainda em fins do século passado. Parecia um gentleman, muito distinto e amável, mas ao mesmo tempo com uma têmpera de ferro.
Quando seus sobrinhos ainda eram crianças, para distraí-los imitava às vezes dança de café-concerto, o que conseguia representar com toda a perfeição. De bengala e palhetinha, cantava, assobiava, pulava, conseguindo entreter durante um bom tempo seus pequenos espectadores, que o aplaudiam alegremente.
Votou de forma ininterrupta dedicada amizade a Dª Lucilia. Nos últimos anos de vida, conversando com alguns amigos de Dr. Plinio, comentava:
— Lucilia tinha uma personalidade muito marcada e muito vigorosa. E um afeto sem igual por seu filho Plinio. Várias vezes ela me disse que gostaria de dotar o Plinio de grande fortuna e prestígio.
E, como que a confirmar o adágio latino, filius matriscat³, acrescentava:
— Quer ver Lucilia? Olhe para Plinio. Quer ver João Paulo? Olhe para Rosée.
Nos conselhos, afeto e sabedoria
Nos momentos oportunos, nunca faltava a Dª Lucilia a palavra adequada para esclarecer uma conjuntura ou dirimir uma dúvida. Com o passar do tempo, as repreensões foram naturalmente cedendo lugar a recomendações que ela sabia dar como ninguém, deixando que os filhos resolvessem por si os problemas.
Em razão do alto grau de perfeição moral a que aspirava para eles, era levada a aconselhá-los com palavras repassadas de afeto e sabedoria.
O tino psicológico fazia dela exímia observadora e excelente conselheira. Discreta, prestando muita atenção no que se conversava em sua presença, era dotada de agudo senso moral que lhe possibilitava discernir com nitidez os matizes de bem e de mal de tudo quanto em torno dela se passava. Sua percepção era especialmente sensível e fina no que dizia respeito aos Mandamentos da Lei de Deus, à dignidade e à correção.
Sobre assuntos práticos, ela não era de dar conselhos inoportunos, limitando-se a alguma sugestão. Se opinava sobre a conduta de alguém ou emitia seu juízo a respeito de certo conjunto de circunstâncias, insistia em determinado ponto que julgasse não haver sido considerado adequadamente. Alertando a um dos filhos, dizia:
— Preste atenção. Sobre tal pessoa ou tal situação assim, sua mãe acha que...
E se se tratava de precatar contra algum defeito ou má intenção de outrem, nunca o fazia sem antes haver refletido muito. É claro que jamais dava conselhos a alguém diante de terceiros. Este modo de conduzir as almas, impregnado de espírito católico, tornou-se mais admirável ao terem Rosée e Plinio atingido a idade própria a frequentar a vida social.
Se a quem é muito jovem o tempo parece escoar vagarosamente, a quem é mãe os anos correm céleres. Como que num piscar de olhos ela vê aqueles filhos, que ainda ontem embalava no colo, já prontos a ingressar na sociedade. Para Dª Lucilia, essa nova fase dava origem a não poucos receios.
Guiando os filhos que vão frequentar a sociedade
Plinio Correa de Oliveira
Em consequência do anticlericalismo reinante no século XIX e que se prolongou século XX adentro, a prática da religião era vista como mais própria às mulheres. Segundo os conceitos então dominantes, não se admitia que uma jovem não fosse recatada e piedosa. Envolta na branca veste da virgindade, ela subia os degraus do altar apoiada no braço protetor de seu pai, para ser entregue àquele que daí a pouco seria seu cônjuge. Não se tolerava que uma esposa fosse infiel ao marido, e havia todo tipo de compreensão para o esposo que, vendo-se traído, “lavasse no sangue a honra ofendida”. Este era um dos clichês da linguagem do tempo.
Contudo, embora se exigisse do sexo feminino, com razão, o cumprimento da Lei de Deus, contraditoriamente isto não ocorria em relação aos homens. O modelo de virilidade então na moda, herdado do positivismo caduco e anticlerical do século anterior, prescrevia como impróprio a um espírito “objetivo” e “esclarecido” — outros termos do vocabulário redundante e vazio da impiedade em voga — a prática da Religião Católica, incluída no rol das superstições que a ciência acabaria por derrubar com seus progressos deslumbrantes. Como decorrência dessas ideias, havia todas as complacências em relação àqueles que, antes ou depois do casamento, não conservassem a castidade segundo seu estado. Era isto tão difundido que alguns pais chegavam a favorecer, e por vezes até a impor veladamente, que os próprios filhos passassem a frequentar casas de perdição.
Rosée
Por tudo o que já conhecemos de Dª Lucilia, bem podemos calcular a sua aversão a essa mentalidade anticristã e o quanto procurava formar seu filho em sentido diametralmente oposto.
No que diz respeito às filhas, as mães procuravam precavê-las de modo discreto. Mas até quando os usos sociais manteriam as regras de moralidade em relação às moças? De qualquer modo, assim como para evitar que uma criança se machuque não se lhe pode proibir de andar, correr e saltar, também era inevitável o ingresso da juventude na vida de sociedade, ainda que com o risco de extraviar-se.
Ao atingir 15 anos de idade, as jovens eram apresentadas em um baile de gala às relações de suas famílias, o que se revestia, conforme as épocas e o nível social, de maior ou de menor solenidade. Este costume se mantém ainda hoje, mesmo em países mais modernos e avançados como os Estados Unidos, onde é habitual convidarem-se príncipes e princesas de sangue a honrar semelhantes eventos com sua presença.
Embora no Brasil os tempos felizes do Império, com suas cerimônias e seu protocolo, tivessem ficado para trás, pomposas festas e bailes continuavam a atrair e deslumbrar a sociedade. Dª Lucilia não se furtava às obrigações que sua posição lhe impunha. Por isso, quando chegou a hora de seus filhos começarem a frequentar esses ambientes, ela os preparou convenientemente.
Tais encontros sociais, apesar de se revestirem das aparências de diversão, constituíam também uma espécie de campo de batalha sui generis, onde se jogavam interesses de família das mais diversas ordens. Ali se faziam e desfaziam projetos de casamentos dos quais não estavam ausentes aspectos econômicos, relações de sociedade e até alianças políticas.
Por isso, ao se abrirem as portas dessas solenes atividades aos jovens novatos, era chegada a hora de colocar em prática a arte das boas maneiras. Sobretudo era o momento de se mostrarem dignos descendentes das respectivas estirpes.
Quando Dª Lucilia não acompanhava seus filhos, estes, ao voltarem para casa, encontravam-na frequentemente a rezar diante de seu oratório do Sagrado Coração de Jesus. Ela nunca se recolhia sem que Rosée e Plinio retornassem. Nas conversas domésticas do dia seguinte, queria saber como havia transcorrido a festa. Às vezes as circunstâncias lhe davam oportunidade para uma “lição ao vivo” a respeito de tipos característicos daquela ainda requintada sociedade.
Cultivando o trato cerimonioso
Aliás, cumpre ressaltar que, embora já estivessem em plena era da influência liberalizante do American way of life, os parentes próximos de Dª Lucilia conservaram entre si um trato amenamente cerimonioso, em inteira consonância com o modo de ser desta dama paulista, sempre inclinada a tudo quanto era decoroso e elevado.
Mas, Dª Lucilia não seria ela mesma se não aliasse à admiração por um relacionamento impregnado de dignidade aquele seu contínuo e envolvente afeto. E era esse magnífico equilíbrio entre cerimônia e intimidade, mantido com sabedoria por ela e pelas gerações passadas, que tornava particularmente encantadores os aspectos miúdos da vida de todos os dias.
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)

sábado, 22 de dezembro de 2012

Anelos de elevação, gentileza e bom trato

Sempre solícita e diligente em tudo que dizia respeito à educação de seus filhos, Dª Lucilia aproveitava-se de todas as circunstâncias favoráveis para fazê-los progredir na formação de suas personalidades, bem como na aquisição de valores morais que os tornassem aptos a enfrentar as vicissitudes desta vida. Nessa preparação tinha lugar de destaque a arte de conversar, na qual Dª Lucilia era exímia.
As crianças introduzidas no mundo dos adultos
Em sua residência da Alameda Barão de Limeira, costumava-se congregar grande número de parentes, sendo habitual transformar-se a ampla sala de jantar em palco de prolongados entretenimentos e debates, que se estendiam após as refeições, já de si demoradas.
Concluída a sobremesa, as pessoas se sentavam confortavelmente nos sofás e poltronas dispostos nos cantos da sala e, enquanto sorviam a pequenos goles um aromático cafezinho, prosseguiam a conversa. Esta, sempre animada, comportava com frequência o trato de temas elevados, feita ao mesmo tempo com naturalidade e distinção. Naquela época, as conversas desse tipo, apesar de espontâneas, obedeciam a regras não escritas em nenhum manual e constituíam uma verdadeira arte, que o aparecimento do cinema e, mais tarde, do rádio e da televisão, extinguiu por completo.
Saber manter presa a atenção dos interlocutores, conseguir interessá-los por um tema, fazê-los participar sem constrangimento do animado diálogo, eram habilidades de espírito que tinham seus campeões, cujo mérito era vivamente apreciado pelas pessoas cultas. A tal ponto que a história sempre registrou os grandes causeurs de cada época. Um deles foi um bisavô de Dª Lucilia, o Dr. Gabriel José Rodrigues dos Santos, notável parlamentar do Segundo Reinado, não lhe tendo ficado atrás alguns de seus descendentes, que cultivaram e transmitiram o elevado dom da conversação.
A partir de certa idade, as crianças eram admitidas à mesa dos adultos, mas sem tomar parte na troca de ideias, a não ser quando alguma pergunta era dirigida a elas ou se lhes pedia uma opinião. Eram introduzidas desse modo ordenado no mundo das pessoas de mais idade, o que lhes ajudava a desde cedo tomar posição definida sobre as grandes questões do momento.
Aprendendo a julgar os fatos com Dª Lucilia
Naqueles pós-jantares, se alguém, folheando o jornal, encontrasse uma notícia interessante, lia-a em voz alta aos demais, contribuindo para alimentar a prosa. Dª Lucilia, porém, para melhor formar seus filhos, não se contentava em ouvi-la de modo passivo. Pelo contrário, procurava explicar-lhes a importância dos diversos fatos estampados nos diários. Quando ela reputava que algo tinha especial interesse, dizia em voz baixa:
— Meus filhos, prestem atenção no que foi comentado agora.
Habitualmente, as matérias tratadas pelos mais velhos iam variando e, ao discorrerem sobre acontecimentos relacionados com os assuntos pouco antes assinalados por Dª Lucilia, ela voltava a chamar a atenção dos pequenos, sempre em voz baixa:
— Meus filhos, isto também é muito importante.
E assim Dª Lucilia os educava, proporcionando-lhes de forma paulatina mais experiência e conhecimento, a fim de poderem relacionar os temas entre si e hierarquizá-los. Não tardou Plinio em perceber que os assuntos que Dª Lucilia mais comentava nem sempre eram os que saíam em manchete. Pelo contrário, não raras eram as notícias à primeira vista secundárias às quais ela dava mais importância. Isto despertou-lhe a curiosidade e o desejo de conhecer as razões desse modo de proceder. Sem muita dificuldade, concluiria ele: “Mamãe dá mais importância aos fatos que se relacionam com a Religião...”
Personagens históricos, modelos a imitar
Ao lado da arte de conversar, do interesse por narrações de histórias e de acontecimentos grandiosos do passado, bem como do senso do maravilhoso que Dª Lucilia procurava despertar nas crianças, ela se preocupava igualmente em lhes apresentar modelos que lhes pudessem orientar os passos. Foi assim que, em 1920, quando estiveram em visita a São Paulo o rei Alberto da Bélgica e sua consorte, a rainha Elizabeth, Dª Lucilia não perdeu a oportunidade de mostrá-los aos pequenos. Na ocasião, quando a comitiva dos soberanos passava pela Alameda Barão de Limeira, ela ressaltou aos olhos dos filhos a categoria, a distinção e o heroísmo daquele rei que, na Primeira Guerra Mundial, soubera defender com intrépida coragem seu país contra o invasor alemão. Fez notar também a postura correta da dama de honra da Soberana e comentou: “É assim que se deve ser!”
Era, portanto, explícita a intenção de apresentar aos filhos tais personagens históricos como modelos a imitar.
Última fantasia
Nesses seus preciosos desígnios de formação, Dª Lucilia idealizava para seus filhos (por ocasião dos inocentes festejos de carnaval daqueles tempos) fantasias que correspondiam aos modelos a eles propostos por ela.
Plinio e Rosée, entretanto, no início da década de 20, já iam abandonando a meninice. As tragédias e desilusões da vida estavam cada vez mais presentes aos olhos dos jovenzinhos, não lhes cabendo mais algo que não condissesse com a realidade, como eram tais disfarces.
Todavia, estando a família em Águas da Prata na época do carnaval, houve uma festa no hotel em que se hospedavam, e se tornava um tanto pesado e desgracioso, ante parentes e conhecidos, não participarem da alegria geral. Dª Lucilia então, habilidosamente, improvisou para seus filhos trajes típicos espanhóis. Seria a última vez que Plinio vestiria uma fantasia. Como nas ocasiões anteriores, ela soube dar-lhes um caráter muito mais real que ilusório.
Em consonância com aquela formação que lhes proporcionava, em ordem a admirar a tradição, ela procurava sempre, nessas circunstâncias, exprimir em trajes os valores de uma nação ou de um tipo humano determinado. No caso concreto, o que ela procurava incutir nos filhos de forma bem autêntica era a Espanha católica, das épicas touradas, dos grandes santuários e dos guerreiros cristãos.
“Ah! Agora o mundo entrou em seu verdadeiro eixo...”
É por essa época, em que os trens se mostravam ainda vagarosos e pouco estáveis, que um susto, seguido de aflição, não só marcará a pré-adolescência de Plinio, como deixará novamente transparecer o entranhado amor dele por sua querida mãe.
Dª Lucilia se encontrava em Águas da Prata. Iam ter com ela Dr. João Paulo, o filho e a governante deste. Ora, durante o percurso de trem, como acontecia por vezes, Plinio sentiu enjoo. Assim, quando de uma parada na estação de Campo Limpo, antes de Campinas, pediu licença ao pai para sair e tomar ar. Desceu à plataforma e pôs-se a percorrê-la tranquilamente de uma ponta a outra.
De repente ouviu um apito e notou que o trem se punha em movimento. Correu e, quando ia saltar, sentiu que decididas mãos o seguravam vigorosamente por trás, impedindo-o de realizar seu intento. Tratava-se da Fräulein que, muito perspicaz, também descera para não perdê-lo de vista.
— E agora, o que vamos fazer? — perguntou ele.
— Não tem nada. Vamos nos encontrar com seu pai em Campinas.
— Mas, como papai vai tomar contato conosco?
— Isto é muito simples. Vou falar com o chefe da estação. Ele passará um telegrama para a estação de Campinas, pedindo que avisem “o senhor que procura um filho, que o menino está em Campo Limpo e partirá para lá no próximo trem de tantas horas”.
Plinio pensou: “Há o risco de papai adormecer e não perceber o trem passar por Campinas”. Mas isto não se deu. Ao chegarem a Campinas, encontraram Dr. João Paulo tão satisfeito por ver resolvido o problema, que não continha seu afável e generoso riso pernambucano.
Passaram a noite num hotel daquela cidade e no dia seguinte Plinio se encontrava entre os braços de sua mãe. De forma instantânea configurou-se em seu interior a ideia: “Ah! Agora o mundo entrou em seu verdadeiro eixo...”
Pêsames pela morte da Princesa Isabel
Ao longo dos anos, desde 1912, quando se conheceram em Paris, a mãe de Dª Lucilia manteve assíduo contato epistolar com a Princesa Isabel e com a dama de honra desta, a baronesa de Muritiba. Evocativas de outras eras, algumas dessas missivas foram cuidadosamente conservadas pela filha, possibilitando-nos degustar agora um pouco daquele elevado relacionamento.
As cartas endereçadas à matriarca dos Ribeiro dos Santos, em geral lhe chegavam às mãos no final do almoço. Era a hora em que Luís, o copeiro, como de estilo, as apresentava a Dona Gabriela numa salva de prata.
Nessas ocasiões era comum estarem à mesa vários membros da família, que com indisfarçável interesse ouviam, por exemplo, Dona Gabriela anunciar: “Acaba de chegar uma carta da Princesa Isabel...”, e ler em voz alta as palavras da imperial signatária. Por vezes, como no caso a seguir, tratava-se de um simples postal:
Minha querida Dª Gabriela
Muitíssimo lhe agradeço seu telegrama por ocasião de nosso grande dia 13 de Maio. A baronesa de Muritiba lhe dará noticias de nós todos.
Sua muito afeiçoada
Isabel Condessa d’Eu Boulogne-sur-Seine, 4 de junho de 1917
Nesses momentos todos prestavam atenção, e era patente que seus espíritos ficavam tomados de um passageiro enlevo, do qual brotavam comentários elogiosos.
Próximo ao fim daquele ano, chegou a notícia do falecimento da Princesa Isabel, que encheu de tristeza os corações, em especial o de Dª Lucilia. Sua mãe redigiu um telegrama de pêsames para o Conde d’Eu e demais membros da Família Imperial: Queira Vossa Alteza aceitar...
Plinio, que fazia sozinho, havia já algum tempo, suas incursões ao centro da cidade, foi incumbido de passar esse telegrama. Décadas depois, ele ainda se lembraria da reação da funcionária ao ler as primeiras palavras da mensagem. Ela se voltou para uma colega e disse:
— Fulana, venha aqui depressa ver que beleza!... Veja que coisa linda!
Tratava-se presumivelmente de uma pessoa em dia com as modas e costumes mais avançados, e que, naquele instante, fora tocada por uma brisa de tradição. Aquelas simples palavras de pêsames dirigidas a um Príncipe constituíam um símbolo dos tempos passados, que naqueles já tão modificados anos ainda exerciam sua benéfica influência.
Não nos é difícil imaginar o apreço com que Dª Lucilia deve ter acompanhado tal correspondência, tão adequada a seus anelos de um mundo onde só reinassem benquerença, gentileza, elevação e bom trato...
(Transcrito e adaptado da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)