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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O convívio com Dona Lucilia

O tema da conversa dela (Dona Lucilia) comigo era muito caseiro. Era mais o trato dela comigo. Ela tinha a mentalidade de uma dona de casa do tempo da mãe dela. No trato era enormemente as tais conversas silenciosas. Quando presentes outras pessoas e saía uma conversa mais alta, ela ficava quietinha, e prestando muito atenção. Quando ela perdia alguma coisa por não ouvir bem e não compreender bem, ela pegava só os imponderáveis.
Mas o convívio era totalmente esse. E é deste convívio que o apartamento está cheio. E eu moro lá e não sei viver sem senti-lo. Eu entro lá, penso que ela está a 2 passos de mim. É um modo qualquer de dizer “mãezinha, vamos almoçar?”, e o modo dela dizer que queria, e depois irmos juntos, que eram impregnados de alguma coisa que não sei qualificar.

Por exemplo, quando a comida vinha um pouco quente, ela queria esfriá-la. Comia primorosamente bem na mesa. Ela nunca se sujava, nunca ela cortava por exemplo o macarrão, suspendia um pouco acima e virava um pouquinho o garfo discretamente, enquanto conversava. A delicadeza do gesto de virar, que não era uma delicadeza social só que havia, mas junto a esta existia uma delicadeza de alma no tratar o macarrão, etc. — ela era a dona de casa feita para o lar, para a delicadeza — soprava um pouquinho o macarrão e olhava para ver se deitava fumaça ainda, e, se saía ainda um pouquinho, ela soprava um pouco mais, quando conversava. Nunca ela punha o macarrão na boca antes de estar no ponto. Nunca acontecia em que tinha de colocar água junto porque estava quente, coisas grotescas destas, etc., nunca aconteciam. Pegava tudo com naturalidade, com suavidade, e por cima das harmonias de alma.
Plinio Corrêa de Oliveira - relato de uma conversa 1976

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Reflexo de um afeto

Entre os edificantes aspectos da pessoa de sua mãe, Dr. Plinio apreciava a elevada clave de espírito em que ela se situava e da qual provinham seu afeto e sua benevolência, tão atraentes quanto consoladores. Na verdade, Dona Lucilia procurava, habitualmente, considerar todas as coisas em função do parâmetro absoluto que é Deus
Já tive ocasião de mencionar que minhas observações em relação a Dona Lucilia começaram muito cedo, quando eu, menino de 2 ou 3 anos, acordava durante a noite e saía do meu berço — colocado ao lado da cama dela — para ir me sentar sobre o peito de mamãe. Abria seus olhos com a mão e começava a analisá-la.
Reflexo da clemência de Nossa Senhora
Essa relação baseada no afeto e na bondade teve um importante papel na minha compreensão acerca da insondável misericórdia de Nossa Senhora para com os homens, especialmente para com os pecadores. Quando eu próprio me senti objeto dessa clemência da Mãe de Deus, foi como se Ela me dissesse: “Eu perdôo tudo, e por mais que você cambaleie e se apresente a mim nesse estado de penúria espiritual, terei pena e o perdoarei”. O sentir essa disposição maternal determinava em mim a idéia da proteção e do afago desinteressados de Nossa Senhora para comigo: a misericórdia d’Ela sobrepuja os últimos limites de minha miséria, cobre-os com sorriso, com ternura, com sobras de complacência, só porque eu sou o Plinio...
Ora, em grau menor, eu sentia análogas disposições de mamãe em relação a mim. Portanto, sem eu saber, ela preparava meu espírito paracompreender a extraordinária misericórdia de Nossa Senhora. Quiçá eu não a tivesse entendido como a entendi, não fosse esse contato prévio com o afeto de Dona Lucilia.
Ungido pelo perfume da bondade
A par dessa profunda analogia com a ternura de Maria Santíssima, eu apreciava em Dona Lucilia a elevada clave de espírito em que ela se situava e a partir da qual nos dispensava suas manifestações de afeto e benevolência. Na verdade, mamãe procurava habitualmente considerar as coisas em função de algo mais alto, em função do parâmetro absoluto que é Deus, assim como procurava atraí-las para essa elevação de alma.
De maneira que me sentia a mim mesmo sendo visto desde essa clave, e quando Dona Lucilia me agradava, era algo desse patamar que descia sobre mim, e como que me ungia. Por exemplo, quando ela me fazia o sinal da Cruz na testa, antes de ir dormir, eu percebia que alguma coisa daquela alta clave me recobria como um azeite, um bálsamo, e me fazia bem. Mas, no sentido próprio da palavra: era perfumado, suavizante, e penetrava em mim como o óleo penetra no papel.
Junto com essa elevação, a bondade invariável para comigo e para com os outros. Revestida de uma certa tristeza, igualmente comovedora, por constituir um ápice de conúbio com aquela clave elevada, na qual ela muitas vezes se sentia só: “Moro nesse patamar, que é o lugar do meu abandono. Convido-os para estarem comigo e desejo sua companhia. Porém, se não vierem, aqui permanecerei sozinha.” Supérfluo dizer que essas qualidades de Dona Lucilia falavam imensamente à minha alma de filho...
Plinio Correa de Oliveira – Transcrito de conferência em 4/12/1985

Revista Dr Plinio n. 118

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Filhão, mamãe comprou isto para você

Embora a felicidade eterna dos seus fosse a principal preocupação de Dª Lucilia, continuava ela a observar, até o último instante, as pequenas obrigações decorrentes do relacionamento familiar, nas quais o afeto era a regra primeira. Por isso, ao aproximar-se o fim do ano, ou o aniversário de alguém, Dª Lucilia já ia pensando nos presentes a dar. A escolha era feita segundo a medida do afeto, e jamais em função do valor das lembranças anteriormente recebidas. Ela nunca condescenderia em rebaixar uma amizade a uma relação quase comercial.
Para Dª Lucilia, as festividades de fim-de-ano começavam sempre uns dias antes, ou seja, a partir do aniversário de Dr. Plinio, a 13 de dezembro. Com muita antecedência ia separando as quantias necessárias para os gastos e — daquele seu modo peculiar — as guardava num papel no qual escrevia a finalidade, formando pequenos rolinhos. O que era muito concorde à meticulosidade e perfeição com que fazia as menores coisas.
A seu filho oferecia sempre gravatas. Havia muito que ela já não fazia pessoalmente a compra, deixando-a a cargo de Dr. João Paulo, pois este desde moço vestia-se com muito bom gosto. E Dª Lucilia sempre achava que ele acertava na escolha. Por quê? Porque “João Paulo se veste bem”. Era o paradigma dela.
 Para Dr. Plinio, o que dava real valor ao presente eram as palavras — envoltas em tanta benquerença que enchiam a alma de doçura — escritas por sua mãe, não num cartão, mas sim no papel de seda da própria caixa da gravata. Tal pormenor, um tanto inusitado, dava especial sabor ao gesto dela, por deixar transparecer um traço de sua personalidade.
Dona Lucilia, ao entregar a seu filho o presente, com afeto dizia:
— Filhão, mamãe comprou isto para você.
Numa ocasião, estando próximo o “grande dia” do aniversário de seu filho, Dª Lucilia entrou no escritório dele, no apartamento, a fim de preparar o presente. Dr. João Paulo se encontrava ali, no sofá. Ela sentouse diante da escrivaninha, abriu a caixa de gravatas, retirou com cuidado o papel de seda e o estendeu sobre a mesa a fim de escrever a dedicatória. A tarefa, devido às suas condições, apresentava certas dificuldades, que o anseio de perfeição a levava a vencer pacientemente, uma por uma. O papel de seda não se firmava bem sobre o vidro da mesa, e sua vista, um tanto enfraquecida, lhe dificultava o traçado de sua bonita letra.
Enquanto escrevia os primeiros caracteres, ia conversando com Dr. João Paulo. Ao passar no corredor, Dr. Plinio observou a cena pelo vão da porta, ouvindo encantado o diálogo que entre eles se travava:
— João Paulo — perguntou Dª Lucilia — como é que o Plinio gostará mais que eu diga? Assim deste jeito ou de tal outro?
Com sua atenção voltada para assuntos diversos, Dr. João Paulo respondeu com uma evasiva:
— Senhora, qualquer das duas fórmulas serve.
Essas palavras não satisfizeram Dª Lucilia, que voltou a insistir:
— Não, João Paulo, pense um pouco, ajude-me aqui...

Por fim, tendo eles escolhido uns dizeres de preferência a outros, Dª Lucilia terminou de escrever, repôs as gravatas no papel de seda e fechou a caixa, levando-a em seguida para seu quarto, onde a guardou até o dia do aniversário do filho. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

“Minha mãe é muito melhor que a sua!”

Dr. Plinio não perdia ocasião para retribuir o afeto de sua mãe. Isto compensava, de alguma forma, as ausências impostas por suas obrigações e, sobretudo, a aliviava do isolamento. Muitas vezes externava este reconhecimento por amenos gracejos: o invólucro de um dito espirituoso dava maior alcance aos seus filiais sentimentos.
Dª Gabriela, mãe de Dona Lucilia
Certa ocasião, estando Dª Lucilia no “Salão Azul”, sentada ao lado do “filhão” em agradável conversa, ele lhe perguntou, referindo-se ao quadro de Dª Gabriela:
— Mamãe, quem é aquela senhora que está naquele quadro?
Dona Lucilia, estranhando a pergunta, respondeu num tom de voz que denotava ligeira surpresa:
— Meu filho... aquela é mamãe...
— Pois, olhe, minha mãe é muito melhor que a sua!
Dona Lucilia, um pouco desconcertada diante de um elogio que a colocava acima de sua própria mãe, a quem muito admirava, não tendo o que responder, tocando com a ponta dos dedos suavemente na mão de Dr. Plinio, como era seu hábito, apenas lhe disse:
— Ora!... meu filho, meu filho...
Quando muito elogiada por ele, Dª Lucilia alegava serem exagerados seus ditos, por não merecer tanto. Ele brincava então, e lhe chamava “Madame Merece Mais”, não permitindo que ela vencesse a carinhosa disputa. Dava-lhe a entender desse modo o quanto seus louvores ficavam sempre aquém da realidade.Um dia ele lhe perguntou com uma pontinha de afetuosa ironia:
— Mamãe, eu sou o filho que a senhora esperava? Sem aguardar resposta, continuou:
— De fato, a senhora gostaria que eu fosse um advogado brilhante, com barba longa...
Era o tipo humano do homem bem-apessoado do tempo do pai dela, Dr. Antônio.
— Pois bem — concluiu ele — a senhora acabou tendo um filho polemista!
Na intimidade, Dr. Plinio não poupava elogios nem manifestações de carinho à sua mãe, deixando-a por vezes enternecida. Era nessas ocasiões que, imitando sotaque português, Dr. João Paulo dizia a ela, gracejando:

— Não te derretas!...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Bondade, suavidade e indulgência

Pelo afeto com que Dona Lucilia tratava Dr. Plinio desde o berço, ele conheceu a bondade de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus.
Nossa Senhora do bom Conselho de Genazzano
Durante as reflexões que, por ocasião de minha doença1, fiz sobre Nossa Senhora de Genazzano, me chamou muito a atenção a inteira intimidade do Menino Jesus com Maria Santíssima. Ele até passa a mão por trás do pescoço d’Ela.
Respeito, admiração, veneração e ternura
E me lembrava da intimidade que eu tinha com a minha querida e saudosa mãe, uma intimidade tão cheia de respeito, de admiração, de veneração e de ternura, mas uma verdadeira intimidade. Ela sabia ser pequena, afável, meiga ainda quando eu era um menino que dependia completamente dela.
Por isso, desde os meus primeiros dias, eu a chamava de “mãezinha”; não sabendo falar bem, eu dizia “manguinha”, mas já era a ideia do que havia nela de miúdo, de pequeno, de proporcionado a mim, de exorável por mim, de compassivo para comigo. Era a ideia que brotava em mim de toda a mansidão e bondade dela. A bondade de Dona Lucilia foi para mim o modo pelo qual eu conheci a bondade de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus.
Do que minha mãe me legou, as duas coisas mais preciosas que eu conheço na ordem moral, não na ordem religiosa, foram exatamente, de um lado, a bondade e, de outro lado, a severidade sábia.
Mamãe era tão bondosa que eu nem saberia dizer! Mesmo na hora de perdoar as coisas em que eu andava mal, ela manifestava uma indulgência, uma suavidade, e nunca uma reclamação porque algo a tivesse atingido. Portanto, jamais entrava reivindicação de um direito dela.
Os pitos de Dona Lucilia
Por possuir a cultura de uma senhora de antigamente, mamãe nem saberia bem explicitar um princípio, mas tinha os princípios em seu espírito.
Assim, nunca o pito dela era motivado por uma irritação pessoal, mas por um princípio ofendido, inclusive o da autoridade materna, e sempre com tanta bondade, tanto perdão, tanta paciência no que dizia respeito a ela. O que, em menino, eu fizesse de pior, ou outras pessoas faziam de horrível para mamãe — e que eu presenciava —, enquanto coisa ofensiva para ela, Dona Lucilia engolia quietinha e não dizia uma palavra.
Como eu me lembro dos pitos dela! Que seriedade no olhar, que compenetração de que se tratava de fazer prevalecer um princípio! Que convicção de que, se não conformasse minha vida com aqueles princípios, para ela eu valeria muito menos! Mamãe via em mim mais o filho que devia amar os princípios, do que o filho que precisava querer bem a ela.
E quanta sabedoria no que ela dizia! Que voz grave! E ao mesmo tempo a bondade não estava ausente. A intransigência dela para comigo chegava a esse ponto; acho que já contei isso aqui, mas estou me expandindo um pouco.
De larvas que somos, Nossa Senhora nos transformará em crisálidas
Uma vez — foi o apogeu de minha vida colegial, mas nunca fui o primeiro de minha sala de aula — eu voltei da festa de distribuição de prêmios no Colégio São Luís, com quatro medalhas no peito; os meninos vinham na rua ostentando as medalhas, naqueles tempos ingênuos.
Lembro-me que eu vestia traje marinheiro; mamãe abriu a porta de casa e me agradou, foi uma alegria.
No ano seguinte regressei com três medalhas; ela abriu a porta, olhou e disse:
— Só três?
— Mas, intransigente. E acrescentou:
— O que aconteceu para você decair?
Dizia isso misturado com tanto afeto, que posso afirmar ter sido uma preparação para eu compreender o que era a misericórdia de Nossa Senhora.
Muitos dos que estão aqui a conheceram — alguns até bem de perto — e poderão achar que há exagero no que eu digo, mas não que existe uma invenção.
Não quero dizer que as mães dos presentes neste auditório não lhes tenham ensinado isso; também não desejo afirmar que eu tenha aprendido inteiramente o que ela me ensinou. Falo isso para exemplificar um pouco o que estou pensando.
E não sinto que nossa devoção à Santíssima Virgem seja inteiramente assim. Neste sentido, nós somos ainda como larvas que se vão arrastando pelo chão até o momento em que Maria Santíssima nos transforme em crisálidas.  
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferências de 6/5/1968 e 18/6/1968
1) Diabetes, cuja crise durou de dezembro 1967 a maio de 1968.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Suaves repreensões

Foi o Sagrado Coração de Jesus, sempre pronto a perdoar e acolher o pecador arrependido, o modelo perfeito com o qual Dª Lucilia sempre procurou se identificar. Assim, em suas atitudes, palavras e gestos iam transparecendo de modo crescente, com o correr dos anos, a extrema suavidade e doçura de trato que tanto refulgiram na figura do Divino Mestre.
Já seu filho, exposto a rudes pelejas apostólicas, além da infinita Bondade, adorava de maneira particular a Nosso Senhor enquanto intransigente com o mal que se mostrava empedernido. Essa dualidade de aspectos do Divino Modelo fazia desprender do convívio mãe-filho uma melodia de notas opostas, mas sempre harmônicas. Dr. Plinio era tendente a manifestar categoricamente as próprias opiniões, até nas menores coisas, e Dª Lucilia procurava refrear um pouco este expansivo modo de ser, às vezes por demais contundente segundo os padrões dela.
Certo dia a empregada não acertou na compra da manteiga. Após ter untado abundantemente uma fatia de pão, Dr. Plinio, ao prová-la, logo sentiu um gosto desagradável, indicativo de que o alimento não estava fresco.
Dª Lucilia, que punha todo empenho em lhe proporcionar um cardápio de acordo com sua preferência, estava sempre atenta às reacções dele, e percebeu de imediato sua repulsa.
— Meu bem — disse ele — essa manteiga que a empregada comprou não serve nem para engraxar os trilhos dos bondes!
Dª Lucilia ficou com a fisionomia um tanto penalizada. Mesmo em se tratando de um alimento de qualidade inferior, não era bondoso um comentário tão forte, segundo seus critérios.
Mas, como admoestar um filho já homem feito, professor universitário? Era uma situação para a qual só ela podia encontrar uma boa saída. Estando sentada à mesa, ao lado dele, tocou-lhe suave e repetidamente com a ponta dos dedos no dorso da mão, como que a lhe dizer: “Meu filho... Meu filho!...” O macio dos toques, o sedoso da pele, reflexos de seu modo de ser, transmitiam uma censura que inundava a alma dele de doçura.
E sempre que Dr. Plinio dizia o que pensava a respeito deste ou daquele, Dª Lucilia, quando não tinha mais como defender o atingido — por ser indefensável — apelava para este último e mudo recurso: discretos toques no dorso da mão dele.

Era bem provável que Dr. Plinio tivesse vontade de acrescentar outro comentário, para que ela lhe proporcionasse mais uma suave repreensão...
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

domingo, 7 de julho de 2013

Dois outros exemplos de discernimento materno

Um dos muitos dons com os quais a Providência quis cumular Dona Lucilia, a fim de que eia cumprisse de modo exímio sua missão de mãe e formadora, foi o discernimento das psicologias. Este levou-a, por exemplo, a escolher uma governante alemã para educar seus filhos, por perceber como o senso de ordem e o do cumprimento do dever, do povo alemão, seriam fatores altamente benéficos na formação das crianças. Só isto explica não ter ela escolhido uma governante francesa, uma vez que tanto admirava a França.
De igual modo discernia ela, entre os amigos de Dr. Plinio, aqueles que o eram autenticamente, de um ou outro que não o era.
Dois fatos demonstram a singularidade desse dom.
Certa vez Dr. Plinio convidou para jantar em sua casa um jovem colega dos meios católicos. Durante a refeição, Dona Lucilia observou discretamente o convidado, entrevendo algo de peculiar nele. Assim que o rapaz se retirou, ela disse a seu filho:
— Tome cuidado com aquela mão... O modo de ele pegar no garfo é muito esquisito...
Dona Lucilia relacionava, talvez de forma intuitiva, aquele modo “esquisito” com algum defeito moral não inteiramente explicitado. Uma certeza se firmara em seu espírito: aquele amigo não deveria ser merecedor de confiança. E, mãe zelosa,  para isso alertara Dr. Plinio.
O pressentimento dela foi em breve confirmado pelos fatos: algum tempo depois esse rapaz abandonou seus correligionarios, causando grandes dissabores a Dr. Plinio.
Noutra ocasião, Dr. Plinio convidou para almoçar em sua casa um de seus amigos mais chegados, pertencente às Congregações Marianas. Durante a refeição ouviu-se tocar o telefone. Poucos instantes depois, veio a empregada avisar que o Sr. X estava na linha, e tinha um assunto urgente a tratar com Dr. Plinio. Este interrompeu o almoço para atendê-lo. Como o aparelho ficava numa sala ao lado, Dona Lucilia e o visitante para lá também se dirigiram. Nos assuntos que seriam tratados nesse telefonema jogavam-se altos interesses da Causa Católica.
Dona Lucilia tudo observava em silêncio com seu calmo e luminoso olhar. Em seu íntimo, certamente rezava por seu filho, para que o Sagrado Coração de Jesus o amparasse nessa dificuldade.
Terminado o telefonema, voltaram à mesa e a conversa retomou seu rumo. Quando o visitante se retirou, Dona Lucilia perguntou a Dr. Plinio:
— Você viu a reação dele enquanto você falava ao telefone?
— Não, mamãe, estava tão absorto na conversa que não prestei atenção.
Num tom de voz grave, mas que deixava transparecer ainda mais o quanto de afeto lhe votava, ela o advertiu:
— Meu filho, cuidado com esse seu amigo... Sempre que você estava com a fisionomia preocupada, ele manifestava contentamento; quando você dava uma boa resposta a seu interlocutor e punha os pingos nos “is”, ele ficava indiferente ou demonstrava tristeza... Esse não é seu amigo!
Não muito tempo depois, Dr. Plinio recebia desse “amigo” verdadeira “punhalada” nas costas...
Pode-se perguntar como Dona Lucilia, pessoa tão reconhecidamente bondosa, tinha uma desconfiança que a levava a discernir o mal através de detalhes na aparência insignificantes. De fato, o conceito de bondade que se espalhou em numerosos meios, em especial a partir do fim da década de 30, era bem diferente da verdadeira concepção dessa virtude, ensinada pela Igreja.
Desde essa época há a tendência de confundir bondade com uma complacência em relação a certas formas de mal, o que redunda quase sempre em fechar os olhos obstinadamente ante ele, como se não existisse.

Bem diferente era a alma de Dona Lucilia, na qual se reuniam, numa admirável síntese, a bondade e uma inquebrantável firmeza de princípios; a misericórdia e um aguçado senso de justiça; a afabilidade e uma inteira seriedade de espírito. Este conjunto harmônico de virtudes lhe propiciava, com certa freqüência, perceber o que as situações e as pessoas tinham de bom ou de mau.

domingo, 30 de junho de 2013

Os desvelos de Dona Lucilia pelo ‘‘filhão” doente

Dona Lucilia, conquanto em nada descurasse as prescrições médicas, nunca impunha um tratamento a quem tinha idade para se governar a si próprio. Seu desvelo por seu filho não diminuíra, pelo contrário, requintara-se ao longo dos anos, passando a representar para ele um autêntico repouso e encorajador consolo, em meio à luta que ele conduzia pela ortodoxia católica. Disso é ilustrativo o episódio seguinte:
Certo dia Dr. Plinio foi acometido por fortíssima indisposição. Dona Lucilia percebeu imediatamente e com sua matizada voz lhe perguntou:
— Filhão, você está indisposto, não está?
A pergunta, muito afetuosa mas incisiva, deixava claro que ela notara o estado dele e não adiantava esconder. Dr. Plinio respondeu com aquela franqueza filial, contrário harmônico da suavidade materna dela:
— Meu bem, realmente estou indisposto, mas detesto medicar-me. Eu não queria contar nada, a fim de evitar que a senhora insistisse comigo para tomar remédios e — pior do que tudo — me recomendasse alguma dieta. Por isso não quero dizer não à senhora, mas sobretudo não quero dizer sim...
A situação era bem difícil para Dona Luciia. Queria ajudar o filho, porém, não desejava contrariá-lo. Mas nem por isso perdeu a calma. Aproximou-se da cama dele e colocou a mão sobre sua fronte para verificar se ele estava com febre.
Nesse pequeno gesto caseiro, já estava dado o primeiro passo para a cura, pois o frescor de suas delicadas mãos transmitia uma benfazeja serenidade, reflexo de sua paz de alma que nenhuma provação conseguia conturbar.
Ela então lhe disse:
— Você está com febre.
Dr. Plinio certamente pensou: “Ela agora vai me pôr o termômetro, e este vai indicar 38°C ou 39°C. Ficará preocupada e vou me meter numa engrenagem que detesto...”
Dito e feito. Com seus pequenos mas ágeis passos, saiu ela do quarto, voltando alguns instantes depois com o fatídico instrumento. Dr. Plinio, para não a contrariar, colocou-o e, passado o tempo necessário, controlado minuciosamente no relógio por Dona Lucilia, o devolveu a sua mãe. Na penumbra do quarto, ela olhou, com certa dificuldade, a temperatura. Porém, em vez de proferir uma sentença, como fazia quando ele era menino, apenas lhe disse:
— Não é nada. O que você quer fazer, meu filho?
Afastada, para alívio dele, a tortura, respondeu:
— Meu bem, eu quero passar o tempo, deitado e quieto.
Dona Lucilia, então, trazendo uma cadeira do quarto dela, colocou-se ao lado da cama do filho e pôs-se a rezar tranquilamente. Ficou assim algumas horas, até chegar a noite. Em certo momento,
Dr. Plinio lhe disse:
— Meu bem, estou com muita fome e a senhora certamente vai querer que eu coma algo.
— Diga o que você quer, que sua mãe lhe traz — foi a pronta resposta dela.
Em seguida, ela mesma saiu a preparar o prato que seu filho pedira. Levou a refeição ao quarto, fez questão de servi-lo e no fim disse:
— De outras vezes não esconda nada a sua mãe, porque ela percebe e não vai lhe impor nada.
A saúde que, a rogos de Nossa Senhora, a Providência dera a Dr. Plinio, era excelente, e assim na manhã seguinte ele já estava bom.
Logo após se levantar, foi ao quarto de Dona Lucilia. Ao vê-lo entrar, lhe perguntou:
— Filhão, como vai?
E a vida de todos os dias recomeçou.

Muitos e muitos anos mais tarde, Dr. Plinio, ao se referir a este pequeno episódio, comentou que só quando sua mãe lhe fez o pedido de nada esconder, percebeu como, para ela, aquele pequeno mal não era uma bagatela. Se a doença se agravasse, Dona Lucilia cuidaria dele com extremos de zelo, até o fim. E — concluiu Dr. Plinio — “é provável que, se eu morresse, ela também morreria. Uma coisa é inteiramente certa: ela preferiria morrer a continuar a viver”.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Um desígnio da Providência que Dona Lucilia intuía

Dona Lucilia parecia discernir algum desígnio da Providência a respeito de seu filho, embora não o compreendesse até o fundo. Certas atitudes dela o exprimiam claramente, como, por exemplo, as orações assíduas que fazia por ele diante do altar dedicado ao Menino Jesus em discussão com os Doutores da Lei no Santuário do Sagrado Coração de Jesus.’ Intuía que a vida de Dr. Plinio seria inteiramente consagrada a um alto ideal, e isso talvez exigisse dele alguns sacrifícios, como, por exemplo, o manter-se solteiro.
Ora, ele ainda não se decidira pelo celibato naquela época. Conheceu então uma moça que lhe pareceu simpática e de bom caráter, cuja família pertencia à mais alta sociedade de São Paulo, e tinha muitas posses. Julgando ser um bom partido, começou a se encontrar e conversar com ela em algumas festas. Depois de certo tempo, resolveu levar adiante seu projeto.
Tratando ambos, uma vez, a respeito de música, afirmou ela não conhecer tais e tais discos. Ele disse que lhos mandaria, e efetivamente o fez tão logo pôde. Ao enviar o presente, anexou um cartão de visita. Pelo correio ela mandou um cartão agradecendo.
Sobre a escrivaninha de Dr. Plinio havia, fixo a uma pla ca de mármore, um baixo-rele vo de metal que representava Nosso Senhor dando a Sagra da Eucaristia a uma criança. A fim de obter de Deus bom andamento para aquela questão, ele colocou atrás da placa de mármore o cartão que recebera. Deixá-lo junto da imagem simbolizava um constante pedido nesse sentido. Mas o incipiente compromisso acabou se desfa zendo e ele até se esqueceu de haver ali deixado o cartão.
Algum tempo depois, ao chegar Dr. Plinio de seu escritório,
Dona Lucilia abordou-o maternalmente, com ar de quem descobrira um segredo ciosamente guardado:
— Então, hein?! Sua mãe ignorava...
Dr. Plinio, não fazendo ideia do que se tratava, respondeu:
— Mas ignorava o quê, meu bem?
— Eu estava rezando por você, à sua mesa, e vi aparecer por detrás daquele mármore uma pontinha de papel. Fiquei curiosa de saber o que era, virei a placa e encontrei o cartão muito amável de Fulana, agradecendo tão gentilmente um presente... Eu vejo bem o que isso quer dizer...
Dr. Plinio então respondeu jocosamente:
— Mas o que tem isso? A senhora não vê todo o mundo casado?
Eu vou me casar um dia...
E riu afetuosamente. Depois disse:
— Ó mamãe, isso já está desfeito, não tem mais nada!
Dr. Plinio notou que um eventual noivado seria uma decepção para ela. Mais tarde, quando resolveu adotar o celibato, não lhe disse nada, porque considerava o assunto muito pessoal. Mas Dona Lucilia acabou percebendo sua resolução e ficou deveras satisfeita.

Outros parentes também intuíram que ele havia renunciado ao casamento para se entregar ao apostolado, e comentavam o fato em conversas de família. Um dia, alguém disse que assim era melhor, pois, pelo seu modo de ser enérgico, ele não daria um bom marido. Dona Lucilia imediatamente respondeu que não concordava com essa afirmação, pois sendo ele tão bom filho, não podia deixar de vir a ser bom esposo. Os parentes, conhecendo já as intransigências de Dona Lucilia, preferiram bater em retirada e não abordar mais o assunto.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Irredutibilidade e doçura


Afora pequenos incidentes esclarecidos, Plinio deu só contentamento a Dona Lucilia durante o curso secundário. De sua parte, continuava ela a dispensar-lhe todos os extremos de carinho de que era capaz. Provara-o mil vezes em circunstâncias diversas, e seu filho tinha experiência disso a cada momento. Eis um pequeno exemplo:
Normalmente Plinio ia e voltava do colégio de bonde. Porém, quando chovia, Dona Lucilia mandava-lhe tomar um táxi, pois tinha receio de que, molhando-se, adoecesse. Plinio, que nunca deixava de seguir a recomendação materna, à saída do colégio já ia convidando alguns amigos para retornarem com ele no veículo.
Outro exemplo de firmeza na educação dos filhos: se por preguiça ele quisesse ficar mais tempo na cama na hora de levantar, Dona Lucilia não toleraria, pois no cumprimento do dever não permitia moleza. Mas a irredutibilidade dela tinha sempre como contrapeso a doçura, que se manifestava por sua atitude compassiva em favor de quem havia-se esforçado para se desincumbir de uma obrigação.
Deliciosos sanduíches
Outra manifestação dessa doçura estava no modo de Dona Lucilia, todos os dias, preparar e com todo o cuidado empacotar sanduíches para seu filho. O conteúdo ia variando agradavelmente a cada dia, constituindo afetuoso incentivo para ele enfrentar a aridez dos estudos ou o ardor das polêmicas. Ora vinham recheados de saborosas fatias de língua, ora de lombo de porco ou filé, queijos ou alface, sem nunca faltar a manteiga. Faziam a cobiça dos outros meninos...
Um dia, Plinio pediu a sua mãe que dali em diante preparasse sempre um pacote de sanduíches a mais, pois ficava mal para ele estar tomando lanche e não poder oferecer nada a um colega com quem estivesse conversando.
Dona Lucilia alegrou-se com a atitude de seu filho e, diante de tão bons sentimentos, prontamente o atendeu. Mal sabia ela o destino real do inocente sanduíche. Plinio utilizava-o sagazmente para atrair a amizade de certos companheiros mais corpulentos, que o protegessem contra as investidas de certos alunos de mau caráter, visto que sua compleição, ainda pouco robusta, não lhe permitiria aguentar um embate físico contra seus primeiros opositores ideológicos.
Sem o saber, Dona Lucilia prestou assim um valioso auxilio às pugnas iniciais de seu filho.

sábado, 27 de abril de 2013

"Por que você há de ser tão ruinzinho assim?"


Embora Dona Lucilia tivesse perfeita noção de como o mundo ia piorando cada vez mais, e das dificuldades que em consequência seus filhos enfrentariam, nunca lhes permitia qualquer falta de objectividade no apreciar as pessoas.
Em certa ocasião, estando ela a conversar com Plinio, fez este um comentário depreciativo a respeito de um desconhecido, carregando demais as tintas em certos defeitos da pessoa em questão. Dona Lucilia, sempre pronta a tomar a defesa dos outros, logo atalhou:
­- Por que você há de ser tão ruinzinho assim, meu filho? Você não vê que não se deve ser desse modo? Tenha pena, afinal!...
Seu tom de voz ameno, era de quem queria dizer: “Desse pobre miserável, diga apenas o que é justo. Você não vê que eu sou benévola para com ele? Afinal, ele é filho de fulana, pessoa que tem muitos lados bons, e a quem eu quero bem por isso”.
A esse propósito, Dr Plinio comentará: “ Era tal a bondade com a qual mamãe corrigia seus filhos, que eu me sentia inteiramente tomado por sua benevolência. Esta contribuía mais para me afastar do perigo de reincidir na falta, do que o próprio temor de uma repetição da censura”.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Suavidade, intransigência, admiração


Durante toda a vida, as características da mãe ideal brilhavam no semblante e no modo de ser de Dona Lucilia. Por meio de longa formação, que constituiu a obra de sua existência terrena, ela preparou seus filhos para corresponderem com generosidade à ação santificante da Igreja de Deus.

Ela lhes ensinava a compreender e amar a fundamental importância da suavidade e da doçura no convívio humano. Quando duas ou mais pessoas têm afinidade entre si, sentem-se mutuamente atraídas por um movimento cheio de benevolência. Esta é a substância da amizade, que não será real e autêntica se estiverem ausentes o amor de Deus, a ternura, a afabilidade, a paciência e a compaixão.

É preciso ter conhecido Dona Lucilia para avaliar o quanto sua alma estava distante de qual quer ressentimento ou desejo de vingança. Nunca tisnou sua bela alma o mais leve movimento de alegria pelo mal ocorrido a alguém. Sua amizade, uma vez concedida, jamais era rompida, e a compaixão para com os sofredores tinha toda a amplitude aconselhada pelo Divino Salvador nos Evangelhos.

Assim, foi a suavidade uma das primeiras virtudes que Dona Lucilia, de forma modelar, procurava transmitir a quem dela se aproximava.

Outro exemplo perfeito, a se destacar no belo jardim de suas qualidades, era o da intransigência face ao mal, que se manifestava sob as mais varia das formas segundo as circunstâncias. Assim, ao corrigir os filhos por alguma falta, como anteriormente se referiu, empenhava-se em lhes mostrar a gravidade do ato praticado, salientando o quanto aquilo ofendia a Deus, de modo a incutir-lhes um profundo horror ao pecado.

De outro lado, por sua fidelidade aos Princípios católicos, rejeitava o espírito de tolerância que ia-se introduzindo na mentalidade de seus contemporâneos. Razão pela qual, estando Dona Lucilia presente numa conversa, nunca deixava passar sem reparos alguma crítica à Santa Igreja ou à Religião. Este não transigir face ao mal foi outro tesouro por ela legado a seus tão queridos filhos.

Além disso, Dona Lucilia tinha o grande mérito de saber admirar os predicados do próximo, sugerindo a Rosée e a Plinio, pelo inconfundível e atraente exemplo que dava, procederem desse modo. Com frequência, o dinamismo de seu contentamento se voltava todo para a exaltação dos talentos alheios. Em contrapartida, não se comparava com ninguém, nunca se referia a algum elogio que tivesse recebido, nem procurava chamar a atenção, mesmo que indiretamente, para alguma qualidade própria ou de seus filhos.

Essa atitude de alma, rara em nossos dias, ela a preservava ciosamente.

Ressaltar os dons por Deus concedidos a outras crianças era uma constante em Dona Lucilia, ainda quando os outros pais fingissem não perceber o valor de Rosée e de Plinio. Se uma criança, dizia algo que revelasse brilho de tudo, bom caráter, ela se tomava de alegria e não deixava de realçar, diante dos adultos, tais dotes.

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)