quinta-feira, 30 de maio de 2013

Um desígnio da Providência que Dona Lucilia intuía

Dona Lucilia parecia discernir algum desígnio da Providência a respeito de seu filho, embora não o compreendesse até o fundo. Certas atitudes dela o exprimiam claramente, como, por exemplo, as orações assíduas que fazia por ele diante do altar dedicado ao Menino Jesus em discussão com os Doutores da Lei no Santuário do Sagrado Coração de Jesus.’ Intuía que a vida de Dr. Plinio seria inteiramente consagrada a um alto ideal, e isso talvez exigisse dele alguns sacrifícios, como, por exemplo, o manter-se solteiro.
Ora, ele ainda não se decidira pelo celibato naquela época. Conheceu então uma moça que lhe pareceu simpática e de bom caráter, cuja família pertencia à mais alta sociedade de São Paulo, e tinha muitas posses. Julgando ser um bom partido, começou a se encontrar e conversar com ela em algumas festas. Depois de certo tempo, resolveu levar adiante seu projeto.
Tratando ambos, uma vez, a respeito de música, afirmou ela não conhecer tais e tais discos. Ele disse que lhos mandaria, e efetivamente o fez tão logo pôde. Ao enviar o presente, anexou um cartão de visita. Pelo correio ela mandou um cartão agradecendo.
Sobre a escrivaninha de Dr. Plinio havia, fixo a uma pla ca de mármore, um baixo-rele vo de metal que representava Nosso Senhor dando a Sagra da Eucaristia a uma criança. A fim de obter de Deus bom andamento para aquela questão, ele colocou atrás da placa de mármore o cartão que recebera. Deixá-lo junto da imagem simbolizava um constante pedido nesse sentido. Mas o incipiente compromisso acabou se desfa zendo e ele até se esqueceu de haver ali deixado o cartão.
Algum tempo depois, ao chegar Dr. Plinio de seu escritório,
Dona Lucilia abordou-o maternalmente, com ar de quem descobrira um segredo ciosamente guardado:
— Então, hein?! Sua mãe ignorava...
Dr. Plinio, não fazendo ideia do que se tratava, respondeu:
— Mas ignorava o quê, meu bem?
— Eu estava rezando por você, à sua mesa, e vi aparecer por detrás daquele mármore uma pontinha de papel. Fiquei curiosa de saber o que era, virei a placa e encontrei o cartão muito amável de Fulana, agradecendo tão gentilmente um presente... Eu vejo bem o que isso quer dizer...
Dr. Plinio então respondeu jocosamente:
— Mas o que tem isso? A senhora não vê todo o mundo casado?
Eu vou me casar um dia...
E riu afetuosamente. Depois disse:
— Ó mamãe, isso já está desfeito, não tem mais nada!
Dr. Plinio notou que um eventual noivado seria uma decepção para ela. Mais tarde, quando resolveu adotar o celibato, não lhe disse nada, porque considerava o assunto muito pessoal. Mas Dona Lucilia acabou percebendo sua resolução e ficou deveras satisfeita.

Outros parentes também intuíram que ele havia renunciado ao casamento para se entregar ao apostolado, e comentavam o fato em conversas de família. Um dia, alguém disse que assim era melhor, pois, pelo seu modo de ser enérgico, ele não daria um bom marido. Dona Lucilia imediatamente respondeu que não concordava com essa afirmação, pois sendo ele tão bom filho, não podia deixar de vir a ser bom esposo. Os parentes, conhecendo já as intransigências de Dona Lucilia, preferiram bater em retirada e não abordar mais o assunto.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Irredutibilidade e doçura


Afora pequenos incidentes esclarecidos, Plinio deu só contentamento a Dona Lucilia durante o curso secundário. De sua parte, continuava ela a dispensar-lhe todos os extremos de carinho de que era capaz. Provara-o mil vezes em circunstâncias diversas, e seu filho tinha experiência disso a cada momento. Eis um pequeno exemplo:
Normalmente Plinio ia e voltava do colégio de bonde. Porém, quando chovia, Dona Lucilia mandava-lhe tomar um táxi, pois tinha receio de que, molhando-se, adoecesse. Plinio, que nunca deixava de seguir a recomendação materna, à saída do colégio já ia convidando alguns amigos para retornarem com ele no veículo.
Outro exemplo de firmeza na educação dos filhos: se por preguiça ele quisesse ficar mais tempo na cama na hora de levantar, Dona Lucilia não toleraria, pois no cumprimento do dever não permitia moleza. Mas a irredutibilidade dela tinha sempre como contrapeso a doçura, que se manifestava por sua atitude compassiva em favor de quem havia-se esforçado para se desincumbir de uma obrigação.
Deliciosos sanduíches
Outra manifestação dessa doçura estava no modo de Dona Lucilia, todos os dias, preparar e com todo o cuidado empacotar sanduíches para seu filho. O conteúdo ia variando agradavelmente a cada dia, constituindo afetuoso incentivo para ele enfrentar a aridez dos estudos ou o ardor das polêmicas. Ora vinham recheados de saborosas fatias de língua, ora de lombo de porco ou filé, queijos ou alface, sem nunca faltar a manteiga. Faziam a cobiça dos outros meninos...
Um dia, Plinio pediu a sua mãe que dali em diante preparasse sempre um pacote de sanduíches a mais, pois ficava mal para ele estar tomando lanche e não poder oferecer nada a um colega com quem estivesse conversando.
Dona Lucilia alegrou-se com a atitude de seu filho e, diante de tão bons sentimentos, prontamente o atendeu. Mal sabia ela o destino real do inocente sanduíche. Plinio utilizava-o sagazmente para atrair a amizade de certos companheiros mais corpulentos, que o protegessem contra as investidas de certos alunos de mau caráter, visto que sua compleição, ainda pouco robusta, não lhe permitiria aguentar um embate físico contra seus primeiros opositores ideológicos.
Sem o saber, Dona Lucilia prestou assim um valioso auxilio às pugnas iniciais de seu filho.

sábado, 27 de abril de 2013

"Por que você há de ser tão ruinzinho assim?"


Embora Dona Lucilia tivesse perfeita noção de como o mundo ia piorando cada vez mais, e das dificuldades que em consequência seus filhos enfrentariam, nunca lhes permitia qualquer falta de objectividade no apreciar as pessoas.
Em certa ocasião, estando ela a conversar com Plinio, fez este um comentário depreciativo a respeito de um desconhecido, carregando demais as tintas em certos defeitos da pessoa em questão. Dona Lucilia, sempre pronta a tomar a defesa dos outros, logo atalhou:
­- Por que você há de ser tão ruinzinho assim, meu filho? Você não vê que não se deve ser desse modo? Tenha pena, afinal!...
Seu tom de voz ameno, era de quem queria dizer: “Desse pobre miserável, diga apenas o que é justo. Você não vê que eu sou benévola para com ele? Afinal, ele é filho de fulana, pessoa que tem muitos lados bons, e a quem eu quero bem por isso”.
A esse propósito, Dr Plinio comentará: “ Era tal a bondade com a qual mamãe corrigia seus filhos, que eu me sentia inteiramente tomado por sua benevolência. Esta contribuía mais para me afastar do perigo de reincidir na falta, do que o próprio temor de uma repetição da censura”.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Emulação na virtude para formar os filhos

Acredito ser oportuno ponderar que uma das atitudes que mais aflige o homem é a inveja. E esta nasce das comparações.
A experiência na vida espiritual nos mostra que o costume de nos compararmos com os outros é um dos erros mais funestos que se pode cometer. Fazendo-o, logo nascem a inveja, as feridas do orgulho, as más ambições, e uma cascata de desejos perniciosos que, não raro, darão entrada às tentações contra a virtude da pureza.
Ora, essa forma de comparação é algo que nunca vi em Dª Lucilia, fosse em relação a ela, fosse em relação aos filhos. A única ocasião em que ela se permitia de nos comparar com outros era quando nos passava alguma repreensão. Se havia uma criança que procedia melhor do que nós em determinado ponto, ela então a apontava como exemplo e dizia: “Veja tal pessoa!”
Tratava-se, porém, de uma boa e compreensível emulação na virtude, própria a nos educar. A não ser essa atitude formativa, ela jamais se comparava, nem a nós, com ninguém.
Era uma disposição de espírito em tudo coerente com a serena e invariável retidão de sua alma.
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência em 13/6/1982

sábado, 6 de abril de 2013

Crescente e mútua afeição


Temos visto a solicitude materna de Dª Lucilia para com o jovem Plinio, expressa de modo especial nas cartas dessa boa mãe. É notável o acerto de seus conselhos e orientações, numa ocasião em que seu filho já ia trilhando com seus próprios passos os caminhos da vida.

Sob a proteção do Sagrado Coração de Jesus

Além de estar cursando a Faculdade de Direito, Plinio tinha começado a fazer a “linha de tiro” (“EM52”) — o serviço militar. Em carta enviada a ele do Paraná, onde se encontrava com sua filha, Dª Lucilia manifesta com afeto o desejo de o ver fardado, pergunta por seus estudos e saúde, e reitera sua firme confiança de que o Sagrado Coração de Jesus nunca deixaria de proteger o “filho querido de seu coração”.

Cambará, 23-5-929
Filho querido!

Com tantas saudades tuas, tão desejosa de uma prosinha contigo, e no entanto há dias que não te escrevo, porque tive uma forte reboldosa de fígado que me prendeu alguns dias na cama, onde fui tratada com um carinho e dedicação por tua irmãzinha, que me fizeram bem ao coração! Estou ainda com o fígado muito inchado, e sinto-me abatida, também em conseqüência da longa e forte dieta em que me acho.

24-5-929
Interrompi ontem esta, porque Rosée teve três visitas ontem até à noite, e, coisa extraordinária que tenho a te contar, fui ontem ao circo, que é perto de casa, onde assisti meio espetáculo, e fui e voltei de automóvel muito devagar, e lá dei umas boas risadas. Estou hoje bem melhor, mas ainda com medo da volta! A Sorocabana pula, corcoveia, que até dá impressão de que “sem se querer”, está-se a amansar um cavalo bravo!

Enviei-te uma longa carta registrada, em resposta àquela em que me falavas no jantar do Clube Comercial, e pelo que vejo, não a recebeste, o que me aborreceu muito. Estou ansiosa por ver-te fardado.... e “entusiasmado” pelas marchas e contramarchas. Tens estudado muito? Há quatro dias que não tenho cartas daí, será possível que estejas de novo com alguma gripe na garganta? Deus permita que não! Quero encontrar-te bem forte, e bonitão.

Agradou-me muito, imenso, saber que quando tens saudades minhas, rezas diante do meu oratório! Eu também rezo tanto por ti, e o Sagrado Coração de Jesus, nosso amor, será teu salvaguarda e protetor! filho querido de meu coração.

Recebe com minha bênção, muitos e muitos beijos de tua mamãe muito saudosa e extremosa,

Lucilia

“Insisto sobre a tua vinda quanto antes”

De regresso a São Paulo, Dª Lucilia pouco tempo permaneceu na capital paulista, pois em julho foi com Dª Gabriela a Santos, onde ficou até o fim do mês.

A despretensão, o desejo de fazer o bem e de conviver com seu filho são uma constante nas cartas por ela escritas.

Santos, 16-7-929
Filho querido!

Tua tia Zili devia ter-te entregue ontem uma carta minha, e esqueceu-se de fazêlo, devido à pressa em que andou por aí, e preocupação com o negócio da casa.

Insisto sobre a tua vinda quanto antes, pois devemos regressar no dia trinta, se Deus quiser, e agora é uma boa oportunidade para que tenhas repouso e mudança de clima, e em minha companhia, o que é mais difícil. Não é preciso que esperes que a tal moça tome conta do emprego, para que possas sair, pois não tens nenhum compromisso para isso, e mesmo se fosse necessária tua presença, serias chamado pelo telefone. Venha logo. Teu pai deve chegar aí amanhã cedo, e vir à tarde.

Beija-te e abençoa-te muito tua mamãe extremosa,

Lucilia.

Lembranças à Frau, e pessoal de casa.

Os estudos de Direito muito absorvem ao filho e ele demora para se pôr a caminho. Como as cartas rareiam, ou pelo pouco tempo de que dispõe ele, ou porque o correio não as entrega, Dª Lucilia se queixa por não receber notícias. Com palavras cheias de carinho, ele se defende da “infundada” reclamação de sua mãe. A missiva, num tom ligeiramente jocoso, dá-nos bem idéia de como o caráter tradicional e elevado do trato de Dr. Plinio com ela comportava o leve gracejo, como saboroso tempero.

Meu Queridíssimo amorzinho

Recebi hoje com muitas saudades a sua carta, porém ao sentimento intenso de saudades se superpôs outro, o de ressentimento. Será possível, Mãezinha, que a Senhora pense que não sinto saudades suas pelo simples fato de lhe ter escrito uma carta que não foi nem recebida e nem respondida? Será possível que a Senhora pense que se não lhe escrevi mais é por não ter tempo pois que continuamente me divirto? É bom, meu amor, que a Senhora tome em consideração o fato de eu só ter estudado e nada mais, e que a meus estudos que de per si já eram muito apertados (fazem-me levantar às 6 até nos domingos para estudar e obter boas notas que tanto a alegram) veio a se acrescentar o de filosofia muito mais intensificado por causa do Supremo Tribunal Federal (...) e a vasta Literatura internacional. Dito isto que parece-me mais que suficiente não só para neutralizar sua opinião a meu respeito como para a fazer voltar a idéias contrárias, quero informar-me de sua saúde e de seu “figadório”, pois que já tratamos de seu coração injustamente magoado.

Como vai vovó? A casa sem as Senhoras é triste como um túmulo e quem salva a situação é Rosée. Quando é que as senhoras voltam? (...)
É escusado dizer que esta carta é para vovó e para a Senhora pois que as duas em meu coração estão no mesmo pé.

Abraço e beijo-as com carinho efusivo e peço-lhes a bênção.

Plinio

Como é fácil notar, durante as longas ausências de Dª Lucilia, Plinio procurava minorar-lhe as saudades, escrevendo-lhe a respeito do seu dia-a-dia, cada vez mais tomado não só pelos estudos, mas também por seu apostolado nas Congregações Marianas.

Crescente benquerença

A partir de 1928, Plinio se entregou por completo às atividades do Movimento Católico. Em 1929 fundou a Ação Universitária Católica, AUC, que reunia estudantes católicos de diversas escolas superiores.

Dª Lucilia aceitou, nessa ocasião, o sacrifício de algo extremamente precioso: boa parte do inefável convívio com seu filho. Nos anos seguintes, com o desenvolvimento da atuação dele, esse afastamento não faria senão aumentar. Sem embargo disso, por uma interessante troca de cartas entre mãe e filho, em julho de 1930, pode-se entrever o quanto o inevitável rareamento dos encontros entre ambos só contribuiu para o crescimento da mútua benquerença.

Nesse mês, Plinio viajou com Mons. Pedrosa, de automóvel, ao Rio de Janeiro, a fim de travar contato com líderes católicos da capital federal. De lá escreveu duas afetuosas cartas a Dª Lucilia. 

Na primeira, datada do dia 15, narra todas as peripécias do percurso.

De passagem pelo Santuário de Aparecida, rezou por sua mãe, acendeu uma vela por Dª Gabriela — cuja saúde exigia especiais cuidados devido à sua avançada idade — e outra pelos familiares restantes. Além de contar todas as visitas que fez a parentes e conhecidos, elogia o esplêndido tratamento dispensado a ele por Mons. Pedrosa. Uma única coisa lamenta: a ausência de sua “queridíssima mãezinha”, pois — diz ele — “a todos os numerosos prazeres que Deus me tem dispensado nesta viagem, está constantemente anexo o desgosto de não ter sua companhia para melhor os apreciar”. E mais adiante reafirma: “Como já lhe disse, a única coisa que empana minha alegria é a saudade de minha Mãezinha. Quanto ao mais, minha alegria é completa. Isto é uma delícia”.

Antes de terminar, relata nestes termos os passeios que fez na “Cidade Maravilhosa”:

Visitei, hoje, as Igrejas de Candelária (portas maravilhosas, o resto rico e bonito), a belíssima Catedral (estilo barroco de incomparável majestade) e a Igreja de São Bento, a coisa mais deslumbrante que jamais tenha visto. É tão bonita que seria inútil e ridículo descrevê-la.

Fui, depois, aos jesuítas, meus caros jesuítas tão amigos de Tio Adolpho. Encontrei lá, entre outros, o Pe. du Dréneuf, que, com os demais, muito me festejou.

Jantei com Monsenhor e o José Pedrosa, otimamente, no Sul América, isto é, Rotisserie. Estou chegando da Cinelândia. Procurarei amanhã pela parentela.

Até logo, meu queridíssimo benzinho. Aceite milhares de beijos do filho que muitíssimo a respeita e quer, e lhe pede a bênção

Pigeon

N.B. Descobri aqui uma rua Corrêa de Oliveira, importante travessa da R. do Catete. Subiu-me pigarro à garganta...

Dª Lucilia deve ter ficado preocupada enquanto não teve notícias de seu filho, pois, segundo a concepção dos antigos, uma viagem era sempre perigosa, cheia de surpresas. Apenas recebida a esperada carta, respondeu a ela. Desde as primeiras linhas vêm à tona os sentimentos de gratidão que sempre caracterizam as almas nobres.

São Paulo, 17-7-1930
Filho querido de meu coração!

Com que prazer, com que satisfação, li e reli tua carta tão ansiosamente esperada! Cheia de reconhecimento, em uma oração já agradeci a Deus pelas boas notícias de que é portadora. Realmente, não sei como agradecer ao nosso bom Monsenhor todo o carinho e desvelo que te tem dispensado, e espero em Deus, meu filho, que saberemos provar-lhe que lhe somos gratos por tudo que por nós tem feito. Vê se lhe podes ser de alguma utilidade, e não percas as ocasiões de te mostrares grato, e afetuoso para com ele.

Agradeço-te imenso as orações feitas por minha intenção no Santuário de Nossa Senhora da Aparecida, e espero que tenhas alcançado por Seu intermédio, muitas graças e bênçãos. Tenho achado uma falta enorme em ti, querido, mas mesmo assim, me alegro de que tenhas podido fazer este passeio, e estejas apreciando devidamente este belo Rio, e sinto mesmo, que não possas te demorar mais uns dois dias.

Temos tido muita chuva, e um frio intenso, e sei que aí também a temperatura caiu, e tem chovido, e sinto que não guardes uma impressão do Rio “verde e azul” como ele se mostra quando o tempo está firme.

Tenho, como sempre, rezado muito por ti, mas mesmo assim, te recomendo mais uma vez, muito juízo, meu “pinbinsh”.

Recomenda-me muito a Monsenhor Pedrosa e ao Sr. seu irmão. Lembranças de todos de casa.

Com minhas bênçãos, envio-te saudosa, muitos beijos e abraços. De tua mamãe extremosa,

Lucilia.

No mesmo dia 17, Plinio postava uma segunda carta para sua mãe, contando-lhe outras impressões do Rio de Janeiro:

Queridíssima Mãezinha [Passei] um dia cheio das mais agradáveis impressões.

Fui de manhã à Biblioteca Nacional, onde pude ver uma organização admirável, e um conjunto de livros antigos, verdadeiramente imponentes. Admirei, entre outras preciosidades bibliográficas, a primeira edição dos Luzíadas e uma Bíblia de 1480 ou 90 + ou -. Depois de um almoço ótimo no Heyme, fui à Gruta da Imprensa, de auto. É a mais bela coisa que tenha visto, em matéria de panorama. Fui, depois, a uma longa, longuíssima, mas agradabilíssima reunião de católicos ilustres. Jantei otimamente, e fui visitar o Primo Pe. Luiz. Encontrei-o muito bem, mas avelhantado. Muito me agradou, etc.

Dei, depois, um giro na Av. Central e estou de volta agora, 12 h + ou -, depois de um sorvete de damasco em uma confeitaria com cadeiras na rua.

Como vai minha mãezinha, de quem estou tão saudoso?

Lembranças a todos e 10000000000 de beijos do filho que, com o mais carinhoso respeito lhe pede a bênção.

Pigeon

Quando Dr. Plinio fez essa viagem, o Brasil vivia os últimos meses da “República Velha”. Um golpe de Estado, que estava sendo preparado, instauraria uma nova ordem de coisas no País.

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dª Lucilia”, de Mons João S. Clá Dias)

quarta-feira, 27 de março de 2013

Inocência e maturidade


Dona Lucilia  sabia,  como  poucos, entreter uma criança.  Formada  segundo  padrões dos antigos tempos, ela conhecia o meio de preservar a candura na alma dos pequenos, não porém  mantendo-os  na  infantilidade,  mas  educando-os  numa  inocência  amadurecedora.

A vida dos adultos apresentada com elevação de vistas

Como ela procedia?

Falava  às  crianças  sobre  a  maneira de os adultos conduzirem sua  existência, suas inclinações, as lutas,  os  dramas  que  enfrentavam,  etc.,  apresentando  tudo  com  uma  tão  alta  elevação  de  horizontes,  com tanto ideal e tanta seriedade,  que incutia no espírito da criança  os necessários elementos para que  ela maturasse.

Eu mesmo, filho dela, sentia bem  como esse modo de proceder era o  que deveria ser adotado, e desfrutava um entretenimento único nos fatos e histórias descritos por mamãe,  porque tudo — até os contos de fada que nos narrava — era orientado  na direção do nosso amadurecimento. Acontecia-me de vez ou outra escapar dos brinquedos com minha irmã e meus primos e ir procurá-la pela casa, a fim de pedir que me desfiasse um de seus contos. Ela ficava muito comprazida com minha solicitação, e eu, super-comprazido com  seu acolhimento.

Cumpre dizer que essa forma de nos educar me preparou para o choque inevitável que um menino, saído de seu ambiente familiar — sobretudo se católico e semeado de valores morais como era o meu —, teria com o mundo. Eu caminhava para esse confronto com os olhos postos naqueles ideais que mamãe soubera nutrir em minha alma, e para os  quais eu deveria tender.

Uma inocência unida à seriedade

É preciso dizer, também, que a seriedade fazia parte dessa inocência, ao mesmo tempo manifestada e amparada  por  mamãe.  Considerando fotografias de Dª Lucilia ainda moça,  por  exemplo,  percebe-se  como  ela era séria em toda a medida e elevação possíveis e convenientes à sua  idade. Essa atitude decorria de uma escola de alma que ensinava como  prolongar a inocência dentro da maturidade, fazendo-nos compreender  como a inocência não é apenas um  estado  de  espírito  de  uma  criança,  mas um programa de vida que, em  última análise, leva o homem a cumprir o primeiro mandamento da Lei  de Deus.

Fantasias de Carnaval que estimulavam a inocência

É interessante notar que os dias de Carnaval ofereciam a mamãe uma oportunidade especial de estimular em nós a inocência. Todas as crianças da família se fantasiavam, vestidas pelos  pais. E eu me deixava trajar como Dª  Lucilia quisesse, pois a vontade dela  era indiscutível para mim. Agora, um detalhe: as fantasias que ela arranjava sempre tendiam ao sério, ao contrário  de outras que exploravam o burlesco,  impelindo a criança a tomar atitudes  descompostas e apalhaçadas.

Lembro-me de certo ano em que ela, nas suas delicadas concepções,  planejou para mim uma fantasia de  marajá.  Ignorando as características do personagem que eu iria adotar, logo quis saber do que se tratava, e mamãe então me descreveu as belezas da Índia, com seus lindos palácios, suas riquezas e mistérios.

— Você, portanto, vai se fantasiar de marajá! — disse-me ela, num tom  que era um convite longínquo para a  criança encarnar e viver o papel de  soberano hindu por alguns dias.

Recordo que minha fantasia comportava um turbante feito de várias sedas, ornado de uma bonita aigrette que acompanhava os meneios da cabeça  e  me  dava  a  impressão  de  uma  espécie  de  sismógrafo  muito  nobre da alma humana. Além disso, era presa ao turbante por uma grande pedra “preciosa”, e esse pormenor de uma “ joia” incrustada na testa, da qual se desprendia uma elegante pluma, parecia mais ou menos a profundidade do pensamento  da qual se destacava uma construção alígera...

O  resto  da  roupa  era  igualmente de seda, guarnecida de jóias falsas,  anéis,  colares,  etc.  Os  sapatos,  com as pontas voltadas para cima e  revestidos de cetim lilás, pareceram-me  particularmente  graciosos,  pois  achei muito feliz a ideia de calçados que  se  erguiam  da  vulgaridade  do  chão, como se o seu usuário dissesse: “Eu toco no solo, mas o melhor  de mim mesmo se faz alheio à poeira. Por isso viro a ponta para cima.”

Assim como com as fantasias de outros Carnavais, essa do marajá era preparada no clima criado por Dª Lucilia, falando-me com seriedade acerca do personagem que eu iria representar, e imaginando uma vestimenta que, conforme os padrões e as posses dela, deveria ficar seriamente bonita. Quer dizer, com inocência e seriedade, ela tinha empenho em que eu me apresentasse bem.   

Plinio Correa de Oliveira Extraído de conferência em 12/6/1982

sexta-feira, 8 de março de 2013

Carinho brasileiro evitando castigos...


O entrelaçamento entre justiça e compaixão deve ser muito matizado, pois a compaixão tende a dominar a própria justiça. Narrando um fato ilustrativo da bondade dos antigos tempos, Dr. Plinio recorda o “carinho brasileiro” de Dona Lucilia ao evitar um castigo que talvez entre outros povos não fosse possível impedir...

No português falado no Brasil, a bondade é uma disposição de alma emotiva. Essa emocionalidade provém de um sentimento de afeto e de enternecimento, diante de alguma pessoa que sofra de qualquer carência, a qual, portanto, se encontra num certo estado de necessidade.

A bondade é, nesse sentido, uma virtude pela qual, vendo­-se outro sofrer por carência, participa-­se desta dor. Por causa disso, a pessoa bondosa quer ajudar a remediar a carência do outro para, antes de tudo, fazer-­lhe o bem e aliviar­-se da tristeza que lhe causa o mal sofrido pelo outro.

Na apreciação brasileira da bondade, a primazia ou sua causa é esse sentimento de compaixão do qual ela decorre. E Dona Lucilia era muitíssimo boa, também — e talvez principalmente — nesse sentido da palavra.

O entrelaçamento entre a justiça e a compaixão

Naturalmente isso mudou, e a bondade não tem mais esse sentido para o homem da rua.

Sobretudo no tempo de mamãe, e em boa medida também quando eu era jovem, a justiça eminentemente derivava de um raciocínio e de um silogismo. Um silogismo imperativo, a cujos ditames é preciso obedecer: considerando isso, aquilo e aquilo outro, fulano foi objeto de uma injustiça.

Ainda que se tenha pena — isso é muito característico — de quem praticou a injustiça, deve­-se exigir que ele reponha a justiça ferida. Mas, às vezes, essa exigência é feita com uma verdadeira violência sobre si.

Suponhamos que uma criança de uns dez anos tenha proferido uma calúnia grave contra alguém. Sua mãe chama-­a e diz:

— Você falou isso de fulano?

— Falei.

— Você sabe que isso se chama calúnia?

— Nháááamm!!! (põe­-se a chorar).

— Não tem choro. Você agora, diante de várias pessoas, vai pedir publicamente desculpas ao caluniado (a criança chora ainda mais).

O caluniado é um homem forte, possante, já maduro, e não pode ser atingido por uma caluniazinha de uma criança; mas a justiça é a justiça, e a criança é obrigada a retificar. Exige­se isso dela, antes de tudo pela justiça e, em segundo lugar, para que, sentindo a dor da reparação, não seja caluniadora.

Nesse caso a mãe tem grande pena da criança, porque é débil, está sofrendo, mas a obriga a reparar em nome da justiça.

Paradigma de pessoa bondosa com relação às carentes

Mamãe, por pura bondade, para minorar o sofrimento do próximo, fazia sacrifícios com tanto afeto e gosto, que nem se percebia estar sendo quase injusta consigo mesma.
Por algum lado isso é eminentemente lógico: tendo ela tanta compaixão, como consequência ela se sacrificava.

A palavra “compaixão” provém do latim. Passio quer dizer sofrimento: Paixão de Nosso Senhor... Cum passio significa compaixão. É compassivo aquele que é sensível ao sofrimento dos outros.
Esse sentimento, pelo que tenho podido observar, era naquele tempo, por assim dizer, pré­natal: a criança já no claustro materno começava a adquirir tendências para tal sentimento. Não creio ser isto verdade, mas é a impressão que se tinha.

E o modo de toda a família se tratar era esse, estendendo­-se facilmente aos primos, aos parentes afins — pessoas casadas com parentes — e assim por diante. Isso fazia com que houvesse grande união nas famílias e muita flexibilidade. Ninguém iria lembrar a algum parente: “Olha, em tal ocasião eu te fiz tal favor.” Prestavam-­se obséquios de modo desinteressado.

Meus tios, irmãos e irmãs de mamãe, intrometiam-­se muito na minha educação e na de minha irmã. E minha mãe também se preocupava com a educação de seus sobrinhos. Isso se fazia por afeto e provinha do sentimento de que todos eram irmãos.

Apuros de Dr. Plinio num exame de Aritmética

Eis um fato característico, ocorrido quando eu tinha 13, 14 anos de idade:

Todos os alunos dos colégios particulares, no final do ano letivo, precisavam fazer exames num estabelecimento do Governo, para averiguar se aqueles estavam facilitando as aprovações a fim de ter mais alunos.

Sempre fui fraco em Aritmética. Certa vez tive que fazer exame dessa matéria num estabelecimento do Governo, num ambiente mais ou menos pomposo: os examinadores em geral eram homens de certa posse, ocupando importantes cargos políticos, tais como deputados, senadores.

Passei de manhã pela casa de um irmão de mamãe para encontrar­me com um filho dele e irmos juntos para o exame. Meu tio estava tomando o café da manhã e lendo um jornal. Entrei e disse­lhe:

— Bom dia, titio!

Ele me olhou e fez uma brincadeira — não amarga, mas um simples gracejo — em razão do visível medo com que eu estava de fazer o exame. Não entendi o gracejo e perguntei ao Reizinho1 qual seu significado. Tendo me explicado, eu ri e nos dirigimos para o local do exame.

Lá chegando, notei que na mesma sala havia duas turmas prestando exames sobre matérias diferentes: uma de Aritmética — na qual eu estava — e outra de Trigonometria.

Então o examinador disse com muita pompa: “Os examinandos de Aritmética levantem o braço. Vou escrever na lousa as questões de Aritmética.”

E anotou três exercícios para se fazer cálculos: “Tal número, multiplicado por tanto, qual o resultado?” Coisas dessa profundidade...

Depois, no outro lado da lousa, escreveu os problemas de Trigonometria, muito complicados, os quais não entendi, nem me esforcei para compreender, pois nada tinham a ver comigo.

E dediquei-­me ao meu exame de Aritmética com tanto empenho que errei tudo! Quer dizer, eu estava nervoso, pois ainda não tinha aprendido a não torcer. O pior foi que, quando tirei a prova para saber se os resultados estavam certos, verifiquei estarem todos errados. Tentei refazer, mas eu não conseguia acertar. Então, pensei o seguinte:

“Já que não resolvo os problemas de Aritmética, vou solucionar os de Trigonometria.”

Copiei­-os no papel e tentei resolvê­-los. Pode­-se imaginar o que sucedeu... E, por absurdo, fui o primeiro das turmas a terminar a prova. Saí e fui passear no Jardim da Luz, próximo à Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora que, naquela época, era um bairro de famílias, à espera do irmão do Reizinho, que fazia exame na mesma turma que eu. Tínhamos combinado encontrarmo-­nos no Jardim da Luz. Quando ele apareceu, perguntei-­lhe:

— Entreguei minha prova para os professores. Qual foi a reação deles?

— Olhe, sua situação não está boa...

Eu tinha alguma consciência de que tinha errado, mas uma esperança de ter acertado.

Então eu disse:

— Mas como não está boa?!

— Não sei o que você escreveu, mas quando você saiu, tendo sido o primeiro a entregar a prova — a banca de examinadores era constituída por um presidente e dois assistentes —, o presidente deu-­a a um dos professores. Este olhou­-a um instante, riu, e pôs uma nota, que não sei qual tenha sido, e passou-­a para o outro. Este fez a mesma coisa. Depois o próprio presidente deu a nota. Todos riram. E riram bastante.

Pensei comigo mesmo: “Estou colocado numa situação meio difícil...”

E resolvi esperar para ver qual era a nota, tendo ainda alguma es­perança de ser aprovado. Resultado: “Zero!”

Voltamos, então, para casa. Meu primo chegou antes à residência dele, que ficava mais próxima do local do exame.

O carinho brasileiro evitando um castigo que talvez em outros povos se desse

Agora, veremos a compaixão que existia naquele tempo. É um fatinho bem característico.

Mamãe andava mal de saúde. O irmão dela mandou vir um automóvel, foi ao ginásio e pediu para falar com os professores. Disseram-­lhe não ser possível porque era contra a lei receber pessoas enquanto estavam corrigindo provas. Naturalmente, porque fariam um pedido, etc. Meu tio, que era um homem muito mandão, deu ordem para abrir a sala; o bedel ficou sem jeito, abriu a porta e ele entrou.

— Oh, Doutor! O que há?

Ele disse:

— Vim aqui para ver a prova de um sobrinho. Já sei que não está boa, mas a mãe dele é minha irmã e está com o estado de saúde muito delicado. Se ela souber que seu filho teve uma nota ruim, isso pode fazer mal para sua saúde.

— Como chama seu sobrinho?

— Plinio Corrêa de Oliveira.

Eles tomaram o maço das provas, retiraram a minha e disseram, dando risada:

— Veja se o senhor conseguiria dar outra nota que não essa.

Meu tio leu e verificou que não se justificava qualquer reclamação. Agradeceu a atenção e retirou­se.

Depois comunicaram a mamãe a nota. Ela ficou muito chocada, pois considerava isso uma vergonha, e imediatamente pensava no futuro: “O que vai dar esse rapaz? Se nessa idade ele faz uma besteira dessas com a Aritmética, quando tiver trinta anos como poderá dirigir negócios, um escritório de Advocacia... Como uma cabeça dessas vai fazer qualquer coisa? Estou colocada diante de um abismo.”

O abismo era eu.

Eu esperava um pito e uma ameaça de ser transferido para o Colégio Caraça, em Minas Gerais. Mas ela percebeu ter havido de minha parte um estado nervoso qualquer que explicava isso, porque observara eu estudar bastante. Então, vendo minha boa vontade, minha retidão, a atitude dela foi inteiramente diferente daquela tomada quando eu colocara no boletim nota dez. Ela falou um pouquinho, e depois acrescentou:

— À tarde, vá com seu primo tomar um sorvete na cidade, para se distrair um pouco.

Eu caí das nuvens.

Depois veio a festa de meu aniversário, inteiramente normal, sem nenhuma sanção econômica ou de qualquer outra natureza. No Natal, os presentes foram idênticos, quer dizer, valendo a mesma coisa que nos anos anteriores.

E ela quase não me apertava para estudar. Às vezes entrava na minha sala e dizia:

— Filhão, está muito cacete o estudo que você está fazendo?

Fiz depois o exame e passei com nota bem regular. Nunca tive jeito para Matemática. Ela não elogiou, mas me agradou muito, disse que estava contente, etc. E assim tudo transcorreu em boa paz.

É o carinho brasileiro evitando um castigo que em outros povos talvez se desse. E feito assim aproximou­-me ainda mais dela.

Eu poderia contar muitos outros fatos ilustrativos da compaixão de mamãe.

Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência de 20/9/1994