sábado, 21 de fevereiro de 2015

Exemplo de amor materno

O modo de ser, as atitudes, a maneira de falar de Dona Lucilia causaram profunda e duradoura impressão em seu filho. Durante toda a sua vida, Dr. Plinio se recordará de episódios e situações que o deixaram encantado. Acompanhemo-lo em algumas dessas recordações.
Entre Dona Lucilia e mim não havia esse relacionamento mãe-filho tão comum e que poderia ser expresso com um exemplo: ela aproximar-se de mim e dizer-me alguma vez: “Meu filho você deve estar sofrendo com tal coisa...”; e eu responder: “Mas, meu bem! a senhora também...” Isso absolutamente nunca acontecia. Havia de parte a parte uma espécie de pudor nesse ponto.
Presença suave, cerimoniosa e comunicativa
A presença dela me era muitíssimo suave. Eu percebia como mamãe aguentava suas dificuldades, e isto me ajudava a entender o que eu devia fazer para suportar as minhas. Mas julgo que a maior parte dos meus revezes, ela não percebeu, pois estavam inteiramente fora do ângulo de visão dela. Sua vida era de tal maneira segundo outro estilo, que mamãe não tinha possibilidade de compreender certos problemas com os quais me defrontava.
Ela me tratava com carinho, porém sempre mantendo certa distância cerimoniosa. Era um modo de ser próprio à sua família, pelo qual as pessoas se comunicavam muito entre si, sem falar.
Devoção a Nossa Senhora
Na família dela havia devoção a Nossa Senhora da Penha, cujo santuário em São Paulo era considerado como uma fonte de milagres. Em casos de aflição ou coisas semelhantes, era muito frequente as pessoas exclamarem “Nossa Senhora da Penha!” Até quando eu era mocinho, faziam-se promessas de ir a pé até a Penha, para se conseguir algum benefício. Eu mesmo fiz uma promessa de caminhar até lá.
Mamãe foi em moça, já casada, mais de uma vez à Penha. Ela tinha muita devoção a Nossa Senhora, que foi se tornando muito mais saliente à medida em que eu, gota a gota, fui-lhe transmitindo a doutrina da Mediação Universal de Nossa Senhora e considerações sobre Ela.
Falei-lhe sobre o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, a consagração a Nossa Senhora, mas não a respeito da escravidão, porque ela não entenderia. A diferença de meridiano entre a geração dela e a seguinte é enorme!

Para mamãe, a escravidão se referia, primariamente, à que sofreram os negros e contra a qual o pai dela lutou, porque era um abolicionista; o Dr. João Alfredo, tio de meu pai, trabalhou nesse sentido; e a Princesa Isabel, uma eminente personagem, aboliu a escravidão no Brasil.
Continua no próximo post

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Formando seus filhos no seio da Igreja

Em relação a seus filhos, Dona Lucilia exercera de modo exemplar seu papel de educadora, dando à religião uma importância primordial. Assim, narra Dr. Plinio, alguns aspectos da formação religiosa que recebeu de sua mãe.
Quando ainda muito novos, minha irmã e eu fomos instruídos no Catecismo por Dona Lucilia.  A fim de nos preparar para a primeira comunhão, ela nos contava a História Sagrada.
Doçura penetrante de carinho
Lembro-me  que,  durante  esta  preparação,  mamãe  falava especialmente da doçura de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora. Ela nos apresentava esta doçura penetrante de carinho, de afabilidade, de bondade.
Sem dizer explicitamente,  quando  ela  nos falava da bondade d’Ele, dava- nos a  idéia de uma bondade majestosa, a qual supera qualquer majestade terrena.
Em  suas  narrações,  tudo  quanto  Nosso Senhor fazia era de modo sereno, cheio  de significado, medido com uma sabedoria  que transcendia, de longe, qualquer sabedoria criada. Ora ela acentuava a bondade, ora  a superioridade absoluta d’Ele. Porém sempre com uma nota — a qual, aliás, corresponde ao Evangelho — de tristeza. A Paixão nunca estava ausente de suas narrações.
Uma Terra Santa lendária
Ela imaginava a Terra Santa um pouco  lendariamente. Para ela, deserto da Palestina, por exemplo, era como o Saara, quando, na verdade, os desertos da Terra Santa,  senão raras vezes, tem a poesia deste outro. Lembro-me dela pronunciando certos  nomes como “Mar de Tiberíades”. Quando ela dizia “Mar de Tiberíades” eu tinha  a impressão de estar vendo as ondas se formando naquele mar.
Os personagens do Antigo Testamento eram apresentados por ela como profetas grandiosos, menos doces do  que categóricos, de modo que, quando eu vi os profetas  de Aleijadinho, me lembrei dela e pensei: esses são os  profetas dos quais mamãe falava.
As aulas de catecismo
Além das aulas que ela nos dava em casa, providenciou  que o Monsenhor Marcondes Pedrosa, pároco da igreja de  Santa Cecília, paróquia à qual pertencíamos, nos ministrasse aulas de catecismo. Estas aulas eram particulares, só para minha irmã, para uma primazinha que era educada conosco e para mim. De maneira que duas ou três vezes por  semana íamos à paróquia, onde ele nos ensinava o catecismo especialmente. Ela teve sempre muito cuidado nisso.
Entretanto estas não foram as principais contribuições  dela para nossa boa formação. Inscrever os filhos no curso  de catecismo, dar ela mesmo algumas aulas, isto toda boa  mãe fazia. O principal era, entretanto, o que transparecia  no contato com ela. Nesse convívio eu sentia todas as suas  excelências morais que ela possuía: amor, calma, dignidade, afeto, seriedade, etc. Isto me atraía muito.
“Eu prefiro mamãe”
Lembro-me, por exemplo, de um fato que deixa transparecer o quanto eu a admirava e era por ela atraído. 
Certa vez, adoeci e fui obrigado a acamar-me. Estava muito aborrecido por ter de ficar de cama, o que para  uma criança não é nada agradável... 
Mamãe foi visitar-me juntamente com uma irmã dela, tia Zili. As duas se aproximaram de minha cama e minha mãe disse:
“Olha, Zili está com o tempo livre e pode cuidar de  você. Eu também tenho tempo livre, de maneira que você veja qual das duas você prefere.” 
A minha tia era muito mais nova do que ela, muito viva, engraçada, contava coisas interessantes.
Eu me lembro de olhar para as duas e pensar: “vai ser  muito menos pesado recuperar-se ao lado de uma tia que  canta, faz brincadeiras, diz coisas engraçadas, com ela eu  vou ter muita ocasião de rir e isto vai tornar a minha doença mais leve.”
Depois olhei para mamãe, e os olhos de mamãe me  olhavam com uma calma muito plácida.
Eu disse então:
— Tia Zili, a senhora é uma “vice-mãe” para mim,  mas mãe mesmo é mamãe. Eu prefiro mamãe.
Dona Lucilia, fruto da Igreja
Aos domingos, íamos à missa na igreja do Coração de  Jesus. Eu gostava enormemente da igreja. Após entrar e  nos colocar junto ao banco, eu me ajoelhava ao lado dela, o que, aliás, ela gostava muito, e enquanto ela rezava,  eu prestava atenção no ambiente e percebia que havia  uma enorme semelhança, quase uma unidade de espírito, entre ela e o ambiente da igreja. 
E pensava: “Qual! Como ela é semelhante a isto! No  fundo, mamãe é um fruto disto e ela não seria como é se  a Igreja não a modelasse”.
Quando fiquei mais velho compreendi o que é a Igreja Católica. Percebi, então, que a fonte de toda virtude  que pudesse haver em qualquer homem é a Igreja Católica. Concluí que o mal consistia em estar fora da Igreja  ou contra ela. E, todo o bem consistia em estar dentro da  Igreja e quanto mais dentro melhor. 
Vê-se, com isto, que mamãe me conduziu, pelo convívio e exemplo dela, à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, à devoção a Nossa Senhora. Ela me ensinou a amar a  Santa Igreja Católica. 

Plinio correa de Oliveira – Extraído de Conferências de 21/9/82 e 25/7/94

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Exemplo de perfeição

Com extrema maternalidade, Dona Lucilia procurava orientar seus filhos para uma vida de perfeição. Dr. Plinio se recorda de fatos do dia-a-dia que deixam transparecer a bondade de sua mãe.
Se houve uma pessoa que me deu todas as formas de exemplos de perfeição, foi Dona Lucilia. Em primeiro lugar pela sua elevação moral. O espírito dela tinha certa tendência, continuamente manifestada, para o que há de mais alto, mais belo, mais delicado.
À noite, após fazer todas suas orações, ela me esperava chegar da rua para trocar mais uma palavrinha comigo. Eu percebia que o tempo decorrido entre o término de suas preces e minha chegada era considerável, às vezes três quartos de hora. Mamãe estava cansada, com sono, mas não queria ir dormir. Não sei no que ela pensava, mas eu notava que seu espírito se desprendia de regiões mais altas do pensamento para descer e conversar comigo.
Espírito impregnado pelo “perfume” da elevação
Imaginem uma pessoa que subisse em uma montanha, no alto da qual houvesse árvores com flores perfumadíssimas, e lá ficasse certo tempo. Quando descesse, seus trajes estariam penetrados do cheiro daquelas flores. Assim, eu tinha a impressão de que seu espírito ficava impregnado do perfume das coisas nas quais ela tinha pensado.
Eu não ia conversar com ela para tratar de algum assunto específico, mas apenas por ser seu filho; era inteiramente espontâneo. E aquilo que me ocorresse e tivesse a vontade de dizer-lhe naquele momento, eu falava. Ainda que fosse uma coisa insignificante, por exemplo, um episódio com o cobrador das passagens de bonde porque ele não tinha troco. Ela entrava naquele assunto, embora fosse minúsculo.
Algumas vezes mamãe me perguntava: “Filhão, o que você fez hoje à tarde após sair do escritório?” Eu lhe contava: fui ao dentista ou ao barbeiro ou a uma loja paracomprar um par de sapatos. Ela prestava atenção e iluminava o assunto pelo espírito dela, fazendo assim que o tema deixasse de ser banal.
Mas não prolongava a conversa perguntando: “Onde estão os sapatos? São bonitos  ou feios?” Normalmente as senhoras se interessam por essas coisas.
Aliás, eu gostava de sapatos bem largos, e a única preocupação dela nessa matéria tão banal era que, sendo folgados demais, de repente me causassem um tombo. Então ela sempre dizia:
— O sapato não é largo demais?
Eu sorria e respondia:
— Para meu gosto não, para o seu é.
— Olha, filhão, você toma um tombo... — Reze por mim — e encerrava o assunto.

Continua no próximo post

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Exemplo de perfeição (cont)

Continuação do post anterior
Ajudando no governo da casa
Vivíamos em casa de minha avó — que era a matriarca da família — ela, meu pai, minha irmã e eu. Era uma residência muito grande, e morávamos num apartamento reservado especialmente para nós.
Mamãe se dedicava a ajudar minha avó a tomar conta da residência. Esta era enorme, e por isso era preciso sempre dirigir os criados e fiscalizar as contas.
Naquele tempo, quase tudo se fazia em casa, não só refeições, mas também costura, por exemplo. Havia em nossa residência uma máquina de costura muito boa, marca Singer, com pedais; não era elétrica. Mamãe pedalava e costurava. A Fräulein também ajudava na confecção de certas peças de roupa. Embora não precisasse trabalhar nessas coisas, mamãe as realizava por afeto, gostando que usássemos roupas feitas por ela. Para um rapaz, por exemplo, uma coisa é usar uma gravata comprada na loja, outra é vestir aquela que sua mãe fez para ele.
À procura dos ovos de páscoa
Quando chegava a Páscoa, realizava-se piquenique, ou seja, uma excursão a uma distância pequena, no meio do mato ou junto da praia, levando-se algumas cestas com comida. A criançada brincava e mamãe ficava observando. Essas cestas iam bem preparadas, tudo bem arranjado. Era agradável vê-la retirar os alimentos e mandar distribuir aqui, lá e acolá. Tudo feito com perfeição. Ela sabia depois adaptar a refeição a cada pessoa.
Muitas vezes íamos ao Parque Antártica, situado em frente às Indústrias Matarazzo1 de hoje. Era um local enorme, muito bonito, que a Companhia Antártica — fabricante de uma excelente cerveja — mantinha para o público a fim de fazerem piqueniques e, penso eu, escoar seus produtos.
O parque possuía tufos de vegetação, árvores, enfim tudo que pudesse distrair crianças. Em certo momento, mamãe fazia um sinal para a Fräulein — mas eu nunca percebia; somente quando adulto entendi tudo — e esta jeitosamente levava os ovos de páscoa, colocando-os em diversos lugares. As crianças ficavam prestando atenção para ver onde ela os havia escondido, para depois irem buscar.
Eu era um menino bastante distraído e muito pensativo. Como resultado, uma série de coisas concretas me escapava.
Mamãe já sabia que eu não iria notar; então ela me dizia:
— Filhão, vá agora pegar seus ovos. Eu pensava: “Agora chegou essa história.”
E perguntava:
— Que direção devo tomar?
— Vá procurar. Todos os seus companheirinhos estão procurando, busque você também.
— Ah! sei, vou.
Após dar alguns passos e nada encontrar, eu de longe olhava para ela, assim como quem diz: “Ajude-me porque naufraguei , não encontro os ovos.”
Mamãe sorria para mim. Que sorriso luminoso, afável! Um tanto se divertindo com o meu apuro, mas alegre por me tirar dele. Chegava até mim e me dizia:
— Dê a mão para mamãe que vou ajudá-lo a encontrar os ovos. Vamos andar um pouco.
Segurando minha mão, ela fingia que estava procurando e afinal me falava:
— Olha, está naquele tufo, mas você tem que procurar dentro dele.
Mexendo um pouco naquela vegetação, aparecia o presente. Eu era tão ingênuo que acreditava ter sido achado por mim e ficava alegre:
— Olhe, mamãe, eu encontrei!
E ela fingia surpresa:
— Ah! Encontrou? Que coisa excelente!
E eu ia comer o ovo de páscoa que achara, pois todos os presentes eram comestíveis. Ela sabia que eu não preferia ovo de chocolate, e sim o feito de açúcar, pois causava a impressão de cristal muito bonito. Dessa forma, mamãe sempre me fazia encontrar o ovo de cristal que comprara para mim.
Nada havia nesse caso que ela não tivesse feito com perfeição
Eu saía de lá com a seguinte sensação: “Nada havia nesse caso que ela não tivesse feito com perfeição.”
De vez em quando, para brincar, eu lhe dava um ou outro apelido, sempre muito respeitoso e afetuoso. Durante algum tempo, eu a chamava Lady Perfection, quer dizer, Senhora Perfeição, e ela ficava muito contente. Meu pai, que era um homem muito tratável, de um gênio muito bom, olhava o jeito dela e dizia, imitando a pronúncia do português de Portugal:
— Não te derretas!
Ela ficava séria, eu lhe falava outras coisas para exprimir minha admiração e assim terminavam nossos contatos.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 10/9/94

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Exemplo de perfeição

Com extrema maternalidade, Dona Lucilia procurava orientar seus filhos para uma vida de perfeição. Dr. Plinio se recorda de fatos do dia-a-dia que deixam transparecer a bondade de sua mãe.
Se houve uma pessoa que me deu todas as formas de exemplos de perfeição, foi Dona Lucilia.
Em primeiro lugar pela sua elevação moral. O espírito dela tinha certa tendência, continuamente manifestada, para o que há de mais alto, mais belo, mais delicado.
À noite, após fazer todas suas orações, ela me esperava chegar da rua para trocar mais uma palavrinha comigo. Eu percebia que o tempo decorrido entre o término de suas preces e minha chegada era considerável, às vezes três quartos de hora. Mamãe estava cansada, com sono, mas não queria ir dormir. Não sei no que ela pensava, mas eu notava que seu espírito se desprendia de regiões mais altas do pensamento para descer e conversar comigo.
Espírito impregnado pelo “perfume” da elevação
Imaginem uma pessoa que subisse em uma montanha, no alto da qual houvesse árvores com flores perfumadíssimas, e lá ficasse certo tempo. Quando descesse, seus trajes estariam penetrados do cheiro daquelas flores. Assim, eu tinha a impressão de que seu espírito ficava impregnado do perfume das coisas nas quais ela tinha pensado.
Eu não ia conversar com ela para tratar de algum assunto específico, mas apenas por ser seu filho; era inteiramente espontâneo. E aquilo que me ocorresse e tivesse a vontade de dizer-lhe naquele momento, eu falava. Ainda que fosse uma coisa insignificante, por exemplo, um episódio com o cobrador das passagens de bonde porque ele não tinha troco. Ela entrava naquele assunto, embora fosse minúsculo.
Algumas vezes mamãe me perguntava: “Filhão, o que você fez hoje à tarde após sair do escritório?” Eu lhe contava: fui ao dentista ou ao barbeiro ou a uma loja para comprar um par de sapatos. Ela prestava atenção e iluminava o assunto pelo espírito dela, fazendo assim que o tema deixasse de ser banal.
Mas não prolongava a conversa perguntando: “Onde estão os sapatos? São bonitos ou feios?” Normalmente as senhoras se interessam por essas coisas.
Aliás, eu gostava de sapatos bem largos, e a única preocupação dela nessa matéria tão banal era que, sendo folgados demais, de repente me causassem um tombo. Então ela sempre dizia:
— O sapato não é largo demais?
Eu sorria e respondia:
— Para meu gosto não, para o seu é.
— Olha, filhão, você toma um tombo...
— Reze por mim — e encerrava o assunto.
Preparando presentes para os filhos
Às vezes, ela contava pequenos fatos tais como:
Quando éramos crianças, mamãe preparava para minha irmã e para mim presentes de Natal e Ano Bom. Ela mandava a Fräulein nos levar para as duas ou três melhores casas de presentes de São Paulo e nos dizia: “Escolham os presentes e rezem a São Nicolau, para que ele os consiga para vocês.” Acreditávamos que era assim; íamos às lojas e escolhíamos coisas muito desiguais: minha irmã preferia bonecas e eu soldadinhos de chumbo, objetos que exprimiam luta.
Além desses brinquedos, mamãe — creio que por dedicação — gostava de ela mesma fazer presentes para nós, especialmente para minha irmã, porque é mais fácil fabricar uma coisa para menina do que para menino. Este gosta de coisas meio brutas, enquanto aquela, de objetos mais delicados.
Lembro-me de vê-la trabalhar para compor algo semelhante a um abat-jour, colando em sua copa uma série de figuras de meninas, uma segurando na mão da outra, formando guirlanda, dando certa impressão de dança, em torno de um chafariz. Ela recortava essas figuras femininas de jornais brasileiros ou figurinos franceses, e colava-as em papel especial. Depois pintava os bordos das saias, espalhava uma espécie de poeira dourada e dava o abat-jour para minha irmã.
Apesar de sua má saúde, mamãe ficava às vezes até meia-noite, meia-noite e meia, preparando esse presente. Era algo trabalhoso, mas ela o fazia com perfeição.
Porém, o mais perfeito estava nisso:
Passado certo número de dias, a cola ia secando, as figuras se desprendendo e aquilo ficava feio. Então, ela mandava rasgá-lo e jogá-lo no lixo, sem o menor pesar. Agora a perfeição consiste em pensar noutra coisa, não lastimar o passado mas, isto sim, em ir para frente.

Desde o mais delicado e carinhoso, até ao mais firme e decidido, tudo mamãe fazia com perfeição.
Continua no próximo post

sábado, 22 de novembro de 2014

Primeiros encantos com a Igreja

Continuação do post anterior
Pouco depois de nossa Primeira Comunhão, terminado o curso de catecismo, o meu vínculo estreito com mamãe me ajudaria a discernir outras riquezas da Igreja Católica. Eu ia com ela às Missas de domingo na Igreja do Coração de Jesus e, sentado ao seu lado, me punha a analisar o ambiente do edifício sagrado, e o conjunto que seus diversos aspectos formava com os ritos e simbolismos da celebração litúrgica. Então, considerava o som do órgão, do sino que tocava para anunciar a entrada do padre, as expressões de fisionomia desta ou daquela imagem, tal paramento, tal gesto, tal vitral que me parecia muito bonito — de tudo aquilo resultava uma soma, uma unidade incomparavelmente mais bela e preciosa do que a soma das pessoas ali reunidas.
De tal maneira que, quando aquelas pessoas saíam e o templo se esvaziava, essa riqueza do ambiente permanecia inalterada até a Missa seguinte, quando outros fiéis ocupariam aqueles espaços e encontrariam aqueles mesmos e precisos aspectos dispostos para a contemplação deles.
Na minha mente de menino formava-se a idéia — incipiente e confusa como só podia sê-lo na cabeça de uma criança — de que se tratava de uma graça do Divino Espírito Santo a pairar naquele ambiente, e que agia na alma das pessoas, levando-as a compreender e a amar as belezas da Igreja. Daí, também, a noção do sagrado do templo católico, casa de Deus, onde se entra para adorá-Lo.
“Querendo bem à Igreja, queria bem à mamãe”
A concepção artística do interior da Igreja do Coração de Jesus é muito própria a despertar essas impressões. Por exemplo, do banco onde mamãe e eu costumávamos ficar, podia-se ver a imagem do Sagrado Coração de Jesus, na nave esquerda, e a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, do lado direito. Eu considerava aquelas imagens, que sempre me tocaram, analisava as decorações em volta, as pinturas que representam cenas bíblicas, as outras imagens de santos e, sentindo também a presença de mamãe, pensava: “Como ela se harmoniza tanto com todo esse ambiente! Como tudo isso penetra na sua alma e faz um com ela! Querendo bem a ela, quero bem a isso. Mas também, querendo bem a isso, quero bem a ela!”
Embora eu não conhecesse o conceito de “reversibilidade”, na minha cabeça estava a idéia de que havia uma analogia, uma certa semelhança, uma como que reversibilidade entre a Igreja e mamãe.
Cumpre dizer que a Igreja me impressionava incomparavelmente mais do que mamãe. E se é verdade que o convívio com Dona Lucilia me ajudou a compreender a Igreja, mais ainda a Igreja me ajudou a amar mamãe, porque eu a amei por ser ela um reflexo daquela Igreja à qual eu devotei minha vida inteira. Se quis tanto bem a mamãe, foi porque percebi na sua alma um reluzimento da mesma graça que pairava na Igreja do Coração de Jesus.
Lógica e coerente, como o lado racional da religião
Essa ideia da reversibilidade entre o espírito de mamãe e a Igreja se acentuou ainda mais quando comecei a frequentar o Colégio São Luís e, neste, além do contato mais assíduo com as práticas de piedade, fui conhecendo, pelos ensinamentos dos padres jesuítas, o lado racional da religião.
Como sempre tive particular apreço pela lógica, de um lado, e, de outro, como os jesuítas raciocinavam muito bem, diante de todo raciocínio bem feito por eles eu me extasiava: “Isso está direito, concatenado, é assim que se raciocina!”. E através daqueles ensinamentos, eu admirava o pensamento sério da Igreja que chega às últimas conseqüências. Encantava-me e me alegrava, com a alegria que a certeza tem de sentir-se a si mesma.
E então, voltava-me para a figura de mamãe: “Veja como ela é uma simples senhora, uma mãe de família, mas, naquilo que posso discernir dela, como é semelhante a tudo isso que me ensinam da Igreja. Como ela é lógica, coerente e direita! Portanto, eu a amo e a quero, porque ela se parece tanto v com a Santa Igreja Católica!”

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência em 21/9/1982

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Ensinando a amar Nosso Senhor Jesus

Recordando o modo como Dona Lucilia lhe falava da doçura de Nosso Senhor, Dr. Plinio evoca seus primeiros encantos com o Divino Mestre e com a Santa Igreja, aos quais sua saudosa mãe lhe ensinou a amar desde a mais tenra infância.
Quando minha irmã e eu éramos pequenos, e nos preparávamos para a Primeira Comunhão, mamãe reforçava nosso curso de catecismo, contando-nos episódios da História Sagrada. E se hoje, passado tanto tempo, não sou capaz de distinguir os fatos que ouvimos dela e os que conhecemos na catequese, lembro-me entretanto do ambiente que mamãe criava ao narrar essa ou aquela cena do Antigo Testamento, uma parábola do Evangelho ou algum momento da vida de Nosso Senhor. Fazia-o de modo a nos imbuir dos sentimentos de piedade e devoção que um bom católico deve ter, ao se inteirar da história e da doutrina cristãs.
Salientava a doçura de Nosso Senhor e de Maria
Recordo-me de maneira especial que mamãe nos falava muito da doçura de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, fazendo-nos compreender tudo o que essa doçura tinha de carinho, afabilidade e bondade verdadeiramente penetrantes. Ao mesmo tempo, ao dizer que “Ele era bom”, esse “Ele” vinha impregnado da ideia de uma majestade superior à dos reis, da infinita nobreza divina refletida, pela união hipostática, na natureza humana d’Ele.

Então, pelas descrições de mamãe, percebíamos como tudo quanto Ele fazia era repassado de serenidade, de significado, e de uma sabedoria que transcendia a qualquer outra no mundo. Tais eram a bondade e a superioridade absolutas de Jesus, as quais Dona Lucilia nos apresentava ao nos contar os episódios bíblicos. Sem deixar de nos fazer ver também — cumpre notar — um fundo de tristeza que transparecia no Divino Redentor, por causa da Paixão que sofreria por nós. Esse aspecto estava igualmente presente nas narrações dela.
Concepção lendária da Terra Santa
É preciso dizer, ainda, que mamãe imaginava um pouco lendariamente a Terra Santa. Quer dizer, para ela, os desertos da Judéia eram míticos e poéticos como os arenais de um Saara. Lembro-me de ela pronunciar certos nomes, por exemplo, Mar de Tiberíades: vinha de Tibério, imperador romano pagão, mas, ao dizer “Mar de Tiberíades”, na entonação da voz dela, parecia-nos ver as ondas se formando de modo prestigioso naquelas águas...
Quanto aos personagens do Antigo Testamento, mamãe os representava como profetas grandiosos, menos suaves e mais categóricos. Quando, mais tarde, conheci as imagens dos profetas do Aleijadinho, lembrei-me das descrições de Dona Lucilia e pensei: “Esses são bem os profetas que eu imaginava quando mamãe começou a me falar deles.”
Continua