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terça-feira, 6 de novembro de 2018

Marcas de um agrado


Eu me lembro, como todo menino, eu fiquei meio abrutalhado, e os meus agrados para ela eram torrenciais, mas abrutalhados.  E eu para agradá-la, batia no braço dela, etc.
Certa feita, no decurso de um almoço em casa de minha avó Dona Gabriela, um participante notou que Dona Lucilia tinha no braço esquerdo uma pequena mancha roxa, fruto evidente de contusão, mal disfarçada por uma pulseira de marfim com incrustação de bronze. Ao lhe perguntarem a causa do inusitado sinal, Dona Lucilia com doçura respondeu: — Foi um agrado do Plinio. Todos deram uma gargalhada, e ela também riu. Alguém lhe indagou então por que permitia da parte do filho tão truculenta prova de carinho. Ela manteve-se séria, séria sem azedume, mas séria. Depois, no fim da refeição, ela respondeu: — Recusar agrado de filho meu, nunca me acontecerá na vida. Desde que não seja o mal, Plinio pode fazer o que quiser.
Compreende-se que uma criança toma isso no coração.
Plinio Corrêa de Oliveira - 21/04/1990
Texto adaptado

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Harmoniosa vida conjugal

Havendo acompanhado por mais de 50 anos o convívio de pais, Dr. Plinio podia dar o testemunho de nunca haver presenciado uma desavença entre eles. Nunca uma palavra áspera ou um levantar de voz, nem tampouco uma bravata ou um gesto de mal-humor.
 “Dr. João Paulo era o mais pacífico e cordato dos homens”, contava Dr. Plinio, “e Dª Lucilia, uma senhora boníssima. Ele morreu com 84 anos e ela, com 92. Portanto, longa vida conjugal.
“Claro, às vezes eles entravam em desacordo e discutiam. Ambos eram pessoas inteligentes, e apresentavam argumentos apertados de parte a parte. Porém, o máximo que acontecia, quando meu pai ficava com os nervos um pouco mais tomados, era ele dizer para mamãe: ‘Senhora, mas esta opinião?!’ Parece que é comum no Nordeste o marido zangado chamar a esposa de ‘senhora’. Não era uma atitude de desaforo, mas quase uma cortesia.
“Por sua vez, mamãe tinha um modo característico de levantar a cabeça e contestar. Usava um penteado em forma de coque, e um certo jeito de movê-lo era sinal de desacordo. Manifestando-se às vezes dessa maneira, ela dizia: ‘Não, João Paulo, eu não acho isso...’
“Acima dessas minúsculas e inevitáveis desavenças, mamãe devotava a seu marido o respeito e a obediência que se deve esperar de uma esposa verdadeiramente católica, de maneira que ela nunca teria feito nada que fosse do desagrado dele.
“A única circunstância em que ele se impacientava — para o bem de mamãe — era quando ela, à medida que foi avançando em idade, em vez de se deitar, ficava rezando até altas horas da madrugada. Como pernambucano, habituado a se recolher cedo, papai assustava-se com aqueles horários tardios, julgando-os prejudiciais à saúde da esposa. Então, quando o relógio batia uma hora, uma e meia da manhã, ele às vezes se levantava da cama e se dirigia até a sala onde ela se encontrava imersa nas suas orações.
“Cena por mim presenciada em diversas ocasiões: papai se detinha um pouco atrás dela; mamãe percebia a presença dele mas não se voltava, continuando a rezar. Ele dizia:
“— O que é isto, senhora?! Já são quase duas horas!
“Ela não se importava, fazia-lhe um pequeno sinal, amável, como quem diz: “Já estou indo”, mas acabava por rezar tudo o que ela queria...

“Às vezes ele retornava, insistia, e mamãe então encerrava suas orações, acompanhando-o para o quarto.”
Continua

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Profundo senso do dever doméstico

Continuação do post anterior
No âmbito da vida de família, Dª Lucilia considerava seu dever proporcionar bem- estar, alegria e elevação de alma ao ambiente para seu marido, e formar os filhos de maneira a serem perfeitos católicos e cumprirem sua missão nesta terra. Para isto, devia marcar o lar doméstico com uma afabilidade e um afeto pelos quais ele se tornasse atraente, e fosse um meio de disputar a influência aos antros de perdição. Além disso, habituar os filhos que tivessem tomado essa tradição, a formar depois as respectivas proles na mesma escola, perpetuando tais costumes ao longo das gerações, porque assim se devia viver.
Ela era recolhida, tranquila, forte e meiga em todas as circunstâncias da vida. Estas podiam mudar, e ela mantinha sempre idêntico estado de espírito, por trás do qual palpitava seu entranhado senso do dever.
Profundamente católica, Dª Lucilia não entendia que a finalidade do homem neste mundo fosse conquistar honras, prazeres, glórias e dinheiro, para se deleitar o mais possível e depois estourar de morto. Havia, sem dúvida, satisfações e tristezas no existir humano. Devia-se, até, tirar partido dos prazeres lícitos para suportar as tristezas. Para ela, porém, a vida era antes de tudo um dever a cumprir, em ordem a formar a própria alma segundo os desígnios de Deus. Ou seja, com vistas à santificação e à salvação eterna.

Dever que ela procurou realizar, de forma exímia, em sua condição de esposa modelar e de extremosa mãe.
Continua

sábado, 23 de julho de 2016

Deveres de esposa

No ano de 1905, o Dr. Antônio Ribeiro dos Santos, conhecido advogado em São Paulo, que havia feito boa fortuna, preocupava-se com o futuro de suas três filhas solteiras. Resolveu ter uma conversa séria com a mais velha delas, Lucilia, então com 29 anos.
— Minha filha, se eu morrer sem você se casar, tocar-lhe-á como herança uma boa quantidade de dinheiro. Você, porém, irá ficando madura, e o casamento se tornará cada vez mais difícil. Ora, aqui há esse moço que está trabalhando comigo, o Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira, que manifesta o desejo de se casar com você. Não dou ordem, mas aconselho que você se case. Ele tem várias qualidades, entre as quais a de pertencer a uma ilustre família de Pernambuco. É sobrinho do Conselheiro João Alfredo (homem famoso naquele tempo, pois fora presidente do Conselho de Ministros do Império, e assinara a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888). Terceiro, é de uma inteligência invulgar, e, portanto, talvez faça fortuna. Insisto, pois, na recomendação de que você aceite a proposta dele.
— Acho que ele é uma pessoa distinta, não tem dúvida, mas eu preciso pensar melhor — respondeu Lucilia.
Dr. Antônio ainda ponderou que o dote a ser levado por ela seria suficiente para o casal encaminhar a vida. Ele era advogado, podia sair-se bem na carreira, e, para ela, casar seria mesmo menos inconveniente do que permanecer solteira.
— Mas penso que talvez fosse melhor eu me tornar freira — volveu Lucilia.
— Bom, talvez... Mas pense bem no que irá fazer. É verdade que casamento traz desilusões, contudo você verá que a vida religiosa as traz igualmente. Reflita com mais vagar sobre o que você deseja antes de decidir.
Lucilia, que nutria um extraordinário encanto e enlevo pelo pai, na mesma hora lhe respondeu:
— Papai, eu sigo cegamente o rumo que o senhor me indicar. O que é mesmo que o senhor aconselha?
— Dado você como é, e como me parece ser o Dr. João Paulo, acho mais acertado casar com ele.
— Está bom, farei conforme os desejos do senhor.
Matrimônio encarado com limpidez de olhar
E a jovem Lucilia cumpriu a palavra. Tornou-se noiva de Dr. João Paulo, e o casamento se realizou pouco tempo depois.
Desde o início, Dª Lucilia encarou o estado matrimonial com saliente candura e limpidez de olhar e, ao mesmo tempo, com elevação de espírito, colocava-se sob o amparo e proteção da Santíssima Virgem para o perfeito cumprimento de seus deveres de esposa e mãe.

 A vida de dona de casa dará maior profundidade ao seu espírito sobrenatural, que tomará contornos mais definidos à medida que problemas, aflições e achaques se multiplicarem. Fiel a seu antigo costume, juntava as mãos, e com os olhos postos no Sagrado Coração de Jesus, implorava, por meio de sua querida Madrinha, Nossa Senhora da Penha, amparo e solução.
Continua

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Preparação para compreender a misericórdia de Maria

Continuação do post anterior
Mas, insisto, era uma correção intransigente mesclada com tanto afeto que não hesito em afirmar ter constituído essa postura de Dª Lucilia uma preparação para eu compreender a superior e insondável misericórdia de Nossa Senhora. Tal ideia se vincou ainda mais no meu espírito quando pude contemplar a imagem da Mãe do Bom Conselho de Genazzano.
Chamou-me muito a atenção a inteira intimidade do Menino Jesus com Nossa Senhora, refletida até no modo pelo qual Ele envolve com o braço o pescoço d’Ela. E essa efusão de carinho me trouxe à lembrança a intimidade que eu tinha com minha querida e saudosa mãe, feita de respeito, cheia de admiração, cumulada de veneração e de ternura, mas verdadeira intimidade.
E mamãe soube ser pequena, afável, meiga, quando eu era ainda um menino em tudo dependente dela. Por isso, desde os primeiros momentos em que comecei a articular palavras, eu a chamei de “mãezinha”, e por não saber falar direito, eu dizia “manguinha”. Seja como for, era já a expressão da ideia do que havia nela de miúdo, de proporcionado ao filho pequeno, de exorável por mim, de compassivo para comigo. Essa era a noção que despertava em mim o contato com a mansidão e a bondade de Dª Lucilia.
Clemência para justos e pecadores
Bondade e mansidão inteiras que me ajudaram a compreender melhor a figura da Mãe do Bom Conselho, que expressa de maneira tão eloquente a infatigável clemência de Maria.
Dir-se-ia fluir da imagem um mundo de misericórdias para a alma boa que a contempla, assim como para a alma do pecador que por Ela não se sente rechaçado nem desclassificado. Pelo contrário, o semblante materno e acolhedor de Nossa Senhora lhe incute ânimo e o faz se sentir amparado. Do olhar da Virgem se depreende um imenso teor de santidade, que convida e encoraja a alma presa de pecados a rezar o “Lembrai-Vos”, a Lhe dizer, gemendo sob o peso de suas culpas, que n’Ela confia e n’Ela espera a salvação. Maria Santíssima se mostra então acessível, e oferece ao pecador o contato com sua insondável bondade.
Entretanto, não sei deveras se eu teria compreendido assim essa manifestação de clemência da Mãe do Bom Conselho, se não fosse o exemplo de bondade séria e de intransigência afetuosa que me foi dado conhecer, ao longo de várias décadas, na pessoa de Dª Lucilia...

Plinio Corrêa de Oliveira - Extraído de conferências em 6/5/1968 e 18/6/1968

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Adaptando-se à vontade dos outros

Pequenas discrepâncias sobre decoração
Até o avant- guerre, o progresso da cultura, o gosto do ornato, o requinte alcançado nos mais variados aspectos da existência, davam à vida uma elevação e um atrativo que os avanços técnicos e materiais da humanidade, nos períodos seguintes, não puderam substituir nem superar.
Tendo Dª Lucilia assimilado o que havia de bom nos usos e costumes daqueles remotos tempos, conservou-os durante toda a vida. Ao considerar, por exemplo, qual deveria ser a decoração ideal de sua própria casa, seguia os critérios de bom gosto dos idos anos de sua mocidade. Por isso, embora seu apartamento estivesse tão apropriado a seu modo de ser, em alguns detalhes ela certamente o teria ordenado de modo um pouco diverso.
Dr. Plinio, sempre desejoso de conhecer as preferências de sua mãe para melhor discernir e amar sua bela alma, estando certo dia a conversar com ela no “Salão Azul”, amenamente perguntou:
— Mamãe, tomando em consideração o gosto de seu tempo, a senhora não estranha nada nesta sala?
— Sim, estranho!
— Mas, o que estranha a senhora?
— Filhão, este arco (que abre o “Salão Azul” para a “Saleta Cor-deRosa”), ficaria mais bonito se tivesse, pendentes de cada lado, uns lindos tecidos antigos, franzidos, à maneira de cortinas.
Para o modo de ver de Dª Lucilia, não era compreensível que aquele arco estivesse desprovido de algum elemento decorativo. As cortinas, além de criar uma divisão psicológica entre as duas salas, dariam mais aconchego ao ambiente e quebrariam a frieza do arco.
Seu filho então afetuosamente lhe disse:
— Meu bem, a senhora não nota que isto tornaria muito fechadinha esta sala?
De fato, Dª Rosée e Dr. Plinio, cujo modo de ser era mais inclinado a ressaltar as grandes perspectivas visuais, haviam preferido sacrificar o imaginado adorno a fim de dar maior amplitude ao salão. Porém, não era assim que Dª Lucilia via o assunto. Suavemente, mas com determinação, ela concluiu:
— De qualquer maneira é uma coisa que não se poderia dispensar!...
Se de um lado Dª Lucilia mostrava essa preferência pelo ornato, por outro sabia encontrar o equilíbrio no gosto pela simplicidade. Viajando pela Europa, Dr. Plinio decidiu comprar uma bela gravura que representa a Duquesa de Nemours. Ao retornar, mandou colocá-la no “Salão Azul”. Para Dª Lucilia, porém, esse quadro, apesar de muito bonito, não fazia falta, pois ali mesmo já havia um fino busto de mármore. Quando apareceu uma oportunidade, durante uma de suas tão apreciadas prosinhas, externou serenamente a Dr. Plinio o seu modo de pensar. Ele respondeu:
— Meu bem, indispensável o quadro não é, mas melhora o arranjo da sala.
— Mas, para quê? Nós vivemos tão bem sem ele...
Manifestando assim, de modo suave, sua opinião, insinuava discretamente sua perplexidade. No entanto, deixava Dr. Plinio à vontade para tudo dispor como achasse mais conveniente. Em todo o caso, por sua grande consonância de alma com seu filho, ainda que não compreendesse as razões de algumas atitudes dele, considerava-as sempre boas. Como de costume, ela estava pronta a renunciar às suas próprias preferências em favor das alheias.
Equilíbrio entre a placidez e a presteza
A facilidade com que Dª Lucilia se adaptava à vontade dos outros tinha como causa sua grandeza de alma. Nada havia que lhe pudesse abalar o ordenado equilíbrio interior.
Aqueles que mais proximamente conviveram com Dª Lucilia nunca a viram ter um só movimento de impaciência, por menor que fosse. Se a vida lhe trazia algum grave revés, como foi o caso do incêndio de um de seus imóveis, ou da doença que a atingira com dores agudas, a confiança na Providência lhe dava o consolo para manter a paz interior sem se afligir com o futuro. E, até no governo da casa, jamais permitia que os diminutos — mas não raro absorventes — problemas domésticos lhe turbassem o espírito, mantendo-se sempre calma como a superfície cristalina de um lago de montanha.
Seu filho, que a acompanhou de perto até o fim de seus dias, pôde afirmar sem receio: “Em 60 anos de convívio com mamãe, nunca a vi ter um capricho”.

Quanta renúncia de si mesma, quanto domínio da vontade não lhe foi necessário, durante sua longa existência, para que alguém pudesse fazer dela esse comentário tão simples, mas testemunho de tão grande equilíbrio de alma!