quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Atendendo às solicitações maternas

Muito se preocupava Dª Lucilia com a saúde de seu filho, em vista da intensa atividade por ele exercida: apostolado, direção do Legionário, escritório de advocacia, magistério, conferências, discursos, palestras. Embora Dr. Plinio fosse muito robusto, graças aos cuidados que sua mãe lhe dispensara na infância, estaria sempre exposto a algum mal súbito, pelo cansaço resultante de tal operosidade. Por isso ela lhe recomendava sair de São Paulo a fim de descansar durante algum tempo, apesar de serem para ela tão penosas as ausências dele.
Mas, para ter certeza de que esses períodos seriam bem aproveitados para um repouso regenerador, pedia-lhe com afeto que não deixasse de escrever, contando seu dia-a-dia. Assim, ao menos para contentá-la, ele se sentiria obrigado a fazer algum passeio e a se distrair. Para tranquilizá-la, Dr. Plinio filialmente seguia as orientações maternas, sempre que alguma necessidade urgente da Causa Católica não exigisse o contrário. Estando no Grande Hotel de Guarujá, no verão de 1939, assim se exprimia em carta a Dª Lucilia, de 22 de fevereiro:
Mãezinha do coração!
Escrevo-lhe às dez e meia da noite, depois de ter passado um dia singular, mas delicioso: levantei-me às quatro e meia(!), fui esperar às seis da manhã em Santos um grande navio italiano de cujo nome não me lembro, mas que é o mais suntuoso que vi; lá assisti à Missa celebrada pelo famoso Jesuíta Pe. Laburu, basco, meu amigo, vindo de Roma de passagem para a Argentina, uma das maiores celebridades mundiais em telepatia, hipnotismo, etc.
Lá comunguei com o José, tomamos um delicioso café, e ficamos de prosa até nove e meia. Depois voltei de auto a Guarujá, li os jornais, tomei um banho de mais ou menos uma hora ou uma hora e quinze, almocei, e caí na cama a uma e meia e dormi com sono cerrado até seis e meia exatamente. Levantei-me, fiquei no terraço até oito e quinze, jantei muito bem, andei na praia, e agora estou matando as saudades, que são muitas. Encontrei aqui a Ilka com o Zito, que vieram um instante ao hotel, ver-me. Eles foram a S. Paulo e deverão estar de volta sexta-feira (...)
O hotel está quase vazio, e está delicioso! E a Sra como vai? e Papai? E a Katuchinha¹ queridinha? Vou escrever a esta.
Se vierem cartas para mim no escritório, no Legionário ou aí, mande.
Com um afetuoso abraço a papai, 1000000.....0 de beijos à Sra, do seu filho respeitoso, que lhe pede a bênção e lhe quer mais do que é possível dizer
Plinio
A leitura destas linhas fazia Dª Lucilia sentir-se consolada, por saber que seu filho estava repousando bem, e recompensada pelas grandes saudades que a ausência dele lhe trazia.
Por vezes Dr. Plinio ia a uma estância hidromineral no interior paulista, Águas de São Pedro, a fim de espairecer. Dali escreveu em certa ocasião a sua mãe:
Luzinha de meu Coração
Aí vai a carta que a Sra esperava. Vai atrasada, curta e cheia de saudades.
Estou descansando muito, passeando e comendo bem: vegetando, enfim, que é o de que eu precisava. (...)
Como vai a Sra? E Papai? Adolphinho já está bom? Diga-lhe que é pena que não esteja aqui.
Mil beijos para a Sra, abraços para Papai. Do filho que a quer a mais não poder, e lhe pede a bênção.
Plinio
Outras vezes essas viagens eram destinadas por Dr. Plinio a uma atividade intensa, que a tranquilidade de um confortável hotel à beira-mar tornava mais propícia.
Pelo caráter “telegráfico” das missivas de seu filho, percebia Dª Lucilia que dessa vez o descanso havia ficado bem distante. Tal é o caso de um belo postal com uma vista marítima, enviado em maio de 1939 de Guarujá:
Mãezinha querida
Com mil saudades, beijo-a respeitosamente e peço sua bênção.
Estou gostando muitissimo.
Do filho que a quer imensissimamente.
Plinio

Eram poucas palavras, mas transbordantes de amor filial. Dª Lucilia, ao receber o cartão, tê-lo-á quiçá depositado, até a volta do filho, aos pés da imagem do Sagrado Coração de Jesus, junto à qual passava horas mais longas, durante as ausências dele.
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Suaves repreensões

Foi o Sagrado Coração de Jesus, sempre pronto a perdoar e acolher o pecador arrependido, o modelo perfeito com o qual Dª Lucilia sempre procurou se identificar. Assim, em suas atitudes, palavras e gestos iam transparecendo de modo crescente, com o correr dos anos, a extrema suavidade e doçura de trato que tanto refulgiram na figura do Divino Mestre.
Já seu filho, exposto a rudes pelejas apostólicas, além da infinita Bondade, adorava de maneira particular a Nosso Senhor enquanto intransigente com o mal que se mostrava empedernido. Essa dualidade de aspectos do Divino Modelo fazia desprender do convívio mãe-filho uma melodia de notas opostas, mas sempre harmônicas. Dr. Plinio era tendente a manifestar categoricamente as próprias opiniões, até nas menores coisas, e Dª Lucilia procurava refrear um pouco este expansivo modo de ser, às vezes por demais contundente segundo os padrões dela.
Certo dia a empregada não acertou na compra da manteiga. Após ter untado abundantemente uma fatia de pão, Dr. Plinio, ao prová-la, logo sentiu um gosto desagradável, indicativo de que o alimento não estava fresco.
Dª Lucilia, que punha todo empenho em lhe proporcionar um cardápio de acordo com sua preferência, estava sempre atenta às reacções dele, e percebeu de imediato sua repulsa.
— Meu bem — disse ele — essa manteiga que a empregada comprou não serve nem para engraxar os trilhos dos bondes!
Dª Lucilia ficou com a fisionomia um tanto penalizada. Mesmo em se tratando de um alimento de qualidade inferior, não era bondoso um comentário tão forte, segundo seus critérios.
Mas, como admoestar um filho já homem feito, professor universitário? Era uma situação para a qual só ela podia encontrar uma boa saída. Estando sentada à mesa, ao lado dele, tocou-lhe suave e repetidamente com a ponta dos dedos no dorso da mão, como que a lhe dizer: “Meu filho... Meu filho!...” O macio dos toques, o sedoso da pele, reflexos de seu modo de ser, transmitiam uma censura que inundava a alma dele de doçura.
E sempre que Dr. Plinio dizia o que pensava a respeito deste ou daquele, Dª Lucilia, quando não tinha mais como defender o atingido — por ser indefensável — apelava para este último e mudo recurso: discretos toques no dorso da mão dele.

Era bem provável que Dr. Plinio tivesse vontade de acrescentar outro comentário, para que ela lhe proporcionasse mais uma suave repreensão...
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Consolar o próximo: dever de caridade

Como vimos, Dona Lucilia procurara formar seus filhos no hábito de fazer o bem a seus semelhantes, especialmente aos mais próximos. E mesmo após atingirem a idade madura, não cessava de lembrar-lhes tais obrigações, sempre que a ocasião se apresentava.
Igreja Santa Efigênia
Animada por essa caridade, tinha muita preocupação em confortar os conhecidos, a quem a morte levara um parente ou amigo. Exemplo disso é o bilhete que, um dia, deixou a Dr. Plinio:
Plinio
Realiza-se hoje às 9 horas em santa Ephygenia a Missa de sétimo dia do Dr. X. É preciso que vás, pois estimo muito ao seu cunhado Y, e sendo também co-parente de Dr. Z não pódes deixar de ir, porisso peço-te que vás.
Outro exemplo do empenho dela no cumprimento dos deveres familiares transparece num carteio de junho de 1937, durante nova temporada em Aguas da Prata, para onde ela fora acompanhada de seu esposo. Dr. Plinio, em missiva a seu pai, justifica-se longamente por não ter podido encontrar-se com um Corrêa de Oliveira, apesar da insistência de Dr. João Paulo e de Dona Lucilia de que o fizesse:
São Paulo, 28 - VI - 1937
Papai,
Recebi sua carta. Infelizmente, o Corrêa de Oliveira partiu para Santos e de lá para o Rio, muito inopinadamente, no dia de sua partida ou no dia imediato, se não me engano. Não houve, pois, tempo para ir visitá-lo. Os argumentos aduzidos pelo Sr. e por Mamãe, a este respeito, são todos perfeitamente razoáveis, a tal ponto que me considerava na obrigação de ir ao Esplanada, para cumprimentar o Corrêa de Oliveira, e até tinha pensado em voltar, caso não o encontrasse. Mas o Sr. vê que não foi possível.
Dr. Plinio segue a missiva tratando de algumas causas de advocacia que Dr. João Paulo deixara pendentes em São Paulo. Esse motivo acabou por exigir o regresso deste último mais cedo do que esperava. Para Dª Lucilia não ficar sozinha, seu filho sugere que Maria Alice, neta dela, então com 9 anos, lhe vá fazer companhia.
Ao terminar a carta, ele faz referência, com uma pontinha de jocosidade, a uma característica de suas famílias, tanto do lado materno, quanto do paterno: a arte da boa conversa. Por serem paulistas uns e pernambucanos outros, desenvolviam essa qualidade de modo bem diverso:
Como vai o tempo aí? E o Sr.? Está aproveitando o repouso? Está alguém aí, que lhe possa interessar para conversar, etc.? Aliás, para o Sr., conversa, principalmente com estranhos, está longe de ser gênero de primeira necessidade, como para Mamãe, para mim, e para todos os que temos um pouco de sangue de Ribeiro dos Santos.
Com um saudoso abraço, pede-lhe a bênção o filho amigo,
Plinio
À medida que os anos passavam e Dª Lucilia ia ficando mais idosa, seu filho multiplicava a solicitude para com ela. Isto fazia a fim de tornar menos penosa a solidão daquela que não teve a fraqueza de se adaptar às inovações da “modernidade” para alcançar cidadania no mundo. Com o objetivo de distraí-la, não raras vezes convidava à sua mesa alguns dos amigos mais chegados do “Grupo do Legionário”¹.
Ao escrever a sua mãe, naquele mesmo dia vinte e oito de junho, da sede do Legionário em cuja redação ficava trabalhando até horas tardias, Dr. Plinio conta-lhe que recebera duas cartas de um companheiro de luta o qual tivera a dita de amiúde jantar com Dª Lucilia, ficando indelevelmente marcado pelo convívio com ela. Além disso, procura uma vez mais tranquilizá-la com relação ao cumprimento dos compromissos familiares, destacando alguns com letras maiúsculas. Dª Lucilia muito recomendava a seu filho que prestasse especial assistência a Dª Rosée, embora ela já fosse casada, pedido ao qual ele atendeu até o último dia de vida de sua irmã.
São Paulo, 28-VI-1937 Mãezinha querida do meu coração,
Recebi com muito agrado seu telegrama e sua carta. Confesso que me esqueci de dar à Ana os recados referentes às janelas, etc.,etc. Se me lembrar, darei. Não posso prometer de dar ainda que não me lembre! Entrincheiro-me atrás desse sofisma, e passo a outro assunto.
Recebi duas cartas do José Gustavo², em dois dias consecutivos. Uma, a primeira que recebi, era datada de Perugia, se não me engano. A segunda veio de bordo do Neptunia, navio em que ele seguiu. Veja que desordem. Ambas as cartas eram muito afetuosas. Uma delas continha particulares referências à Sra. e aos “sossegados jantares de domingo”, dos quais ele me pede para lhe dizer que não se esquece, nem a caminho da Europa.
Almocei ontem com tia Yayá, depois FUI Á CASA DO ZITO³, PARA CUMPRIMENTÁ-LO PELO SEU ANIVERSÁRIO, percorrendo por isto, a pé, todo o espaço que vai entre a Rua Augusta e a Brigadeiro Luís Antônio, na Avenida Brasil, porque não conhecia bem o caminho. Tenho jantado FREQÜENTEMENTE com Rosée, e ela vai hoje em casa. (...)
Ontem, fomos jantar na Caverna. Depois, fomos dar umas voltas de automóvel, numa excelente Packard. Ás onze e meia estacionamos no Trianon, onde tomamos alguma coisa. Depois, fomos para casa. (...)
É possível que eu vá passar alguns dias em Santo Amaro, ou em Santos. Mas ainda depende.
Mande-me dizer detalhadamente como vai sua saúde, o que a Sra. anda fazendo, o que não anda fazendo, etc.
Maria Alice deve estar aí no dia dois, caso Papai siga no dia 1º, de sorte que a Senhora só ficará uma noite só. Antes disto, ela não poderia seguir porque as roupas não estão prontas, ou qualquer coisa assim.
Tenho a impressão de que Maria Alice está muito só. E não é só ela... Com muitos e afetuosíssimos beijos, pede-lhe a bênção o seu filho querido,
Plinio
“Tenha muito cuidado com sua saúde”
Ao saber alguns dias depois que Dª Lucilia fora acometida por um achaque, Dr. Plinio, embora tomado de ocupações, escreve nova missiva a sua mãe:
Mãezinha de meu coração Rapidamente, à meia noite e quarenta, escrevo-lhe uma palavrinha, para lhe dizer quanto sinto que a Sra. tenha adoecido aí, e quanto desejo seu pronto restabelecimento. Neste sentido, agora mesmo, acabo de rezar a Na. Sa., pedindo que tudo por aí lhe corra do modo mais suave possível.
Por aqui, nada de novo. No dia de anos de Tia Zili, ela me convidou, e a Rosée para almoçarmos em sua companhia na Caverna. (...)
Jantei em casa de Rosée, e, depois de um dia passado inteirinho na Rua, recolho-me exausto, fazendo esforço para lhe poder escrever.
Espero que o róseo portador desta carta lhe vá aliviar um pouco as saudades. “Um pouco”, porque tenho a ilusão pretensiosa de ser insubstituível. E, apesar de pretensiosa, creio que essa ilusão não está muito distante da realidade. (...)
Ontem, a Vasp convidou-me, como Diretor do Legionário, a fazer uma viagem de avião ao Rio hoje, ida e volta, gratuita. Era uma viagem dedicada a todos os jornalistas. Recusei, e indiquei um representante. E, por isto, mereço uma especialíssima aprovação de minha Mãezinha. Agora à noite, estive com o tal rapaz. Imagine que ele partiu às 8, chegou às 9 e meia, voltou parece-me que às 2 e meia, e chegou às 4. Portanto, foi almoçar no Rio e voltou. No tempo em que Vovô Gabriel fazia essa viagem em costa de burro, imagine o pasmo dele se imaginasse que seu bisneto poderia ir e vir do Rio em um mesmo dia!
Bem, minha Mãezinha querida, melhore muito, aproveite muito, reze muito por mim, e tenha muito cuidado com sua saúde.
Pede-lhe a bênção com muito afeto o filho respeitoso, que lhe envia mil beijos.
Plinio
(Nota, a assinatura vai à maquina, porque é mais fácil. Dado ser a portadora quem é, penso que a Sra. não duvidará da autenticidade...)

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)

domingo, 7 de julho de 2013

Dois outros exemplos de discernimento materno

Um dos muitos dons com os quais a Providência quis cumular Dona Lucilia, a fim de que eia cumprisse de modo exímio sua missão de mãe e formadora, foi o discernimento das psicologias. Este levou-a, por exemplo, a escolher uma governante alemã para educar seus filhos, por perceber como o senso de ordem e o do cumprimento do dever, do povo alemão, seriam fatores altamente benéficos na formação das crianças. Só isto explica não ter ela escolhido uma governante francesa, uma vez que tanto admirava a França.
De igual modo discernia ela, entre os amigos de Dr. Plinio, aqueles que o eram autenticamente, de um ou outro que não o era.
Dois fatos demonstram a singularidade desse dom.
Certa vez Dr. Plinio convidou para jantar em sua casa um jovem colega dos meios católicos. Durante a refeição, Dona Lucilia observou discretamente o convidado, entrevendo algo de peculiar nele. Assim que o rapaz se retirou, ela disse a seu filho:
— Tome cuidado com aquela mão... O modo de ele pegar no garfo é muito esquisito...
Dona Lucilia relacionava, talvez de forma intuitiva, aquele modo “esquisito” com algum defeito moral não inteiramente explicitado. Uma certeza se firmara em seu espírito: aquele amigo não deveria ser merecedor de confiança. E, mãe zelosa,  para isso alertara Dr. Plinio.
O pressentimento dela foi em breve confirmado pelos fatos: algum tempo depois esse rapaz abandonou seus correligionarios, causando grandes dissabores a Dr. Plinio.
Noutra ocasião, Dr. Plinio convidou para almoçar em sua casa um de seus amigos mais chegados, pertencente às Congregações Marianas. Durante a refeição ouviu-se tocar o telefone. Poucos instantes depois, veio a empregada avisar que o Sr. X estava na linha, e tinha um assunto urgente a tratar com Dr. Plinio. Este interrompeu o almoço para atendê-lo. Como o aparelho ficava numa sala ao lado, Dona Lucilia e o visitante para lá também se dirigiram. Nos assuntos que seriam tratados nesse telefonema jogavam-se altos interesses da Causa Católica.
Dona Lucilia tudo observava em silêncio com seu calmo e luminoso olhar. Em seu íntimo, certamente rezava por seu filho, para que o Sagrado Coração de Jesus o amparasse nessa dificuldade.
Terminado o telefonema, voltaram à mesa e a conversa retomou seu rumo. Quando o visitante se retirou, Dona Lucilia perguntou a Dr. Plinio:
— Você viu a reação dele enquanto você falava ao telefone?
— Não, mamãe, estava tão absorto na conversa que não prestei atenção.
Num tom de voz grave, mas que deixava transparecer ainda mais o quanto de afeto lhe votava, ela o advertiu:
— Meu filho, cuidado com esse seu amigo... Sempre que você estava com a fisionomia preocupada, ele manifestava contentamento; quando você dava uma boa resposta a seu interlocutor e punha os pingos nos “is”, ele ficava indiferente ou demonstrava tristeza... Esse não é seu amigo!
Não muito tempo depois, Dr. Plinio recebia desse “amigo” verdadeira “punhalada” nas costas...
Pode-se perguntar como Dona Lucilia, pessoa tão reconhecidamente bondosa, tinha uma desconfiança que a levava a discernir o mal através de detalhes na aparência insignificantes. De fato, o conceito de bondade que se espalhou em numerosos meios, em especial a partir do fim da década de 30, era bem diferente da verdadeira concepção dessa virtude, ensinada pela Igreja.
Desde essa época há a tendência de confundir bondade com uma complacência em relação a certas formas de mal, o que redunda quase sempre em fechar os olhos obstinadamente ante ele, como se não existisse.

Bem diferente era a alma de Dona Lucilia, na qual se reuniam, numa admirável síntese, a bondade e uma inquebrantável firmeza de princípios; a misericórdia e um aguçado senso de justiça; a afabilidade e uma inteira seriedade de espírito. Este conjunto harmônico de virtudes lhe propiciava, com certa freqüência, perceber o que as situações e as pessoas tinham de bom ou de mau.

domingo, 30 de junho de 2013

Os desvelos de Dona Lucilia pelo ‘‘filhão” doente

Dona Lucilia, conquanto em nada descurasse as prescrições médicas, nunca impunha um tratamento a quem tinha idade para se governar a si próprio. Seu desvelo por seu filho não diminuíra, pelo contrário, requintara-se ao longo dos anos, passando a representar para ele um autêntico repouso e encorajador consolo, em meio à luta que ele conduzia pela ortodoxia católica. Disso é ilustrativo o episódio seguinte:
Certo dia Dr. Plinio foi acometido por fortíssima indisposição. Dona Lucilia percebeu imediatamente e com sua matizada voz lhe perguntou:
— Filhão, você está indisposto, não está?
A pergunta, muito afetuosa mas incisiva, deixava claro que ela notara o estado dele e não adiantava esconder. Dr. Plinio respondeu com aquela franqueza filial, contrário harmônico da suavidade materna dela:
— Meu bem, realmente estou indisposto, mas detesto medicar-me. Eu não queria contar nada, a fim de evitar que a senhora insistisse comigo para tomar remédios e — pior do que tudo — me recomendasse alguma dieta. Por isso não quero dizer não à senhora, mas sobretudo não quero dizer sim...
A situação era bem difícil para Dona Luciia. Queria ajudar o filho, porém, não desejava contrariá-lo. Mas nem por isso perdeu a calma. Aproximou-se da cama dele e colocou a mão sobre sua fronte para verificar se ele estava com febre.
Nesse pequeno gesto caseiro, já estava dado o primeiro passo para a cura, pois o frescor de suas delicadas mãos transmitia uma benfazeja serenidade, reflexo de sua paz de alma que nenhuma provação conseguia conturbar.
Ela então lhe disse:
— Você está com febre.
Dr. Plinio certamente pensou: “Ela agora vai me pôr o termômetro, e este vai indicar 38°C ou 39°C. Ficará preocupada e vou me meter numa engrenagem que detesto...”
Dito e feito. Com seus pequenos mas ágeis passos, saiu ela do quarto, voltando alguns instantes depois com o fatídico instrumento. Dr. Plinio, para não a contrariar, colocou-o e, passado o tempo necessário, controlado minuciosamente no relógio por Dona Lucilia, o devolveu a sua mãe. Na penumbra do quarto, ela olhou, com certa dificuldade, a temperatura. Porém, em vez de proferir uma sentença, como fazia quando ele era menino, apenas lhe disse:
— Não é nada. O que você quer fazer, meu filho?
Afastada, para alívio dele, a tortura, respondeu:
— Meu bem, eu quero passar o tempo, deitado e quieto.
Dona Lucilia, então, trazendo uma cadeira do quarto dela, colocou-se ao lado da cama do filho e pôs-se a rezar tranquilamente. Ficou assim algumas horas, até chegar a noite. Em certo momento,
Dr. Plinio lhe disse:
— Meu bem, estou com muita fome e a senhora certamente vai querer que eu coma algo.
— Diga o que você quer, que sua mãe lhe traz — foi a pronta resposta dela.
Em seguida, ela mesma saiu a preparar o prato que seu filho pedira. Levou a refeição ao quarto, fez questão de servi-lo e no fim disse:
— De outras vezes não esconda nada a sua mãe, porque ela percebe e não vai lhe impor nada.
A saúde que, a rogos de Nossa Senhora, a Providência dera a Dr. Plinio, era excelente, e assim na manhã seguinte ele já estava bom.
Logo após se levantar, foi ao quarto de Dona Lucilia. Ao vê-lo entrar, lhe perguntou:
— Filhão, como vai?
E a vida de todos os dias recomeçou.

Muitos e muitos anos mais tarde, Dr. Plinio, ao se referir a este pequeno episódio, comentou que só quando sua mãe lhe fez o pedido de nada esconder, percebeu como, para ela, aquele pequeno mal não era uma bagatela. Se a doença se agravasse, Dona Lucilia cuidaria dele com extremos de zelo, até o fim. E — concluiu Dr. Plinio — “é provável que, se eu morresse, ela também morreria. Uma coisa é inteiramente certa: ela preferiria morrer a continuar a viver”.

sábado, 22 de junho de 2013

Benquerença no convívio entre mãe e filho

Era impossível passar despercebido o especial afeto recíproco entre Dona Lucilia e seu filho. Apesar de o espírito de Hollywood ter invadido largamente a sociedade, disseminando pouco a pouco uma mentalidade egoísta e pragmática, não faltaria quem se encantasse ao comprovar os oceanos de ternura e benquerença que transbordavam desse convívio entre mãe e filho. Um pequeno episódio, não desprovido de seu lado pitoresco, pode nos dar ideia disso.
“Não me esquecerei dos seus telefonemas para mamãe...”
Durante o período que passou no Rio, Dr. Plinio tinha por hábito hospedar-se no Hotel Regina, de onde amiúde telefonava para sua querida mãe. Terminados os trabalhos da Constituinte, com a sua promulgação em 16 de julho de 1934, quando se aprestava a deixar definitivamente a Capital Federal, uma confidência veio lhe revelar que essas conversas tinham sido acompanhadas por alguém.
Antes de partir, ele se despediu dos empregados do hotel, que o haviam servido durante um ano inteiro. Sendo o estabelecimento gerenciado por uma senhora portuguesa, categórica e autoritária, mas muito amável, Dona Maria da Glória, ele lhe dirigiu algumas palavras mais atenciosas, para lhe dizer que guardaria gratas recordações da estada ali, onde havia sido tão bem servido.
Ela, com uma candura toda lusitana, respondeu:
— Vá com Deus. Eu nunca me esquecerei de seus telefonemas para a mamãe em São Paulo.
— Mas a senhora os acompanhou? — perguntou ele surpreso.
Ao que Dona Maria da Glória, sorrindo, retrucou:
— Vá com Deus, doutor. Eram tão bonitos que os ouvi todos!
O normal seria Dr. Plinio reclamar, pois era inadmissível que uma gerente de hotel ficasse ouvindo as conversas telefônicas dos hóspedes. Mas Dona Maria da Glória confessou a sua falta com tal sinceridade, deixando transparecer tanta bondade de alma e admiração, que ele se sentiu desarmado, e retribuiu com proporcionada gentileza essa inocente prova de amizade.

Chegando a São Paulo, contou o fato a sua mãe, que o achou muito pitoresco. A partir de então, Dona Lucilia numa atitude bem característica dela, sempre que Dr. Plinio ia ao Rio, e se hospedava no Hotel Regina, mandava afetuosas lembranças à indiscreta e amável gerente, que ainda possuía suficiente quilate de alma para encantar-se com a elevação daquele convívio.
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons João S. Clá Dias

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Manifestação de afeto filial

No Rio para a inauguração da Constituinte
Em 13 de novembro de 1933, Dona Lucilia, Dr. João Paulo e Dona Rosée acompanharam Dr. Plinio ao Rio de Janeiro, para assistir à abertura da Constituinte. Embora a viagem fosse marcada pelo caráter festivo do acontecimento, uma leve sombra de tristeza se projetava do fundo da alma daquela mãe extremosa, pois às alegrias do triunfo se seguiria a dor da separação.
Ao chegarem à Capital Federal, hospedaram-se no Hotel Glória, já então um dos melhores da cidade, situado nas imediações da Praia do Flamengo, com vista para o mais belo trecho da Baía de Guanabara, panorama exuberante que sempre extasiara Dona Lucilia.
Considerada a importância da Assembléia Constituinte naquela quadra histórica, sua inauguração, a 15 de novembro, revestiu-se de grande solenidade. Tropas do Exército, perfiladas diante do Palácio Tiradentes, onde se realizaria a cerimônia, prestavam honras militares a cada autoridade que ia chegando.
Após ter acomodado os seus numa tribuna, Dr. Plinio se dirigiu ao próprio lugar no plenário. Porém, antes de tomar assento, voltou os olhos para onde havia deixado Dona Lucilia, a fim de ter a certeza de estar ela bem instalada.
Não conseguindo localizá-la num primeiro relance, adiantou-se um pouco mais, corredor central adentro, procurando-a detidamente. Do alto da tribuna, percebendo a intenção e a dificuldade de seu filho, Dona Lucilia lhe acenou discretamente com um lencinho. Vendo-a, então, Dr. Plinio lhe retribuiu com ênfase o cumprimento e, tranquilizado, retornou a seu lugar.
Entoado o Hino Nacional, cada uma das personalidades ocupou o lugar indicado pelo cerimonial e deu-se início à sessão.
Do ponto dc vista político, o aspecto imponente da Assembléia não ocultava uma profunda divisão que nela havia. A decidida maioria dos constituintes era formada por getulistas declarados. Não estavam nessa posição os deputados da Chapa Unica por São Paulo Unido, à qual pertencia Dr. Plinio, porque seus eleitores eram os paulistas que tinham apoiado a Revolução de 32. Recusavam o sistema getulista e estavam resolvidos a votar contra ele na Constituinte.
Terminada a sessão, de volta ao hotel, Dona Lucilia, ressentindo-se da extensa duração da solenidade, preferiu recolher-se e não tomar parte no jantar com a família. Assim que este terminou, Dr. Plinio subiu aos aposentos dela, a fim de saber como estava passando e, é claro, entabular uma “prosinha”.
Ao entrar no quarto, encontrou Dona Lucilia sozinha, sentada numa poltrona, contemplando o lindo panorama que se avistava do Hotel Glória. Naquela noite se apresentava particularmente soberbo: céu límpido, no qual se erguia esplêndida lua, quase dourada, cujos reflexos rebrilhavam sobre as ondas que com placidez se desmanchavam em branca espuma nas pedras, junto à amurada da Avenida Beira-Mar. Ao longo desta, balouçando ao sopro de branda viração, altas e elegantes palmeiras reverenciavam a imponente silhueta do Pão de Açúcar que se ergue na entrada da Baía de Guanabara.
Não encontrando outro assento ao alcance da mão, Dr. Plinio se ajoelhou junto à mãe e lhe perguntou como estava.
Dona Lucilia, que ficara profundamente comovida com a atitude de seu filho naquela tarde, dirigiu-lhe estas palavras, das quais ele jamais se esqueceria:
— Meu filho, quero lhe dizer que estou olhando o panorama, mas de fato estou pensando no prazer que você deu hoje a sua mãe!
— Mas, como assim, meu bem?
— É dos maiores prazeres que você me tenha dado na vida — repetiu ela com ênfase.
— De que maneira isso?
— Eu ainda conservo na retina sua expressão fisionômica, lá no Palácio Tiradentes, procurando-me em meio àquela multidão e me dizendo adeus, alegre e tranquilizado por me ver bem acomodada.
Dr. Plinio, que julgara haver tomado uma atitude comum ao desejar o bem-estar de sua mãe, surpreendeu-se com esta declaração, e disse:
— Mas, meu bem, que tem isto de mais?
— O fato de você se preocupar assim com sua mãe, no momento em que tantas responsabilidades novas começavam a pesar sobre você, quer dizer muito. E até agora estou comovida por esta sua manifestação de afeto filial.
Entre surpreso e contente com a reação de Dona Lucilia, Dr. Plinio osculou-a várias vezes, disse-lhe alguns amáveis gracejos e se retirou. Na verdade, nunca se esqueceria da enternecida figura de sua mãe, fitando-o do alto da tribuna enquanto lhe acenava.

Passados alguns dias, Dona Lucilia retornou a São Paulo, deixando no Rio metade de sua alma... Seu filho ali ficava a batalhar em favor da inserção das emendas católicas na nova Constituição.