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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Harmoniosa vida conjugal

Havendo acompanhado por mais de 50 anos o convívio de pais, Dr. Plinio podia dar o testemunho de nunca haver presenciado uma desavença entre eles. Nunca uma palavra áspera ou um levantar de voz, nem tampouco uma bravata ou um gesto de mal-humor.
 “Dr. João Paulo era o mais pacífico e cordato dos homens”, contava Dr. Plinio, “e Dª Lucilia, uma senhora boníssima. Ele morreu com 84 anos e ela, com 92. Portanto, longa vida conjugal.
“Claro, às vezes eles entravam em desacordo e discutiam. Ambos eram pessoas inteligentes, e apresentavam argumentos apertados de parte a parte. Porém, o máximo que acontecia, quando meu pai ficava com os nervos um pouco mais tomados, era ele dizer para mamãe: ‘Senhora, mas esta opinião?!’ Parece que é comum no Nordeste o marido zangado chamar a esposa de ‘senhora’. Não era uma atitude de desaforo, mas quase uma cortesia.
“Por sua vez, mamãe tinha um modo característico de levantar a cabeça e contestar. Usava um penteado em forma de coque, e um certo jeito de movê-lo era sinal de desacordo. Manifestando-se às vezes dessa maneira, ela dizia: ‘Não, João Paulo, eu não acho isso...’
“Acima dessas minúsculas e inevitáveis desavenças, mamãe devotava a seu marido o respeito e a obediência que se deve esperar de uma esposa verdadeiramente católica, de maneira que ela nunca teria feito nada que fosse do desagrado dele.
“A única circunstância em que ele se impacientava — para o bem de mamãe — era quando ela, à medida que foi avançando em idade, em vez de se deitar, ficava rezando até altas horas da madrugada. Como pernambucano, habituado a se recolher cedo, papai assustava-se com aqueles horários tardios, julgando-os prejudiciais à saúde da esposa. Então, quando o relógio batia uma hora, uma e meia da manhã, ele às vezes se levantava da cama e se dirigia até a sala onde ela se encontrava imersa nas suas orações.
“Cena por mim presenciada em diversas ocasiões: papai se detinha um pouco atrás dela; mamãe percebia a presença dele mas não se voltava, continuando a rezar. Ele dizia:
“— O que é isto, senhora?! Já são quase duas horas!
“Ela não se importava, fazia-lhe um pequeno sinal, amável, como quem diz: “Já estou indo”, mas acabava por rezar tudo o que ela queria...

“Às vezes ele retornava, insistia, e mamãe então encerrava suas orações, acompanhando-o para o quarto.”
Continua

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Profundo senso do dever doméstico

Continuação do post anterior
No âmbito da vida de família, Dª Lucilia considerava seu dever proporcionar bem- estar, alegria e elevação de alma ao ambiente para seu marido, e formar os filhos de maneira a serem perfeitos católicos e cumprirem sua missão nesta terra. Para isto, devia marcar o lar doméstico com uma afabilidade e um afeto pelos quais ele se tornasse atraente, e fosse um meio de disputar a influência aos antros de perdição. Além disso, habituar os filhos que tivessem tomado essa tradição, a formar depois as respectivas proles na mesma escola, perpetuando tais costumes ao longo das gerações, porque assim se devia viver.
Ela era recolhida, tranquila, forte e meiga em todas as circunstâncias da vida. Estas podiam mudar, e ela mantinha sempre idêntico estado de espírito, por trás do qual palpitava seu entranhado senso do dever.
Profundamente católica, Dª Lucilia não entendia que a finalidade do homem neste mundo fosse conquistar honras, prazeres, glórias e dinheiro, para se deleitar o mais possível e depois estourar de morto. Havia, sem dúvida, satisfações e tristezas no existir humano. Devia-se, até, tirar partido dos prazeres lícitos para suportar as tristezas. Para ela, porém, a vida era antes de tudo um dever a cumprir, em ordem a formar a própria alma segundo os desígnios de Deus. Ou seja, com vistas à santificação e à salvação eterna.

Dever que ela procurou realizar, de forma exímia, em sua condição de esposa modelar e de extremosa mãe.
Continua

sábado, 23 de julho de 2016

Deveres de esposa

No ano de 1905, o Dr. Antônio Ribeiro dos Santos, conhecido advogado em São Paulo, que havia feito boa fortuna, preocupava-se com o futuro de suas três filhas solteiras. Resolveu ter uma conversa séria com a mais velha delas, Lucilia, então com 29 anos.
— Minha filha, se eu morrer sem você se casar, tocar-lhe-á como herança uma boa quantidade de dinheiro. Você, porém, irá ficando madura, e o casamento se tornará cada vez mais difícil. Ora, aqui há esse moço que está trabalhando comigo, o Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira, que manifesta o desejo de se casar com você. Não dou ordem, mas aconselho que você se case. Ele tem várias qualidades, entre as quais a de pertencer a uma ilustre família de Pernambuco. É sobrinho do Conselheiro João Alfredo (homem famoso naquele tempo, pois fora presidente do Conselho de Ministros do Império, e assinara a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888). Terceiro, é de uma inteligência invulgar, e, portanto, talvez faça fortuna. Insisto, pois, na recomendação de que você aceite a proposta dele.
— Acho que ele é uma pessoa distinta, não tem dúvida, mas eu preciso pensar melhor — respondeu Lucilia.
Dr. Antônio ainda ponderou que o dote a ser levado por ela seria suficiente para o casal encaminhar a vida. Ele era advogado, podia sair-se bem na carreira, e, para ela, casar seria mesmo menos inconveniente do que permanecer solteira.
— Mas penso que talvez fosse melhor eu me tornar freira — volveu Lucilia.
— Bom, talvez... Mas pense bem no que irá fazer. É verdade que casamento traz desilusões, contudo você verá que a vida religiosa as traz igualmente. Reflita com mais vagar sobre o que você deseja antes de decidir.
Lucilia, que nutria um extraordinário encanto e enlevo pelo pai, na mesma hora lhe respondeu:
— Papai, eu sigo cegamente o rumo que o senhor me indicar. O que é mesmo que o senhor aconselha?
— Dado você como é, e como me parece ser o Dr. João Paulo, acho mais acertado casar com ele.
— Está bom, farei conforme os desejos do senhor.
Matrimônio encarado com limpidez de olhar
E a jovem Lucilia cumpriu a palavra. Tornou-se noiva de Dr. João Paulo, e o casamento se realizou pouco tempo depois.
Desde o início, Dª Lucilia encarou o estado matrimonial com saliente candura e limpidez de olhar e, ao mesmo tempo, com elevação de espírito, colocava-se sob o amparo e proteção da Santíssima Virgem para o perfeito cumprimento de seus deveres de esposa e mãe.

 A vida de dona de casa dará maior profundidade ao seu espírito sobrenatural, que tomará contornos mais definidos à medida que problemas, aflições e achaques se multiplicarem. Fiel a seu antigo costume, juntava as mãos, e com os olhos postos no Sagrado Coração de Jesus, implorava, por meio de sua querida Madrinha, Nossa Senhora da Penha, amparo e solução.
Continua

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Exemplo de perfeição

Com extrema maternalidade, Dona Lucilia procurava orientar seus filhos para uma vida de perfeição. Dr. Plinio se recorda de fatos do dia-a-dia que deixam transparecer a bondade de sua mãe.
Se houve uma pessoa que me deu todas as formas de exemplos de perfeição, foi Dona Lucilia.
Em primeiro lugar pela sua elevação moral. O espírito dela tinha certa tendência, continuamente manifestada, para o que há de mais alto, mais belo, mais delicado.
À noite, após fazer todas suas orações, ela me esperava chegar da rua para trocar mais uma palavrinha comigo. Eu percebia que o tempo decorrido entre o término de suas preces e minha chegada era considerável, às vezes três quartos de hora. Mamãe estava cansada, com sono, mas não queria ir dormir. Não sei no que ela pensava, mas eu notava que seu espírito se desprendia de regiões mais altas do pensamento para descer e conversar comigo.
Espírito impregnado pelo “perfume” da elevação
Imaginem uma pessoa que subisse em uma montanha, no alto da qual houvesse árvores com flores perfumadíssimas, e lá ficasse certo tempo. Quando descesse, seus trajes estariam penetrados do cheiro daquelas flores. Assim, eu tinha a impressão de que seu espírito ficava impregnado do perfume das coisas nas quais ela tinha pensado.
Eu não ia conversar com ela para tratar de algum assunto específico, mas apenas por ser seu filho; era inteiramente espontâneo. E aquilo que me ocorresse e tivesse a vontade de dizer-lhe naquele momento, eu falava. Ainda que fosse uma coisa insignificante, por exemplo, um episódio com o cobrador das passagens de bonde porque ele não tinha troco. Ela entrava naquele assunto, embora fosse minúsculo.
Algumas vezes mamãe me perguntava: “Filhão, o que você fez hoje à tarde após sair do escritório?” Eu lhe contava: fui ao dentista ou ao barbeiro ou a uma loja para comprar um par de sapatos. Ela prestava atenção e iluminava o assunto pelo espírito dela, fazendo assim que o tema deixasse de ser banal.
Mas não prolongava a conversa perguntando: “Onde estão os sapatos? São bonitos ou feios?” Normalmente as senhoras se interessam por essas coisas.
Aliás, eu gostava de sapatos bem largos, e a única preocupação dela nessa matéria tão banal era que, sendo folgados demais, de repente me causassem um tombo. Então ela sempre dizia:
— O sapato não é largo demais?
Eu sorria e respondia:
— Para meu gosto não, para o seu é.
— Olha, filhão, você toma um tombo...
— Reze por mim — e encerrava o assunto.
Preparando presentes para os filhos
Às vezes, ela contava pequenos fatos tais como:
Quando éramos crianças, mamãe preparava para minha irmã e para mim presentes de Natal e Ano Bom. Ela mandava a Fräulein nos levar para as duas ou três melhores casas de presentes de São Paulo e nos dizia: “Escolham os presentes e rezem a São Nicolau, para que ele os consiga para vocês.” Acreditávamos que era assim; íamos às lojas e escolhíamos coisas muito desiguais: minha irmã preferia bonecas e eu soldadinhos de chumbo, objetos que exprimiam luta.
Além desses brinquedos, mamãe — creio que por dedicação — gostava de ela mesma fazer presentes para nós, especialmente para minha irmã, porque é mais fácil fabricar uma coisa para menina do que para menino. Este gosta de coisas meio brutas, enquanto aquela, de objetos mais delicados.
Lembro-me de vê-la trabalhar para compor algo semelhante a um abat-jour, colando em sua copa uma série de figuras de meninas, uma segurando na mão da outra, formando guirlanda, dando certa impressão de dança, em torno de um chafariz. Ela recortava essas figuras femininas de jornais brasileiros ou figurinos franceses, e colava-as em papel especial. Depois pintava os bordos das saias, espalhava uma espécie de poeira dourada e dava o abat-jour para minha irmã.
Apesar de sua má saúde, mamãe ficava às vezes até meia-noite, meia-noite e meia, preparando esse presente. Era algo trabalhoso, mas ela o fazia com perfeição.
Porém, o mais perfeito estava nisso:
Passado certo número de dias, a cola ia secando, as figuras se desprendendo e aquilo ficava feio. Então, ela mandava rasgá-lo e jogá-lo no lixo, sem o menor pesar. Agora a perfeição consiste em pensar noutra coisa, não lastimar o passado mas, isto sim, em ir para frente.

Desde o mais delicado e carinhoso, até ao mais firme e decidido, tudo mamãe fazia com perfeição.
Continua no próximo post

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

“Mamãe também é assim...”

Dr Plinio discorre sobre o nexo íntimo de causalidade entre o que possa haver de bom nele e a influência católica recebida de sua mãe, Dona Lucilia.
Senso católico
Com efeito, sempre que as solicitações de meus ouvintes me levam a recordar situações de minha infância e dos meus tempos de moço, mais a figura de Dona Lucilia me aparece com uma confirmação ainda mais vincada, mais acentuada do imenso papel dela para a formação do senso católico em mim.
Neste sentido, não me esqueço um episódio — diversas vezes narrado por mim — que se deu comigo na igreja do Sagrado Coração de Jesus. Aliás, não foi um fato isolado, mas repetido incontáveis vezes, talvez anos a fio, o qual entretanto ficou-me marcado de modo particular quando se produziu pela primeira vez. Na minha memória, aquele foi o momento arquetípico, gravado indelevelmente no meu interior, em que eu formei certa idéia de conjunto da igreja do Sagrado Coração de Jesus, enquanto assistia à Missa.
Formou-se pelo agrado sucessivo, espontâneo, das figuras, da cor interna do templo, dos vitrais, da atmosfera, do que pairava de sobrenatural, do rito, da liturgia, etc. Ainda que eu não entendesse com toda a profundidade o significado do santo sacrifício da Missa, tinha a idéia — concebível e proporcionada ao intelecto de uma criança — de se tratar da renovação incruenta do holocausto de Nosso Senhor no Calvário. Ora, eu acompanhava aquela celebração e, de repente, constituiu-se no meu espírito a noção de conjunto, envolvendo as belezas artísticas da igreja, sua atmosfera sobrenatural, o esplendor do culto e a renovação do sacrifício de Jesus. O intercâmbio, as reversibilidades de todas aquelas coisas se patentearam à minha alma, sem que eu conhecesse a palavra “reversibilidade”.
Conferindo com a alma de Dona Lucilia
Percebi esta inter-comunicação e compreendi haver por detrás de tudo um espírito, uma alma, uma causa superior que era Deus Nosso Senhor e o Divino Espírito Santo, agindo acima de tudo e a tudo sustentando. Essa reversibilidade fazia com que aquele conjunto brilhasse como um reflexo muito fiel, preciso, exato e rico da fisionomia do próprio Deus. E meu ato de Fé se manifestou inteiro: era a Santa Igreja Católica Apostólica Romana! E, ao mesmo tempo, um ato de amor: “Ela vale tudo e é tudo!”
Vinha-me, então, a esperança do Céu e a idéia dos esforços e da luta que eu deveria travar para alcançálo. E, com naturalidade assombrosa, para explicar-me essas noções todas, eu pensava em Dona Lucilia, que talvez estivesse junto a mim: “Isso é assim mesmo, pois a alma, o espírito de mamãe é assim. Logo, devo interpretar tal coisa e tal outra dessa maneira. É mesmo, confere com ela...”
E assim como aquele primeiro ato de Fé e de amor, pela graça de Nossa Senhora se estendeu pela vida inteira, também durante o longuíssimo convívio que a Providência determinou tivéssemos mamãe e eu, cada vez mais me fazia notório esse paralelo — “É claro, mamãe é assim” —, vendo nela um reflexo da Igreja, através dela contemplando melhor a Igreja e, conhecendo mais a Igreja, compreendendo melhor a ela.

Continua no próximo post

sábado, 16 de agosto de 2014

Emulação na virtude para formar os filhos

Seria oportuno ponderar que uma das atitudes que mais aflige o homem é a  inveja.  E  esta  nasce  das  comparações. A experiência na vida espiritual nos mostra que o costume de nos  compararmos  com  os  outros  é  um  dos erros mais funestos que se pode  cometer. Fazendo-o, logo nascem a  inveja, as feridas do orgulho, as más  ambições, e uma cascata de desejos  perniciosos que, não raro, darão entrada às tentações contra a virtude  da pureza.
Ora, essa forma de comparação  é algo que nunca vi em DªLucilia,  fosse em relação a ela, fosse em relação  aos  filhos.  A única ocasião em que ela se permitia de nos comparar com outros era quando nos passava alguma  repreensão.  Se havia uma criança que procedia melhor do que nós em determinado ponto, ela então a apontava como exemplo e  dizia: “Veja tal pessoa!”
Tratava-se, porém,  de uma  boa  e  compreensível  emulação  na  virtude, própria a nos educar. A não  ser  essa  atitude  formativa,  ela  jamais se comparava, nem a nós, com  ninguém. Era  uma  disposição  de  espírito em tudo coerente com a serena  e invariável retidão de sua alma.
Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência em 13/6/1982


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Estimular a inocência

Dona Lucilia ensinava como prolongar a inocência dentro da maturidade, fazendo seus filhos compreenderem como a inocência não é apenas um estado de espírito de uma  criança, mas um programa de vida que, em  última análise, leva o homem a cumprir o primeiro mandamento da Lei  de Deus.
Fantasias de Carnaval que estimulavam a inocência
É interessante notar que os dias de Carnaval  ofereciam  a  mamãe  uma  oportunidade especial de estimular em  nós a inocência. Todas as crianças da família se fantasiavam, vestidas pelos  pais. E eu me deixava trajar como Dª  Lucilia quisesse, pois a vontade dela  era indiscutível para mim. Agora, um  detalhe: as fantasias que ela arranjava  sempre tendiam ao sério, ao contrário  de outras que exploravam o burlesco,  impelindo a criança a tomar atitudes  descompostas e apalhaçadas.
Lembro-me de certo ano em que  ela, nas suas delicadas concepções,  planejou para mim uma fantasia de  marajá.  Ignorando  as  características do personagem que eu iria adotar, logo quis saber do que se tratava,  e mamãe então me descreveu as belezas da Índia, com seus lindos palácios, suas riquezas e mistérios.
— Você, portanto, vai se fantasiar  de marajá! — disse-me ela, num tom que era um convite longínquo para a criança encarnar e viver o papel de  soberano hindu por alguns dias. Recordo que minha fantasia comportava um turbante feito de várias  sedas, ornado de uma bonita aigrette que acompanhava os meneios da  cabeça  e  me  dava  a  impressão  de  uma  espécie  de  sismógrafo  muito  nobre da alma humana. Além disso,  era presa ao turbante por uma grande pedra “preciosa”, e esse pormenor de uma “jóia” incrustada na testa, da qual se desprendia uma elegante pluma, parecia mais ou menos a profundidade do pensamento  da qual se destacava uma construção alígera...
O  resto  da  roupa  era  igualmente de seda, guarnecida de jóias falsas,  anéis,  colares,  etc.  Os  sapatos,  com as pontas voltadas para cima e  revestidos de cetim lilás, pareceram-me  particularmente  graciosos,  pois  achei muito feliz a ideia de calçados  que  se  erguiam  da  vulgaridade  do  chão, como se o seu usuário dissesse: “Eu toco no solo, mas o melhor  de mim mesmo se faz alheio à poeira. Por isso viro a ponta para cima.”
Assim como com as fantasias de  outros Carnavais, essa do marajá era  preparada  no  clima  criado  por  Dª  Lucilia,  falando-me  com  seriedade  acerca do personagem que eu iria representar, e imaginando uma vestimenta que, conforme os padrões e as  posses dela, deveria ficar seriamente bonita. Quer dizer, com inocência  e seriedade, ela tinha empenho em que eu me apresentasse bem.  

(Plinio Correa de Oliveira –  Extraído de conferência em 12/6/1982)

terça-feira, 8 de julho de 2014

A hora de conversar com o “filhão”

Constituía maior distração para Dª Lucilia receber pessoas amigas. Já muito antes de as visitas chegarem, mandava a empregada abrir as venezianas do salão nobre e verificar se a disposição dos móveis e dos objetos estava de acordo com suas orientações. Pouco faltando para a hora aprazada, perguntava duas ou três vezes se haviam chegado as pessoas esperadas. Quem tinha a graça de estar próximo dela nessas circunstâncias, podia uma vez mais comprovar seu interesse e desvelo pelos outros. Costumava acontecer que, pela solicitude dela com os visitantes, estes se esqueciam até da hora de se retirar...
Entretanto, nunca deixava de ocupar o lugar central de suas atenções seu próprio filho.
Durante quase toda a sua convalescença, Dr. Plinio passava o dia no escritório de seu apartamento. Ali, em certas horas atendia os membros do seu movimento, e fora dessas ocasiões guardava repouso, seguindo orientação médica.
Escritório Plinio Correa de Oliveira
Não era raro que, ao passar pelo corredor, Dª Lucilia manifestasse desejo de se encontrar com seu filho. Era tocante observar a cena. Com a fronte voltada para a porta do escritório, ela dizia à empregada que movimentava a cadeira de rodas:
— Vamos aqui, Mirene.
Muitas vezes era a hora do descanso de Dr. Plinio, ou o momento de suas orações, e a porta estava fechada. A empregada respondia:
— Mas, Dª Lucilia, agora ele está dormindo.
— Você tem certeza disso?
A respeito desses episódios, conta Dr. Plinio: “De vez em quando, estando já deitado no sofá, eu a ouvia dizer:
“— Mirene, agora é hora de eu falar com Dr. Plinio.
“A empregada simulava não ouvir, mas mamãe insistia e às vezes ordenava:
“— Entre! Eu quero falar com Dr. Plinio!
“De dentro do escritório, eu poderia dizer:
“— Mirene, entre! — mas deixava correr o marfim, pois queria ver em que daria aquela batalhinha. Às vezes mamãe impunha sua vontade, com autoridade. A empregada não tinha ânimo de enfrentar e cedia.”
Dona Lucilia entrava num contentamento único! Uma “batalhinha” semelhante também se verificava quando Dr. Plinio estava no quarto de dormir. Acontecia que Dª Lucilia, ao se aproximar da porta, dizia à empregada:
— Mirene, eu quero ver Dr. Plinio, hem! O quarto dele está chegando.
Quarto Plinio Correa de Oliveira
A cadeira de rodas continuava impassível seu caminho e Dª Lucilia insistia:
— Mirene, agora chegou a hora de eu falar com Dr. Plinio.
A empregada retrucava:
— Não, senhora, já passou a hora.
— Não, é hora, sim!
Dr. Plinio então dizia:
— Deixe-a entrar — e fingia que era a hora de estar com sua mãe.
— Então meu bem, chegou o momento de nos vermos...
“Quando chegava ao meu quarto, ela estava sossegadinha”, lembra Dr. Plinio. “Eu gracejava um pouco com ela, conversava, mandava pô-la bem perto de mim, para que ela me ouvisse melhor. Ela ficava prestando uma atenção enorme nas minhas palavras. E não duvido que, à noite, enquanto estivesse se preparando para dormir, ainda pensasse nesse encontro”.
Fora dessas esporádicas ocasiões, havia um horário preestabelecido — antes da sesta e da noa 1 de Dr. Plinio — em que Dª Lucilia tinha a tão esperada oportunidade de conversar com ele. Essa hora ela nunca perdia!
Aproveitando o almoço e o jantar para cuidar dos assuntos de sua obra, Dr. Plinio recebia sempre alguns amigos. Dona Lucilia entrava a partir do final do segundo prato, já próximo à sobremesa. Cessavam então os temas de trabalho e começava uma conversa variada. Terminada a refeição, os amigos de Dr. Plinio se retiravam, deixando-o a sós com Dª Lucilia. A prosinha era habitualmente mais curta do que ela gostaria. Com efeito, Dr. Plinio determinara que a empregada a deixasse com ele, no escritório, durante um tempo limitado, devido às exigências de sua convalescença. Esgotado o tempo, ela entrava e dizia:
— Dª Lucilia, vamos, Dr. Plinio precisa descansar.
— Não, não — respondia por vezes Dª Lucilia — você pode deixar que eu vou ficar.
Mas a Mirene, seguindo as instruções de Dr. Plinio, ia puxando a cadeira devagarzinho.
— Mirene, o que é isso? Eu vou ficar.
Dr. Plinio intervinha então.
— Benzinho, preciso descansar um pouco. Diante do pedido do “filhão”, Dª Lucilia não dizia mais nada, submetendo-se pacientemente à privação da companhia de quem lhe era tão caro. A empregada ia puxando a cadeira, de costas, e Dª Lucilia ia-se despedindo à distância, com um leve gesto de mão, enquanto fitava seu filho ainda um instantezinho...

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Formando seus filhos no seio da Igreja

Em relação a seus filhos, Dona Lucilia exercera de modo exemplar seu papel de educadora, dando à religião uma importância primordial. 
Quando ainda muito novos, Plinio e sua irmã foram instruídos no Catecismo por DonaLucilia. A fim de os preparar para a primeira comunhão, ela contava-lhes a História Sagrada.
Doçura penetrante de carinho
Certa vez, durante esta preparação, Dona Lucilia falava especialmente da doçura de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora. Ela lhes apresentava esta doçura penetrante de carinho,  de afabilidade, de bondade. 
Sem dizer explicitamente, quando ela falava da bondade d’Ele, dava-lhes a ideia de uma bondade majestosa, a qual supera qualquer majestade terrena.
Em suas  narrações,  tudo  quanto  Nosso Senhor fazia era de modo sereno, cheio  de significado, medido com uma sabedoria  que transcendia, de longe, qualquer sabedoria criada. Ora ela acentuava a bondade, ora a superioridade absoluta d’Ele. Porém sempre com uma nota — a qual, aliás, corresponde ao Evangelho — de tristeza. A Paixão nunca estava ausente de suas narrações.
Uma Terra Santa lendária
Ela imaginava a Terra Santa um pouco lendariamente. Para ela, deserto da Palestina, por exemplo, era como o Saara, quando, na verdade, os desertos da Terra Santa, senão raras vezes, tem a poesia deste outro. Quando ela dizia “Mar de Tiberíades” tinha-se a impressão de estar vendo as ondas se formando naquele mar. Os personagens do Antigo Testamento eram apresentados por ela como profetas grandiosos, menos doces do que categóricos, como os profetas de Aleijadinho.
As aulas de catecismo
Além das aulas que ela dava a seus filhos em casa, providenciou  que o Monsenhor Marcondes Pedrosa, pároco da igreja de  Santa Cecília, paróquia à qual pertenciam, ministrasse aulas de catecismo. Estas aulas eram particulares. De maneira que duas ou três vezes por  semana iam à paróquia, onde Monsenhor ensinava-lhes o catecismo especialmente. Ela teve sempre muito cuidado nisso. Entretanto estas não foram as principais contribuições dela para a boa formação de seus filhos. Inscrevê-los no curso de catecismo, dar ela mesmo algumas aulas, isto toda boa  mãe fazia. O principal era, entretanto, o que transparecia no contato com ela. Nesse convívio sentia-se todas as excelências morais que ela possuía: amor, calma, dignidade, afeto, seriedade, etc. Isto atraía muito seus filhos.
“Eu prefiro mamãe”
Um fato que transparece o quanto seu filho a admirava e era por ela atraído. Certa vez, ele adoeceu e foi obrigado a acamar-se. Estava muito aborrecido por ter de ficar de cama, o que para uma criança não é nada agradável... Dona Lucilia foi visitá-lo juntamente com uma irmã dela, Dona Zili. As duas se aproximaram de sua cama e a mãe lhe disse: 
— Olha, Zili está com o tempo livre e pode cuidar de você. Eu também tenho tempo livre, de maneira que você veja qual das duas você prefere. 
A sua tia era muito mais nova do que ela, muito viva, engraçada, contava coisas interessantes. Plinio olhou para as duas e pensou: “vai ser  muito menos pesado recuperar-se ao lado de uma tia que  canta, faz brincadeiras, diz coisas engraçadas, com ela eu  vou ter muita ocasião de rir e isto vai tornar a minha doença mais leve.” Depois olhou para a mãe, e os olhos dela o olhavam com uma calma muito plácida. Disse então:
— Tia Zili, a senhora é uma “vice-mãe” para mim,  mas mãe mesmo é mamãe. Eu prefiro mamãe.
Aos domingos, iam à missa na igreja do Coração de Jesus. Ela ensinou seus filhos pelo convívio e exemplo à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, à devoção a Nossa Senhora, a amar a Santa Igreja Católica. 

Plinio Correa de Oliveira -Extraído e adaptado de Conferências de 21/9/82 e 25/7/94

sábado, 26 de outubro de 2013

Esmero no escolher presentes para os filhos

Dona Lucilia cuidava dos assuntos de casa, conferindo-lhes aquela sua nota característica de bondade e delicadeza de alma.
Por exemplo, quando preparava os presentes de Natal para os dois filhos, em geral brinquedos comprados nas melhores lojas do gênero então existentes em São Paulo. Até atingirmos certa idade, mamãe costumava pedir à nossa governanta, Fräulein Mathilde, que nos levasse a essas lojas e nos fizesse escolher os nossos brinquedos favoritos, dizendo-nos em seguida: “Agora rezem a São Nicolau, e peçam a ele que lhes traga esses presentes”.
Claro, crianças que éramos, acreditávamos naquela afetuosa combinação, e nos dirigíamos à loja de brinquedos contentes e ansiosos, esperando que São Nicolau nos fosse favorável. No dia de Natal, nossa alegria era completa ao vermos que tínhamos sido atendidos . . .
Mas, além desses presentes, mamãe se comprazia em confeccionar, ela mesma, outros brinquedos para nós, especialmente para minha irmã, pelo fato de ser mais fácil elaborar algo que agrade a uma menina. Lembro-me, por exemplo, de vê-la trabalhar num enfeite para abajur que era uma espécie de guirlanda formada por figuras femininas de mãos dadas, como se fossem várias meninas dançando ao som de uma música em torno, digamos, de um chafariz.
Essas silhuetas eram inspiradas em gravuras que mamãe colecionara de revistas brasileiras ou de figurinos franceses. Depois de as recortar e colar, ela ainda as pintava com purpurina, dando relevos dourados e outros adornos. Por fim, decorava o abajur e dava de presente à filha. Aquilo lhe tomara tempo e empenho, às vezes até altas horas da noite, mas era de admirar a perfeição e o cuidado com que mamãe se entregava à tarefa . E, a meu ver, o melhor dessa perfeição estava no fato de que, com o passar do tempo, as figuras perdiam aderência no abajur, se descolavam, caíam, e o objeto tornava-se feio. Dona Lucilia então se desfazia de tudo: “Acabou-se, não tem mais beleza, e a perfeição agora consiste em pensar noutra coisa. Isso fica para o passado. Pensemos no futuro”.
Sempre o melhor possível
Quer dizer, desde o mais delicado e mais carinhoso, até o mais firme e mais decidido, mamãe procurava fazer tudo do melhor modo que lhe fosse possível . Outro exemplo é a maneira como ela se dispunha a animar a vida de família. Vivíamos em casa de minha avó, mãe dela e matriarca dos Ribeiro dos Santos, numa dependência especialmente reservada para nós. Contudo, em se tratando de uma casa muito grande, era natural que mamãe se dedicasse a ajudar vovó nos cuidados domésticos, supervisionando os criados, a manutenção da despensa, verificando as contas e coisas do gênero.
Além disso, com o auxílio da Fräulein, ela costurava e fazia certas peças de roupa para nós, não por se sentir obrigada, mas porque gostava e desejava, por afeto, que usássemos algo confeccionado por ela. E com razão: uma coisa é o filho usar uma gravata comprada na loja, outra é envergar aquela cortada com carinho por sua mãe. E tudo levado a cabo com tal capricho que pensávamos: “Não era possível fazer, nesse caso, nada melhor do que ela fez”.
Sejamos perfeitos como Deus é perfeito
Esse anelo de perfeição era tão característico de mamãe que eu, acostumado a pôr-lhe apelidos — sempre respeitosos e afetuosíssimos —, durante algum tempo a chamei de Lady Perfection, isto é, Senhora, Madame ou Dona Perfeição . E quando eu me referia a ela por essas alcunhas carinhosas, ela demonstrava grande contentamento . Diante do quê, meu pai, homem de muito bom gênio, olhava para ela e dizia, arremedando o sotaque português:
— Não te derretas . . .
Queria observar, com esse gracejo, que ela por pouco não se desmanchava de satisfação com os meus agrados. Mamãe lhe respondia com uma fisionomia séria, eu dizia outras afabilidades para ela, e nesse trato ameno terminavam nossos encontros.
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência em 10/9/1994

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A presença repousante de Dª Lucilia

Os encargos do escritório de advocacia somavam-se às diversas outras tarefas que Dr. Plinio já desempenhava. Com efeito, além de exercer o magistério e de ser diretor de uma imobiliária, entregara-se de alma inteira à atividade apostólica, que muito o absorvia.
A justa nomeada que alcançara como líder católico obrigava-o a comparecer a grande número de atos públicos nos meios religiosos, sendo com freqüência convidado a fazer discursos e conferências nos mais variados ambientes.
Apesar de tão intensos trabalhos, nunca saía de casa sem antes se despedir de Dª Lucilia e de lhe dizer aonde ia. Ela o abraçava, beijava e depois lhe dava a bênção. Certo dia, porém, Dª Lucilia notou que Dr. Plinio saíra sem dela se despedir. Apenas encontrou, em local visível, um bilhete, encimado por uma pequena cruz sob a qual se liam as iniciais do lema de Santo Inácio: Ad Majorem Dei Gloriam.
Mãezinha de meu coração, Há perto de três semanas, marquei para hoje à noite, às oito e meia, uma conferência na Escola Paulista de Medicina, na Vila Clementino.
Depois esqueci-me da data. Ontem me telefonaram lembrando. E eu lá vou com grande antecedência (...).
Por isto, meu amorzinho, lhe deixo mil e mil dos mais saudosos beijos, pedindo-lhe desculpas, e prometendo voltar logo que termine, para matar as saudades.
Em outro dia ocorreu o contrário. Dr. Plinio não aparecera de manhã, à hora habitual, para dizer a ela bom dia. O tempo passava e ele não dava qualquer sinal de vida. Dona Lucilia mandou a empregada verificar o que ocorria não demorou: a porta do quarto estava fechada e tudo permanecia em silêncio. Desta vez, não era nenhuma doença que o prostrara na cama, mas o cansaço por uma vida muito atarefada. Ela disse então à criada que batesse na porta e passasse por baixo um bilhete, que escreveu, com o seguinte apelo:
Plinio,
Você já perdeu a aula, vê se não perde também o emprego! Levanta-te já, peço-te.
Na verdade, a fadiga que alquebrava Dr. Plinio não era só, nem principalmente, fruto dos muitos trabalhos, mas sim das incontáveis batalhas em defesa da Fé. Porém, se o combate levado a cabo com entusiasmo lhe pesava nos ombros, a simples presença de sua mãe compensava tudo, constituindo um bálsamo de suavidade. Sentia-o de modo especial quando chegava a casa, vindo do escritório, ocasião em que lhe era mais patente o choque entre o frenesi da rua e as bênçãos do lar.
Passava Dª Lucilia boa parte do dia rezando ou lendo, sentada na cadeira de balanço outrora pertencente a Dª Gabriela. Ao seu redor se criava uma atmosfera de indizível tranquilidade, o oposto do mundo agitado e tormentoso que se movia fora de casa. Era como se uma campânula invisível, colocada por um anjo, protegesse aquele ambiente do conturbado torvelinho da vida. Quem nele penetrasse, sentia a alma pervadida pela paz. Uma paz mais repousante que duas ou três horas de descanso...

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)

domingo, 1 de setembro de 2013

Demora preocupante

Os acontecimentos da Europa, convulsionada pela Segunda Guerra Mundial, alimentavam o fervilhar das polêmicas no Brasil. Das páginas do “Legionário”, Dr. Plinio fazia a tribuna, do alto da qual desafiava os inimigos da Igreja.
Dona Lucilia, que seguia com olhar atento as atividades de seu filho, bem avaliava os perigos pelos quais ele passava. Numa ocasião em que os ânimos estavam mais acirrados, Dr Plinio chegou a ser ameçado de morte. Por isso, à noite, Dª Lucilia nunca se deitava antes de seu filho ter chegado em casa. Quando ele demorava mais do que o habitual, com certa aflição despertava Dr. João Paulo e, para movê-lo a tomar alguma medida, lhe perguntava:
— Plinio não está demorando?
Como bom nordestino, mais dado ao otimismo e à despreocupação, o marido procurava sossegá-la dizendo:
— Senhora! ele chega a qualquer momento.
Esse otimismo, graças certamente às fervorosas orações de Dª Lucilia, nunca foi desmentido pelos fatos, naquelas circunstâncias.
Porém, a bonomia de seu esposo não era suficiente para tranquilizá-la, e ela replicava:
— Não!... Ninguém sabe o que pode acontecer...
E continuava a rezar, confiante na proteção da Providência. Às vezes, quando a saúde o exigia, recostava-se na cama e mantinha a luz acesa, esperando que o ruído dos passos firmes de seu filho anunciasse o fim da vigília. Depois que Dr. Plinio a cumprimentava e ela verificava com os próprios olhos a integridade física dele, se o tempo ainda o permitisse, iniciava uma pequena prosa para saber novidades do dia, como havia corrido o trabalho, o apostolado...
Dr. João Paulo, a fim de convencer seu filho a chegar mais cedo, contava-lhe, por vezes, os temores de Dª Lucilia com aquelas demoras. Porém, para Dr. Plinio as obrigações para com a Causa da Igreja tinham precedência, e em nada permitiam mudar seus horários. Dona Lucilia compreendia bem que isto não podia ser de outro modo e nunca se queixava, oferecendo pelo esposo e pelos filhos, ao Sagrado Coração de Jesus, o sacrifício que aquela situação representava.
Uma noite, porém, as horas foram escoando e Dr. Plinio não aparecia. Sempre que poderia ocorrer algum atraso, ele prevenia sua mãe. No entanto, naquela noite não recebera ela qualquer aviso. Bem podemos imaginar quantas e quão sombrias conjecturas passaram pela mente de Dª Lucilia. Teria ocorrido algum acidente com seu filho, ou sofrera ele algum atentado? Como sempre fazia nas ocasiões de angústia, recorreu ao Sagrado Coração de Jesus e, aos pés da imagem do Divino Redentor, ora sentada, ora em pé, lá foi desfiando com serenidade e confiança as contas do rosário.
Quando as primeiras claridades da aurora começaram a afugentar as trevas, cerca das cinco da manhã, Dr. Plinio afinal chegou. Ainda não terminara ele de dar a volta completa à chave na fechadura e já Dª Lucilia se dirigia ao hall de entrada para o receber. Às angústias da longa espera, sucederam-se as alegrias de o ver ali são e salvo. Por isso mesmo, antes de lhe fazer qualquer pergunta, recebeu-o com carinho. Após os primeiros instantes de evidente alívio, perguntou-lhe:
— Mas, meu filho, o que você fez até agora?
Dr. Plinio explicou-lhe o motivo de tão prolongada demora: dois religiosos para cuja Ordem advogava foram naquela noite ao seu escritório para tratar de alguns assuntos. A Ordem à qual pertenciam era um de seus melhores clientes. Como os padres apreciavam uma boa prosa, terminada a consulta, iniciaram uma conversa que se prolongou até as quatro e meia da manhã.
Dona Lucilia, ainda um pouco inconformada, replicou surpresa:
— Mas, padres, até essa hora na rua!?
— Sim, senhora. E era minha obrigação atendê-los. Se não fosse por outras razões, boa parte de minha advocacia depende deles.

Tranquilizada pela explicação, Dª Lucilia resolveu ir se deitar, não sem antes agradecer ao Sagrado Coração de Jesus por nada de grave haver acontecido.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Consolar o próximo: dever de caridade

Como vimos, Dona Lucilia procurara formar seus filhos no hábito de fazer o bem a seus semelhantes, especialmente aos mais próximos. E mesmo após atingirem a idade madura, não cessava de lembrar-lhes tais obrigações, sempre que a ocasião se apresentava.
Igreja Santa Efigênia
Animada por essa caridade, tinha muita preocupação em confortar os conhecidos, a quem a morte levara um parente ou amigo. Exemplo disso é o bilhete que, um dia, deixou a Dr. Plinio:
Plinio
Realiza-se hoje às 9 horas em santa Ephygenia a Missa de sétimo dia do Dr. X. É preciso que vás, pois estimo muito ao seu cunhado Y, e sendo também co-parente de Dr. Z não pódes deixar de ir, porisso peço-te que vás.
Outro exemplo do empenho dela no cumprimento dos deveres familiares transparece num carteio de junho de 1937, durante nova temporada em Aguas da Prata, para onde ela fora acompanhada de seu esposo. Dr. Plinio, em missiva a seu pai, justifica-se longamente por não ter podido encontrar-se com um Corrêa de Oliveira, apesar da insistência de Dr. João Paulo e de Dona Lucilia de que o fizesse:
São Paulo, 28 - VI - 1937
Papai,
Recebi sua carta. Infelizmente, o Corrêa de Oliveira partiu para Santos e de lá para o Rio, muito inopinadamente, no dia de sua partida ou no dia imediato, se não me engano. Não houve, pois, tempo para ir visitá-lo. Os argumentos aduzidos pelo Sr. e por Mamãe, a este respeito, são todos perfeitamente razoáveis, a tal ponto que me considerava na obrigação de ir ao Esplanada, para cumprimentar o Corrêa de Oliveira, e até tinha pensado em voltar, caso não o encontrasse. Mas o Sr. vê que não foi possível.
Dr. Plinio segue a missiva tratando de algumas causas de advocacia que Dr. João Paulo deixara pendentes em São Paulo. Esse motivo acabou por exigir o regresso deste último mais cedo do que esperava. Para Dª Lucilia não ficar sozinha, seu filho sugere que Maria Alice, neta dela, então com 9 anos, lhe vá fazer companhia.
Ao terminar a carta, ele faz referência, com uma pontinha de jocosidade, a uma característica de suas famílias, tanto do lado materno, quanto do paterno: a arte da boa conversa. Por serem paulistas uns e pernambucanos outros, desenvolviam essa qualidade de modo bem diverso:
Como vai o tempo aí? E o Sr.? Está aproveitando o repouso? Está alguém aí, que lhe possa interessar para conversar, etc.? Aliás, para o Sr., conversa, principalmente com estranhos, está longe de ser gênero de primeira necessidade, como para Mamãe, para mim, e para todos os que temos um pouco de sangue de Ribeiro dos Santos.
Com um saudoso abraço, pede-lhe a bênção o filho amigo,
Plinio
À medida que os anos passavam e Dª Lucilia ia ficando mais idosa, seu filho multiplicava a solicitude para com ela. Isto fazia a fim de tornar menos penosa a solidão daquela que não teve a fraqueza de se adaptar às inovações da “modernidade” para alcançar cidadania no mundo. Com o objetivo de distraí-la, não raras vezes convidava à sua mesa alguns dos amigos mais chegados do “Grupo do Legionário”¹.
Ao escrever a sua mãe, naquele mesmo dia vinte e oito de junho, da sede do Legionário em cuja redação ficava trabalhando até horas tardias, Dr. Plinio conta-lhe que recebera duas cartas de um companheiro de luta o qual tivera a dita de amiúde jantar com Dª Lucilia, ficando indelevelmente marcado pelo convívio com ela. Além disso, procura uma vez mais tranquilizá-la com relação ao cumprimento dos compromissos familiares, destacando alguns com letras maiúsculas. Dª Lucilia muito recomendava a seu filho que prestasse especial assistência a Dª Rosée, embora ela já fosse casada, pedido ao qual ele atendeu até o último dia de vida de sua irmã.
São Paulo, 28-VI-1937 Mãezinha querida do meu coração,
Recebi com muito agrado seu telegrama e sua carta. Confesso que me esqueci de dar à Ana os recados referentes às janelas, etc.,etc. Se me lembrar, darei. Não posso prometer de dar ainda que não me lembre! Entrincheiro-me atrás desse sofisma, e passo a outro assunto.
Recebi duas cartas do José Gustavo², em dois dias consecutivos. Uma, a primeira que recebi, era datada de Perugia, se não me engano. A segunda veio de bordo do Neptunia, navio em que ele seguiu. Veja que desordem. Ambas as cartas eram muito afetuosas. Uma delas continha particulares referências à Sra. e aos “sossegados jantares de domingo”, dos quais ele me pede para lhe dizer que não se esquece, nem a caminho da Europa.
Almocei ontem com tia Yayá, depois FUI Á CASA DO ZITO³, PARA CUMPRIMENTÁ-LO PELO SEU ANIVERSÁRIO, percorrendo por isto, a pé, todo o espaço que vai entre a Rua Augusta e a Brigadeiro Luís Antônio, na Avenida Brasil, porque não conhecia bem o caminho. Tenho jantado FREQÜENTEMENTE com Rosée, e ela vai hoje em casa. (...)
Ontem, fomos jantar na Caverna. Depois, fomos dar umas voltas de automóvel, numa excelente Packard. Ás onze e meia estacionamos no Trianon, onde tomamos alguma coisa. Depois, fomos para casa. (...)
É possível que eu vá passar alguns dias em Santo Amaro, ou em Santos. Mas ainda depende.
Mande-me dizer detalhadamente como vai sua saúde, o que a Sra. anda fazendo, o que não anda fazendo, etc.
Maria Alice deve estar aí no dia dois, caso Papai siga no dia 1º, de sorte que a Senhora só ficará uma noite só. Antes disto, ela não poderia seguir porque as roupas não estão prontas, ou qualquer coisa assim.
Tenho a impressão de que Maria Alice está muito só. E não é só ela... Com muitos e afetuosíssimos beijos, pede-lhe a bênção o seu filho querido,
Plinio
“Tenha muito cuidado com sua saúde”
Ao saber alguns dias depois que Dª Lucilia fora acometida por um achaque, Dr. Plinio, embora tomado de ocupações, escreve nova missiva a sua mãe:
Mãezinha de meu coração Rapidamente, à meia noite e quarenta, escrevo-lhe uma palavrinha, para lhe dizer quanto sinto que a Sra. tenha adoecido aí, e quanto desejo seu pronto restabelecimento. Neste sentido, agora mesmo, acabo de rezar a Na. Sa., pedindo que tudo por aí lhe corra do modo mais suave possível.
Por aqui, nada de novo. No dia de anos de Tia Zili, ela me convidou, e a Rosée para almoçarmos em sua companhia na Caverna. (...)
Jantei em casa de Rosée, e, depois de um dia passado inteirinho na Rua, recolho-me exausto, fazendo esforço para lhe poder escrever.
Espero que o róseo portador desta carta lhe vá aliviar um pouco as saudades. “Um pouco”, porque tenho a ilusão pretensiosa de ser insubstituível. E, apesar de pretensiosa, creio que essa ilusão não está muito distante da realidade. (...)
Ontem, a Vasp convidou-me, como Diretor do Legionário, a fazer uma viagem de avião ao Rio hoje, ida e volta, gratuita. Era uma viagem dedicada a todos os jornalistas. Recusei, e indiquei um representante. E, por isto, mereço uma especialíssima aprovação de minha Mãezinha. Agora à noite, estive com o tal rapaz. Imagine que ele partiu às 8, chegou às 9 e meia, voltou parece-me que às 2 e meia, e chegou às 4. Portanto, foi almoçar no Rio e voltou. No tempo em que Vovô Gabriel fazia essa viagem em costa de burro, imagine o pasmo dele se imaginasse que seu bisneto poderia ir e vir do Rio em um mesmo dia!
Bem, minha Mãezinha querida, melhore muito, aproveite muito, reze muito por mim, e tenha muito cuidado com sua saúde.
Pede-lhe a bênção com muito afeto o filho respeitoso, que lhe envia mil beijos.
Plinio
(Nota, a assinatura vai à maquina, porque é mais fácil. Dado ser a portadora quem é, penso que a Sra. não duvidará da autenticidade...)

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)