sábado, 23 de julho de 2016

Deveres de esposa

No ano de 1905, o Dr. Antônio Ribeiro dos Santos, conhecido advogado em São Paulo, que havia feito boa fortuna, preocupava-se com o futuro de suas três filhas solteiras. Resolveu ter uma conversa séria com a mais velha delas, Lucilia, então com 29 anos.
— Minha filha, se eu morrer sem você se casar, tocar-lhe-á como herança uma boa quantidade de dinheiro. Você, porém, irá ficando madura, e o casamento se tornará cada vez mais difícil. Ora, aqui há esse moço que está trabalhando comigo, o Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira, que manifesta o desejo de se casar com você. Não dou ordem, mas aconselho que você se case. Ele tem várias qualidades, entre as quais a de pertencer a uma ilustre família de Pernambuco. É sobrinho do Conselheiro João Alfredo (homem famoso naquele tempo, pois fora presidente do Conselho de Ministros do Império, e assinara a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888). Terceiro, é de uma inteligência invulgar, e, portanto, talvez faça fortuna. Insisto, pois, na recomendação de que você aceite a proposta dele.
— Acho que ele é uma pessoa distinta, não tem dúvida, mas eu preciso pensar melhor — respondeu Lucilia.
Dr. Antônio ainda ponderou que o dote a ser levado por ela seria suficiente para o casal encaminhar a vida. Ele era advogado, podia sair-se bem na carreira, e, para ela, casar seria mesmo menos inconveniente do que permanecer solteira.
— Mas penso que talvez fosse melhor eu me tornar freira — volveu Lucilia.
— Bom, talvez... Mas pense bem no que irá fazer. É verdade que casamento traz desilusões, contudo você verá que a vida religiosa as traz igualmente. Reflita com mais vagar sobre o que você deseja antes de decidir.
Lucilia, que nutria um extraordinário encanto e enlevo pelo pai, na mesma hora lhe respondeu:
— Papai, eu sigo cegamente o rumo que o senhor me indicar. O que é mesmo que o senhor aconselha?
— Dado você como é, e como me parece ser o Dr. João Paulo, acho mais acertado casar com ele.
— Está bom, farei conforme os desejos do senhor.
Matrimônio encarado com limpidez de olhar
E a jovem Lucilia cumpriu a palavra. Tornou-se noiva de Dr. João Paulo, e o casamento se realizou pouco tempo depois.
Desde o início, Dª Lucilia encarou o estado matrimonial com saliente candura e limpidez de olhar e, ao mesmo tempo, com elevação de espírito, colocava-se sob o amparo e proteção da Santíssima Virgem para o perfeito cumprimento de seus deveres de esposa e mãe.

 A vida de dona de casa dará maior profundidade ao seu espírito sobrenatural, que tomará contornos mais definidos à medida que problemas, aflições e achaques se multiplicarem. Fiel a seu antigo costume, juntava as mãos, e com os olhos postos no Sagrado Coração de Jesus, implorava, por meio de sua querida Madrinha, Nossa Senhora da Penha, amparo e solução.
Continua

sábado, 11 de junho de 2016

Carinho extremo...

À primeira vista, dir-se-ia que veneração e ternura são incompatíveis, mas, na realidade, tais sentimentos se confundem a propósito do carinho: sentindo-se objeto do carinho materno, o filho deseja retribuí-lo.
A veneração é a manifestação do grande respeito que um ser inferior presta a um superior.
Em princípio, o superior tem o direito de julgar e punir o inferior. A mãe, embora anciã e sem forças, continua tendo o poder e o direito de castigar seu filho maior de idade. Para um filho que sabe o que é uma mãe, e uma mãe que entende o significado deste título — portanto é mãe no sentido próprio, direto e pleno da palavra —, uma censura, um conselho, um elogio feito pela mãe tem o peso que poucas coisas humanas possuem. Só um elogio, um conselho ou uma censura da Santa Igreja podem pesar mais sobre um homem.
Essa veneração envolve certo elemento que a Igreja, empregando muito bonita expressão, define como temor reverencial; ou seja, o temor que se tem a uma pessoa não tanto devido à força de que ela dispõe, quanto ao respeito que impõe. Então, o temor reverencial que o filho tem para com a mãe parece ser o contrário do carinho. Porque o carinho é de modo especial o afeto que o mais velho, mais poderoso, mais pleno dá àquele que é mais fraco, mais débil.
Veneração, ternura e carinho
Pode-se falar, por exemplo, do carinho de uma mãe para com seu filho. É mais difícil falar do carinho de um filho para com sua mãe. O próprio “inho” da palavra “carinho” tem qualquer coisa que soa aos nossos ouvidos como se fosse um diminutivo, o qual vai bem para quem é mais em relação a quem é menos; e não tão bem para aquele que é menos relativamente a quem é mais.
Na realidade, porém, a veneração e a ternura se confundem completamente, a propósito do carinho. Quer dizer, o filho, sentindo-se objeto do carinho da mãe, tem um desejo de retribuí-lo; o carinho da mãe desperta o carinho no coração do filho.
De maneira tal que um homem poderá ser durante toda a sua vida particularmente bom, misericordioso, condescendente — no bom sentido da palavra — se ele teve uma mãe muito carinhosa. Porque nasce no coração dele o carinho e, portanto, todas as formas de bondade. Ele gosta até de se sacrificar, de fazer alguma coisa difícil por quem merece seu carinho.

Então, o carinho materno jorrando sobre o filho é como a água que cai de grande altura sobre uma pedra. Quanto maior a altura, mais a água sobe de novo ao bater na pedra. Assim é o carinho materno: verte-se sobre o filho e deste como que respingam gotas de água, as quais se pudessem voltariam ao alto. O equilíbrio dessas duas coisas faz propriamente o equilíbrio do homem, porque quando ele só quer impor o respeito dos outros, mas não sabe ser afetuoso, fica faltando algo; e quando apenas é afetuoso, porém não sabe impor respeito, ele não é um homem autêntico, porque o próprio do homem é saber se impor.
Quando o homem impõe respeito e tem carinho, ele possui um equilíbrio semelhante ao do pêndulo de um relógio, que chega a um extremo, vai ao outro extremo, e deste volta para o primeiro, fazendo os ponteiros marcarem a hora certa.
Debaixo de certo ponto de vista, o carinho e a veneração também se equilibram dessa forma: quem chega ao extremo do carinho fica desejoso de venerar; quem atinge o extremo da veneração quer acariciar. Essas duas coisas se completam.
Compreende-se assim que em presença de uma mãe como foi Dona Lucilia, a tendência para a veneração e para o carinho eram enormes. 
Texto extraído dos comentários de Plinio Correa de Oliveira

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Palácio de seriedade materna ( cont )

Continuação do post anterior
O papel da dor
Esse bem-estar da seriedade e da virtude ela levava mais longe ainda, apresentando-o dentro da dor. Porque o aspecto pelo qual a seriedade horripila é por ser um longo corredor à meia-luz, que dá no fundo para um pátio intensamente iluminado, mas que tem no centro a Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Como eu gosto que a cruz exista em nossas sedes: preta e com os instrumentos da Paixão! Porque é aonde a seriedade conduz. Sofre-se e é preciso receber o sofrimento, aguentá-lo sobre os ombros, osculá-lo como Nosso Senhor osculou sua Cruz, e depois carregá-lo.
Isso mamãe fazia de modo exímio, com tanta seriedade, que era uma coisa incrível. Mas uma seriedade tão doce, como se vê naquele quadrinho 1. É, evidentemente, uma pessoa muito sofrida, mas com quanta suavidade! Eu preferiria um ano desse sofrimento a uma hora de nervosismos contemporâneos.
Compreende-se que eu, muito analítico, se não encontrava nela um pensamento explícito — a não ser em forma muito verdadeira, muito respeitável, mas muito doméstica —, entretanto, presenciava um modo de ser que era o dela.
Ao analisá-la, mas milímetro por milímetro, só encontrava coerência, retidões e luzes. É fácil imaginar como isso pode ter-me influenciado.
Fico contente até os bordos se o que eu acabo de dizer os tiver ajudado a compreenderem como vale a pena sair de dentro do picadeiro de circo de cavalinhos do relativismo, da torcida, dos nervosismos e das brincadeiras, para entrar nos sacrários da seriedade.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 7/2/1982
1) Quadro a óleo, que muito agradou a Dr. Plinio, pintado por um de seus discípulos, com base nas últimas fotografias de Dona Lucília.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Palácio de seriedade materna

Segundo a mentalidade revolucionária, a seriedade faz o papel de algemas para o espírito; por isso, é preciso passar a vida brincando. Bem o contrário disso era Dona Lucilia. Convivendo com ela, percebia-se a superioridade, o senhorio e as suavidades da seriedade. 
Vejamos os comentários de seu filho Plinio Correa de Oliveira.
O papel de mamãe em incentivar minha apetência pelo maravilhoso, pelos absolutos, verificou-se mais por seu modo de ser do que pelas palavras. Certamente teve muita importância o que ela dizia, mas isso servia mais para explicitar e corroborar o que ela era, do que pelo valor conclusivo de suas palavras.
Bem-estar na seriedade
É preciso tomar em consideração que Dona Lucilia era uma dona de casa. E acabou tendo um filho superanalítico e superamigo de esgravatar as coisas: “Como é? Como não é? Por quê? Que relação tem tal coisa com tal outra?” Tudo muito explicitamente. É normal; o feitio espiritual masculino é diferente do feminino. E eu gosto de ir ao fundo dos problemas, explicitando como eles se vinculam, se articulam, analisando-os e procurando elaborar um quadro geral. É o pendor de minha alma.
E as palavras cheias de sabedoria e de afeto que ela dizia, analiticamente não possuíam um valor nem a matéria-prima para isso. De maneira que um conselho dela tinha toda a suavidade, toda a importância do conselho de mãe, mas não o alcance da flecha atirada que se crava na meta e fica ainda tremendo. É natural!
Nesse sentido, a ação de Dona Lucilia não pode ser comparada, por exemplo, à que tiveram sobre mim os jesuítas. Eu analisava o que eles diziam, assimilava, me apaixonava e pensava: “Agora, está bem. Vamos para frente!”
Então, com mamãe de que modo isso se dava?
Por ser o espírito dela inteiramente voltado para esse absoluto, havia nela certa forma de estabilidade, de continuidade, de seriedade e de bem-estar na seriedade.
Para as gerações posteriores à minha, a palavra “seriedade” soa um pouco como o termo “masmorra”. A seriedade parece uma prisão.
Impostação da alma de Dona Lucilia face ao Absoluto
Mamãe fazia entender que a seriedade era um Céu. Os mil bem-estares do Paraíso eram os aposentos, os palácios da seriedade. Não que Dona Lucilia dissesse isso, mas convivendo com ela percebia-se a superioridade, o senhorio e as suavidades da seriedade. A alma dela era um palácio de seriedade materna, com todo o valor da palavra materna, nem preciso encarecer.
No modo de falar, de andar, no timbre de voz, nas menores coisas isso transparecia com coerência, com harmonia e sem a menor intenção de se fazer notar. Aliás, no “Quadrinho”1 vê-se bem: no modo dela estar ali transparece toda a seriedade, mas também a paciência, a bondade, a dignidade. Mas tudo resultava dessa impostação da alma face ao Absoluto.

É inútil dizer que tudo isso eu notava, e concorreu muito para evitar que argumentos brumosos, lançados pela Revolução contra a seriedade, tomassem corpo no meu espírito: “A seriedade é igual à carranca, à malevolência, à ausência de psicologia, é como algemas para o espírito, não se pode suportar, etc.” Para essa mentalidade, viver ou é brincar ou fica-se sufocado. Portanto, é preciso estar sempre brincando. Mil coisas horríveis como essas, a presença de Dona Lucilia já descartava como pressupostamente erradas.
Continua no próximo post.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Incomparável intérprete da Santa Igreja (cont)

Continuação do post anterior
Intransigente quanto aos princípios
Dela também aprendi a intransigência, pois ela a tinha muito. Sua irmã mais nova, chamada Zili, costumava dizer que ela era uma “teimosa mansa”. Nunca ela era teimosa com coisas pessoais, pois quando era algo de interesse próprio ela cedia com toda facilidade. Porém, quando se tratava de defender um princípio, ela era implacável!
Mestra da admiração ao próximo
Também ela me ensinou o modo de admirar as pessoas. Era muito raro ela fazer um comentário malévolo em relação a alguém. Criticar alguém por ter adotado uma posição revolucionária era muito incomum; via-se que ela tomava atitude de descontentamento, mas só a vi criticar alguém quando era para abrir meus olhos ao mal que essa pessoa poderia me fazer.
Nobilitada pelos sofrimentos
Dentre todos esses exemplos que via nela, o que mais estava acentuado era sua atitude diante da dor.
Sua vida foi muito cheia de sofrimentos. Já moça, tardou muito em se casar; o normal era que toda moça se casasse, e cedo.
Ela temia que, morrendo o pai dela, a vida da família toda mudasse e ela ficasse como uma solteirona, o que naquele tempo era uma coisa inconcebível. Ela chegou a pensar em ficar freira, mas ela não tinha verdadeira vocação religiosa. Meu avô disse isso a ela, mas deixou-a livre para escolher. Mas a confiança que ela possuía no pai fazia com que sua opinião fosse decisiva.
Após ter se casado, durante muito tempo viveu entre a vida e morte, a tal ponto que teve que ir à Alemanha para submeter-se a uma dolorosa e arriscadíssima operação. Diante de todos os sofrimentos, ela aceitava a dor como sendo um fator que enobrece a vida. Para ela, quem não sofreu não viveu, pois o normal da vida é sofrer, e fazê-lo com paz, suavidade e ânimo. Ser derrotado nos acontecimentos da vida não é nada se, dentro desses acontecimentos, se toma as atitudes que devia, enfrentando-os sem se incomodar. A aceitação desses sofrimentos, de fato, trouxe para ela uma extraordinária nobilitação, dando-lhe, no fim da vida, o aspecto de uma matriarca sumamente venerável, respeitável e doce, que encantava todos que a conheciam.
Perfeita contrarrevolucionária tendencial
Outro aspecto da formação que recebi de Dona Lucilia é o seguinte: por causa dessa elevação de alma dela, eu me dei conta de que se eu aceitasse qualquer dos postulados da Revolução, que iam surgindo, eu tomaria, pela lógica que há nas coisas, uma posição de alma contraria à elevação de espírito dela. Ainda quando se tratasse de matérias, princípios e problemas que ela nem sequer conhecia. Mas a alma dela era tal que, como que, vivia por cima de toda esta temática, e embora não a conhecesse inteiramente, por eminência continha a Contra-Revolução.
Desta forma era incompatível com aquela elevação que havia na alma dela quem aderisse à Revolução; e mesmo quando se aceitasse somente algumas de suas teses, isso pressupunha uma fratura com o estado de espírito de Dona Lucilia. Vista por esse ângulo, a Contra-Revolução estava presente nela.
Esta elevação de espírito que havia em Mamãe teve grande papel no fato de eu rejeitar as tendências revolucionárias que surgiam.
No campo das ideias nunca vi Mamãe aceitar uma posição revolucionária, mas ela não as compreendia com toda a profundidade, mas tendencialmente Dona Lucilia foi profundamente contrarrevolucionária.  

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 29/11/1981

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Incomparável intérprete da Santa Igreja

Dona Lucilia agia nas tendências de seu filho de maneira que, mais tarde, este pudesse explicitar a verdade. Vejamos uma descrição dada por seu filho Plinio Correa de Oliveira.
Quando meus olhos começaram a se abrir para a Igreja Católica, pelo favor de Nossa Senhora, vi desde logo que ela era divina e infalível, e aceitei-a como tal.
Nessa compreensão Dona Lucilia teve um importante papel, pois percebendo inúmeras afinidades entre a alma dela e o espírito da Igreja eu compreendi muita coisa da Igreja por aquilo que eu conhecia de Mamãe.
Também logo se tornou claro em meu espírito que o padrão da verdade não era Mamãe, mas sim a Igreja. Porém, muitas das explicações sobre a Doutrina da Igreja eu entendia porque interpretava à luz do que eu via em Dona Lucilia e aprendia dela. Quer dizer, ela foi uma intérprete incomparável da Igreja para mim. das mães, o qual ela cumpriu eximiamente.
Cumprido o maior dever de mãe
Minha seriedade de alma se deve em larga medida a ela. Caso eu não tivesse conhecido a Igreja, eu teria jogado isso tudo pelo caminho. Pois foi a Fé que me robusteceu nisso, espero em Nossa Senhora que definitivamente.
Mas, se a Fé teve tanta eficácia foi porque — como uma mãe ideal — Dona Lucilia preparou-me de modo incomparável para recebê-la. Este é, segundo a Doutrina Católica, um dos mais importantes deveres das mães, o qual ela cumpriu eximiamente.
Modelo de verdadeira amizade
Dentre as inúmeras coisas que aprendi dela, estão as seguintes: A prestatividade é um dos sinais da amizade, mas não é sua substância. A substância da amizade é a atração cheia de benevolência, produzida pela semelhança. Semelhança que deve ser segundo Deus, do contrário é inútil. Esta semelhança produz uma afinidade e uma benevolência que se explicam pelo princípio: “omnes ens apetit sum esse” — cada ser ama seu próprio ser — e, portanto, ama aquilo que é semelhança dele. Esta benevolência comporta uma ternura e um afago que levados a fundo, como era levado entre ela e eu, podem chegar a um grau supereminente que desabrocha em compaixão e paciência.
A compaixão, por sua vez, leva à contemporização e ao perdão. Foi por ela que Santa Mônica, apesar dos maiores desatinos do filho, não deixou de querê-lo bem e esperar seu retorno como o do filho pródigo. Essa benevolência, não basta descrever teoricamente para compreendê-la; é preciso tê-la sentido.
Não pude deixar de lembrar-me de Mamãe quando li a afirmação de que Santa Teresinha considerava a amizade uma coisa tão séria que uma vez que ela a tinha dado a uma pessoa ela não rompia nunca. Ainda quando o outro lado rompesse, ela conservava suas disposições benévolas intactas, para o caso de o outro lado abrir-se de novo.
Essa longanimidade e paciência existiam em Dona Lucilia num grau inimaginável. Nela eu nunca vi cólera, ressentimento, desejo de vingança, alegria pelo mal ocorrido a alguém que a tivesse feito algum mal individualmente. Pelo contrário, o que sempre notei nela era uma completa equanimidade, não só para com as pessoas que tivessem feito mal a ela, mas também — o que para ela era mais grave — para os que tivessem feito mal a mim.
Se alguém tivesse relações muito respeitosas e cordiais com ela, mas cometesse contra mim as maiores injustiças, e depois a procurasse, ela o trataria como tratava na véspera: com tristeza, manifestando-se triste com ele, mas com o mesmo espírito afável, bondoso e acolhedor.

Este seu estado de espírito era tal que creio que se hoje, por absurdo, essa pessoa passando diante da sepultura dela encontrasse alguém rezando lá e lançasse contra ele toda espécie de injúria, eu não tenho a menor dúvida de que ela pediria a Nossa Senhora que desse uma graça e tocasse a alma dele. Chegando até este extremo de, com muita tristeza, mas com meiguice, ainda querer advogar a causa dele.
Continua no próximo post

domingo, 22 de março de 2015

Séria para com o filho

No dia de minha formatura na Faculdade de Direito, ocasião em que  os estudantes usavam fraque e cartola para a cerimônia, lembro-me de  um fato que me impressionou profundamente  pela  seriedade  de  Dona Lucilia. A formatura realizou-se  no prédio da faculdade. As famílias  dos que se formavam compareciam  inteiras ao salão nobre, grande e de  boa aparência, da própria faculdade,  para a realização de tal cerimônia.  Todos os docentes com becas, numa  atitude muito solene. Eram chamados, um a um, os vários alunos, e entregava-se o diploma. 
Tive eu também que mandar fazer meu fraque. Entretanto, por não  considerar nada agradável o fato de  experimentar as novas roupas, para  que o alfaiate com alfinetes e giz pudesse tomar as medidas correspondentes, adiei um tanto a encomenda  do fraque.
Resultou daí que o alfaiate prometeu aprontar o fraque para o dia  estrito da formatura, e não para os  dias anteriores, como se costuma fazer.
Na manhã do dia da formatura, o  fraque ainda não estava pronto. Mamãe não me indagou, e também eu  evitei estar próximo dela, pois certamente  ficaria  muito  apreensiva  caso soubesse que o fraque não estava pronto. Particularmente, a formatura não era o que mais me preocupava, pois já possuía o título e podia  advogar.
Não vem o seu fraque?
Entretanto, não era desta forma  que ela considerava o fato. Sendo a  formatura  uma  grande  solenidade,  elevada, ela entendia que todos deviam prestigiar e, portanto, também  eu tinha obrigação de estar presente  em tal evento. Dar à formatura uma importância secundária não era uma  atitude séria. 
Resultado: ela com certa angústia  perguntou-me:
— Mas não vem o seu fraque, filhão?
— Mamãe, o fraque já chega. A  senhora  pode  entrar  no  automóvel  com minha irmã e meu pai, e seguem  para a Faculdade de Direito. Eu os  alcanço lá.
Notei  que  ela  não  ficou  muito  agradada, entretanto não podia fazer outra coisa. Achou melhor, então, dirigir-se para a faculdade a fim  de arranjar um lugar para sentar-se,  pois ela padecia um incômodo nos  pés, devido a sua idade, que lhe impedia de permanecer em pé por muito tempo. Então, seguiu.
Por longo tempo esperei, porém  o fraque não chegava. O que acontecera durante esse tempo, nem sequer cheguei a imaginar.  po da volta e das comemorações, ela  permaneceu inteiramente normal.
Aparente normalidade
Afinal de contas o fraque chegou.  Eu  vesti  depressa,  tomei  um  automóvel e rumei para a Faculdade de  Direito. Quando lá cheguei — a sala da formatura era um pouco longa  —, achei pelo ambiente que a cerimônia estava terminando. Fui apressadamente até à entrada da sala para  ver se ainda chegava a tempo. Quando entrei, o secretário da faculdade,  que lia os nomes dos alunos, estava  no  penúltimo  nome.  O  último  nome seria o meu, pois eles haviam me  chamado, mas como não respondesse, deixaram-me então para o fim.
Afinal,  apresentei-me  e  ele  chamou:
— Plinio Corrêa de Oliveira.
— Presente! Dona Lucilia fitou-me, com olhar alegre, enquanto fui até a frente para receber o diploma. Dirigi-me então até ela para receber seus cumprimentos, como também da família toda, e saímos. Durante todo o tem-

Pelo amor de Deus, nunca repita isso
Ao chegar em casa, Mamãe voltou-se a mim dizendo:
— Plinio, precisaria dizer uma palavra a você em particular. Venha comigo ao meu quarto.
O quarto dela, porém, era na parte  mais  interna  da  casa,  depois  de  um  corredor.  Era  um  apartamento  que ela possuía ali.
Eu a segui, e ela nada me disse,  mantendo um ar de normalidade. Tive o receio de que fosse algum drama de família, ou algo semelhante.  Entrei, ela fechou a porta a chave, e  permaneci  intrigado  por  desconhecer a razão daquele ato. 
Então, Mamãe ajoelhou-se diante de mim, atitude que nunca tomara na vida. O contrário é normal, o  filho por uma razão especial ajoelhar-se diante de sua mãe para receber a bênção dela, por exemplo.  Mas uma mãe ajoelhar-se diante do  filho, dir-se-ia que não tem propósito.
Então,  compreendi  profundamente  como  ela  tomava  a  sério  as  menores coisas da vida.
Ajoelhada diante de mim, Dona  Lucilia disse o seguinte:
— Pelo amor de Deus, mas pelo amor de Deus, você tem de prometer que nunca virá a repetir um  atraso como este. Seja pontual nas  coisas,  e  faça  tudo  com  compenetração.
— Mas mamãe... A senhora me vê  chegar sempre um tanto impontual e  nunca fica apreensiva, até um ou outro brinca comigo diante da senhora,  a senhora sorri e não se incomoda —  os parentes brincavam muito comigo porque eu vivia atrasado — e nesse caso a senhora vai tomar a sério?  Meu bem, levante-se — e quis ajudá-la a levantar.
— Não me levanto enquanto você  não me prometer.
— Mas não posso prometer uma  coisa  dessas,  pois  é  uma  mudança  completa nos meus hábitos. Faz parte de meu temperamento deixar que as coisas fluam, sem me preocupar.
Depois  disse  para  ela,  pois  era  uma forma de fazer um amável gracejo:
— É meu sangue Ribeiro dos Santos que faz isso.
Ribeiro dos Santos era a família  dela.  Então,  dava  a  entender  que  era  herdado  da  família  dela.  Eu  disse com respeito e até com carinho, mas disse. Entretanto, ela me  respondeu:
— Ou você me promete, ou nunca  mais eu quererei obrigar você a fazê-lo...
—  Então,  faremos  uma  coisa.  Prometo à senhora que em todas as  ocasiões graves e gravíssimas nunca  me atrasarei. Porém depois a senhora me explica a razão pela qual não  devo me atrasar.
—  Durante  todo  o  tempo,  sua  irmã  e  eu  ficamos  na  aflição  de  que  um  automóvel  houvesse  se  chocado com você pelo caminho,  deixando-o morto ou esticado numa esquina. Isso por você ter atrasado a encomenda de um fraque.  Está errado, você não deveria agir  dessa forma.
Sempre as consequências mais profundas
Eu a acariciei e prometi que nas ocasiões de grande gravidade jamais  me atrasaria.
As circunstâncias ou a Providência quiseram algo diferente. Eu sofri um desastre de automóvel — dirse-ia que talvez ela previa esse perigo —, porém tal fato não se deveu a  atraso  nenhum.  Lembro-me de ter chegado à  hora,  para  embarcar  no  automóvel, então ele seguiu seu curso; o desastre ocorreu por outras razões.
Então, eu compreendi como Mamãe discernia nas coisas suas consequências mais profundas, o mal que  podiam  produzir,  e  como  se  devia  evitá-lo.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 1/ 7/ 1995