terça-feira, 19 de novembro de 2013

O afeto de uma mãe

Vejamos pelas palavras de Plinio Correa de Oliveira alguns aspectos da bondade de Dona Lucilia.
Um dos predicados morais de Dona Lucilia que mais me tocava e estreitava minha união com ela era sua compaixão. Em diversos episódios e circunstâncias me era dado notar a ternura de mamãe para comigo e o modo como considerava as necessidades de uma criança, máxime sendo filho dela. A fragilidade daquele ser pequenino despertava em seu coração materno um desejo de proteção, ao lado de uma compreensão íntima, pormenorizada e delicada das carências próprias às condições de um menino.
Compassiva nas doenças do filho
Ela percebia bem como eu mesmo sentia as minhas debilidades, e me acompanhava com um olhar solícito, como quem diz: “Essa é a trajetória de todo homem. Mas, é natural que um homem tenha uma mãe, e que esta seja toda ternura para ele. É conforme à lei da vida que as coisas se passem assim; você deve se sentir compreendido em tudo e não ter nenhuma espécie de amor próprio falso que lhe faça esconder de mim a sua debilidade. Pelo contrário, coloque-a em minhas mãos, que eu tratarei dela”. Essa disposição me era manifestada com um sorriso cumulado de afeto, e da promessa de que ela atravessaria comigo aquele caminho semeado de dificuldades.
De maneira especial, a compaixão de Dona Lucilia se mostrava inteira quando eu adoecia. Nessas circunstâncias, seu desvelo e seu carinho eram levados ao extremo, com uma preocupação inteira por causa de minha doença. Eu, sempre observador, não deixava de considerar sua atitude ao entrar no meu quarto nas pontas dos pés, sorrindo, com um copo de remédio de homeopatia nas mãos, e dizer-me: “Filhinho, chegou a hora de tomar o medicamento”. Na verdade, era a consolação de minha alma tê-la ali perto, e a presença dela compensava a dor que eu sofria.
Como se sabe, as analogias na cabeça de uma criança são vivazes, e eu fazia correlação entre o refrigério da água com que eu tomava o remédio e a bondade de mamãe. Pensava: “Ela é para mim o que esta água é para meu corpo doente — um refrigério. Sinto o meu espírito refrigerado na companhia dela”.
O mesmo desvelo na maturidade de Dr. Plinio
Essa compaixão manifestou-se invariável ao longo de toda a vida dela. Por exemplo, quando eu já era homem feito e formado, morávamos numa casa na Rua Itacolomi, onde tive uma indisposição física muito forte. Mamãe, num tom afetuoso e inquiridor de quem havia percebido, me perguntou:
Filhão, você está indisposto, não é?
Meu bem, realmente estou, mas prefiro não recorrer aos seus médicos. Eu não gostaria de dizer “não” à proposta da senhora de chamar algum deles, mas sobretudo não quero dizer “sim”.
Ela, com sua calma característica, aproximou-se de mim e colocou a mão sobre minha testa, e só aquele contato o frescor de sua mão me transmitiu alívio e tranquilidade. Disse-me: “Você está com febre”. E eu pensei: “Agora ela vai colocar o termômetro e este indicará 38°, 39°. Mamãe ficará preocupada e eu vou me meter em uma engrenagem que não me agrada em nada”. Ela pôs o termômetro e, após alguns minutos, verificou a temperatura.
Não é nada. O que você quer fazer meu filho?
Meu bem, quero ganhar tempo, deitado e tranquilo. Então, ela trouxe uma cadeira do quarto, colocou-a próximo à minha cama, sentou-se e começou a rezar. Ali permaneceu durante horas, até anoitecer. Em certo momento, eu disse:
Meu bem, estou com muita fome e a senhora vai querer que eu coma algo.
Diga o que você quer que sua mãe traz.
Ela mesma foi preparar o que eu pedi, serviu-me, conversamos um pouco, e quando nos despedimos ela me disse, no mesmo tom de carinho e solicitude: “De outras vezes, você não esconda nada de sua mãe, porque ela percebe e não vai lhe impor coisa alguma”.
Só então eu percebi como ela não considerava bagatela aquela minha indisposição. Entretanto, a rogos de Nossa Senhora, a Providência me favorecera com boa saúde e na manhã seguinte eu já estava recuperado. Assim que me levantei, fui ao quarto de mamãe para cumprimentá-la, tranquilizá-la e agradecê-la pelos cuidados da véspera. E retomamos a vida comum de todos os dias.
Porém, ficara-me a certeza de que, se a doença se agravasse, o desvelo dela se desdobraria até o fim.
Extraído de conferência 11/1/1982

sábado, 9 de novembro de 2013

Suavizante bondade

Entre os edificantes aspectos da pessoa de sua mãe, Dr. Plinio apreciava a elevada clave de espírito em que ela se situava e da qual provinham seu afeto e sua benevolência, tão atraentes quanto consoladores. Na verdade, Dona Lucilia procurava, habitualmente, considerar todas as coisas em função do parâmetro absoluto que é Deus.
Quando menino de 2 ou 3 anos acordava durante a noite e saía do meu berço — colocado ao lado da cama de Dona Lucilia — para ir me sentar sobre o peito de mamãe. Abria seus olhos com a mão e começava a analisá-la.
Líquidos de sabores semelhantes em taças distintas
Creio que, instintivamente, conforme os rudimentares anseios de uma criança nessa idade, eu percebia através do modo como ela então me tratava, a expressão de uma bondade superior, arquetípica, cuja manifestação me apareceria mais tarde, quando me fosse dado compreender a misericórdia do Sagrado Coração de Jesus para conosco.
Essa afinidade entre a bondade e a compaixão infinitas d’Ele com as de mamãe sempre me chamou a atenção. Aos olhos de menino, essa consonância poderia ser comparada a duas taças a mim oferecidas, com líquidos cujos sabores me pareceriam análogos. Eu tomaria de uma e me deliciaria com seu conteúdo; pouco depois, beberia da outra, e igualmente me sentiria agradado, sem chegar à conclusão de que era o mesmo líquido.
Claro está, devem-se guardar as proporções entre o finito e o infinito. Assim, ao conhecer o Sagrado Coração de Jesus, discerni n’Ele o perfeitíssimo a perder de vista, sem nenhuma ressalva ou restrição, o suprassumo do que se podia conceber em matéria de misericórdia e bondade. Entretanto, afim com a bondade de mamãe, embora incomparavelmente menor, como se Ele vivesse nela. De sorte que o maravilhamento causado em mim por Dona Lucilia, de modo mais circunscrito, era do mesmo gênero que o superior encanto produzido pelo Coração de Jesus na minha alma. Aquele era derivação deste. E quando, anos mais tarde, cheguei à conclusão de que eram coisas afins, não tomei essa definição como uma conquista nem como uma surpresa, e sim como uma constatação natural do que eu sempre sentira. Eram taças com líquidos parecidos.
Em qualquer parte do mundo ela me atrairia!”
Parece-me interessante notar que as descrições feitas por pessoas que conheceram mamãe, correspondem minuciosamente à essa impressão que ela me causava. E corroboram em mim a certeza de que, em qualquer parte do mundo onde nos encontrássemos, eu seria atraído por Dona Lucilia.
Diversas vezes, durante o nosso longo convívio, me pus este problema: qual seria o teor deste relacionamento, caso eu não fosse filho dela, mas sobrinho? E concluía que só não seria idêntico pela razão de não estarmos continuamente juntos, sob o mesmo teto. Quanto ao mais, não haveria diferença.
E se ela fosse uma pessoa que eu conhecesse noutro ambiente da sociedade paulista? A mesma resposta. Em qualquer lugar, eu teria sido conquistado pelo olhar dela, pelo seu modo de ser, e teríamos estabelecido uma amizade inabalável. E me agradaria pensar que tais sentimentos fossem recíprocos.
Daí o meu trato com mamãe se traduzir em manifestações as mais carinhosas possíveis. Chamá-la de “meu bem” a todo momento era o mínimo que eu lhe dizia, de tal maneira nossa união era completa, natural, constante. Mais que união, era uma identidade.
Reflexo da clemência de Nossa Senhora
Essa relação baseada no afeto e na bondade teve um importante papel na minha compreensão acerca da insondável misericórdia de Nossa Senhora para com os homens, especialmente para com os pecadores. Quando eu próprio me senti objeto dessa clemência da Mãe de Deus, foi como se Ela me dissesse: “Eu perdôo tudo, e por mais que você cambaleie e se apresente a mim nesse estado de penúria espiritual, terei pena e o perdoarei”. O sentir essa disposição maternal determinava em mim a idéia da proteção e do afago desinteressados de Nossa Senhora para comigo: a misericórdia d’Ela sobrepuja os últimos limites de minha miséria, cobre-os com sorriso, com ternura, com sobras de complacência, só porque eu sou o Plinio... Ora, em grau menor, eu sentia análogas disposições de mamãe em relação a mim. Portanto, sem eu saber, ela preparava meu espírito para compreender a extraordinária misericórdia de Nossa Senhora. Quiçá eu não a tivesse entendido como a entendi, não fosse esse contato prévio com o afeto de Dona Lucilia.
Ungido pelo perfume da bondade
A par dessa profunda analogia com a ternura de Maria Santíssima, eu apreciava em Dona Lucilia a elevada clave de espírito em que ela se situava e a partir da qual nos dispensava suas manifestações de afeto e benevolência. Na verdade, mamãe procurava habitualmente considerar as coisas em função de algo mais alto, em função do parâmetro absoluto que é Deus, assim como procurava atraí-las para essa elevação de alma.
De maneira que me sentia a mim mesmo sendo visto desde essa clave, e quando Dona Lucilia me agradava, era algo desse patamar que descia sobre mim, e como que me ungia. Por exemplo, quando ela me fazia o sinal da Cruz na testa, antes de ir dormir, eu percebia que alguma coisa daquela alta clave me recobria como um azeite, um bálsamo, e me fazia bem. Mas, no sentido próprio da palavra: era perfumado, suavizante, e penetrava em mim como o óleo penetra no papel.
Junto com essa elevação, a bondade invariável para comigo e para com os outros. Revestida de uma certa tristeza, igualmente comovedora, por constituir um ápice de conúbio com aquela clave elevada, na qual ela muitas vezes se sentia só: “Moro nesse patamar, que é o lugar do meu abandono. Convido-os para estarem comigo e desejo sua companhia. Porém, se não vierem, aqui permanecerei sozinha.”
Supérfluo dizer que essas qualidades de Dona Lucilia falavam imensamente à minha alma de filho...
Plinio Correa de Oliveira - Transcrito de conferência em 4/12/1985

sábado, 2 de novembro de 2013

Alma feita de harmonias

Calma dentro da apreensão, serenidade no repreender, convicção firme nos princípios. Em Dona Lucilia, todo o equilíbrio de alma era profundamente católico, como nos descreve Dr. Plinio ao recordar as suaves atitudes de sua mãe perante o cumprimento do dever.
Dona Lucilia possuía seu modo peculiar de corrigir os filhos, e na sua forma de nos repreender agradava-me constatar o equilíbrio entre a firmeza e o afeto, o carinho entristecido e condicionado, como se dissesse: “Se deixar de ser bom filho, não deixarei de lhe querer bem, mas será em outros termos”.
Com voz aveludada...
Quando havia necessidade de me censurar, ela me chamava, passava a mão pela minha cintura, fitava-me de frente com seus olhos castanhos bem escuros, e me perguntava:
Meu filho, é verdade que você fez tal coisa errada?
Diante de minha confissão, mamãe prosseguia numa análise inexorável do meu mau procedimento, e demonstrava por “a + b” tudo quanto aquela ação tinha de ruim. E ela o dizia com o timbre de voz aveludado, nunca estridente, pelo qual percebia-se a sua tristeza em nos fazer sentir a reprovação que aquilo merecia. De maneira tal que eu acabava compreendendo quanto era justa a repreensão, e com esta me tornava consoante. Terminado o pito, Dona Lucilia acrescentava:
Agora peça perdão à sua mãe. Eu pedia perdão, osculava a testa dela e, envolvido naquele carinho, saía de junto dela como se tivesse ganho uma indulgência plenária...
Cumpre salientar, aliás, que se eu deixasse de merecer essa forma de ternura materna para comigo, sobretudo quando era corrigido, eu perderia certa comunhão de alma com Dona Lucilia, a qual não desejava absolutamente perder. E mamãe me tornava isso presente.
Equilíbrio entre calma e apreensão
Essas composições e harmonias na alma de Dona Lucilia se manifestaram sempre ao longo do nosso extenso convívio. O que se pode constatar através das fisionomias dela registradas em muitas fotografias.
Por exemplo, diversas vezes eu a vi perplexa, mantendo o semblante imóvel, sem franzir a testa, como se ela se ausentasse da própria face. Esta permanecia impassível, e o olhar posto num ponto indefinido no ar, enquanto sua alma considerava suas preocupações. Em certos momentos ela balanceava a mão, de maneira discreta.
Percebia-se, então, como no espírito de mamãe estavam presentes os princípios, a gravidade, a imobilidade e a perplexidade, perguntando-se ela, a cada instante, como agir e como conduzir de modo acertado o curso das coisas. Conservando sempre o equilíbrio entre a calma e a apreensão: “Pode ser que algo não corra como espero. Não desejo o resultado desfavorável de nenhum modo, exceto se for inevitável. Vejamos a situação com serenidade, sem aflições desnecessárias. Se não der certo, Deus é Pai, e Nossa Senhora é minha Mãe; permitirão o melhor para mim.”
A meu ver, essa calma dentro da apreensão constitui um belo estado de espírito que eu pude observar em Dona Lucilia, assim como outros que se compunham na alma dela, à maneira de ogivas.
Dificuldade do homem moderno em obedecer
Nesse sentido, chama particularmente a atenção em certas fisionomias de mamãe a conjunção entre a amenidade, a afabilidade e a intransigência nos princípios que a norteiam. E essa harmonia nos causa especial comprazimento. Por quê?
Talvez a maior dificuldade existente no homem concebido no pecado original venha a ser que, em determinado momento, pronuncia-se nele um pendor oposto ao dever. E essa inclinação em geral é para o agradável, pois ninguém se sente atraído para o dissabor. Assim, quando o pendor se anuncia, apresenta-se com o aspecto de uma atração deleitosa, não raro enfática, acompanhada de uma espécie de cegueira por onde a pessoa não discerne claramente o mal encerrado naquilo que a seduz.
Ora, posto nesse estado de atração, não há nada que o homem mais deteste do que ouvir a repreensão, baseada na Lei de Deus. Ele não quer ouvir falar em virtude, em obediência aos Mandamentos. Não quer, e não os pratica, pois a virtude só é verdadeiramente virtude quando a pessoa age por persuasão, convicta do que não deve fazer. De tal maneira que esteja vincado no seu espírito essa resolução: “Ainda que eu não veja porquê, sendo uma disposição da autoridade competente, não posso transgredir a Lei de Deus; devo obedecê-la. Ele tem o direito de mandar em mim, e agirei de modo acertado se tiver gosto e alegria em acatar suas disposições, ainda que não as entenda.”
Eis um elemento de virtude indispensável, sem o qual não há virtude autêntica. E é o que vai desaparecendo do espírito do homem moderno.
Cumprindo seu dever com a Lei de Deus
Donde o comprazimento em notar na alma de Dona Lucilia essa convicção de princípios, essa forma de firme obediência aos preceitos divinos. Ao lado da doçura acolhedora, a certeza: “Há uma lei à qual estou sujeita; quero obedecê-la e quero que seja obedecida pelos outros. Portanto, cumprirei esta lei e só terei a plenitude de minha concórdia para quem igualmente a cumprir. Eu tenho o direito de fazer conhecer essa Lei, e um dever especial de simbolizá-la. Se não gostarem...”
Mas, percebe-se que ela tinha imenso desejo de que os outros gostassem, a fim de mais seguramente glorificar a Deus e fazer bem ao próximo. Um imenso desejo!
Seria, pois, um equívoco interpretar a fisionomia de mamãe em certas fotografias, tão amena, tão atraente, tão afável, assim: “Façam o que quiserem...” De modo algum. A afabilidade não se confunde com o relaxamento nos princípios. A firmeza nestes se conjuga com aquela e resulta num equilíbrio de alma que eu não hesito em chamar de católico.
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência em 23/3/1982


sábado, 26 de outubro de 2013

Esmero no escolher presentes para os filhos

Dona Lucilia cuidava dos assuntos de casa, conferindo-lhes aquela sua nota característica de bondade e delicadeza de alma.
Por exemplo, quando preparava os presentes de Natal para os dois filhos, em geral brinquedos comprados nas melhores lojas do gênero então existentes em São Paulo. Até atingirmos certa idade, mamãe costumava pedir à nossa governanta, Fräulein Mathilde, que nos levasse a essas lojas e nos fizesse escolher os nossos brinquedos favoritos, dizendo-nos em seguida: “Agora rezem a São Nicolau, e peçam a ele que lhes traga esses presentes”.
Claro, crianças que éramos, acreditávamos naquela afetuosa combinação, e nos dirigíamos à loja de brinquedos contentes e ansiosos, esperando que São Nicolau nos fosse favorável. No dia de Natal, nossa alegria era completa ao vermos que tínhamos sido atendidos . . .
Mas, além desses presentes, mamãe se comprazia em confeccionar, ela mesma, outros brinquedos para nós, especialmente para minha irmã, pelo fato de ser mais fácil elaborar algo que agrade a uma menina. Lembro-me, por exemplo, de vê-la trabalhar num enfeite para abajur que era uma espécie de guirlanda formada por figuras femininas de mãos dadas, como se fossem várias meninas dançando ao som de uma música em torno, digamos, de um chafariz.
Essas silhuetas eram inspiradas em gravuras que mamãe colecionara de revistas brasileiras ou de figurinos franceses. Depois de as recortar e colar, ela ainda as pintava com purpurina, dando relevos dourados e outros adornos. Por fim, decorava o abajur e dava de presente à filha. Aquilo lhe tomara tempo e empenho, às vezes até altas horas da noite, mas era de admirar a perfeição e o cuidado com que mamãe se entregava à tarefa . E, a meu ver, o melhor dessa perfeição estava no fato de que, com o passar do tempo, as figuras perdiam aderência no abajur, se descolavam, caíam, e o objeto tornava-se feio. Dona Lucilia então se desfazia de tudo: “Acabou-se, não tem mais beleza, e a perfeição agora consiste em pensar noutra coisa. Isso fica para o passado. Pensemos no futuro”.
Sempre o melhor possível
Quer dizer, desde o mais delicado e mais carinhoso, até o mais firme e mais decidido, mamãe procurava fazer tudo do melhor modo que lhe fosse possível . Outro exemplo é a maneira como ela se dispunha a animar a vida de família. Vivíamos em casa de minha avó, mãe dela e matriarca dos Ribeiro dos Santos, numa dependência especialmente reservada para nós. Contudo, em se tratando de uma casa muito grande, era natural que mamãe se dedicasse a ajudar vovó nos cuidados domésticos, supervisionando os criados, a manutenção da despensa, verificando as contas e coisas do gênero.
Além disso, com o auxílio da Fräulein, ela costurava e fazia certas peças de roupa para nós, não por se sentir obrigada, mas porque gostava e desejava, por afeto, que usássemos algo confeccionado por ela. E com razão: uma coisa é o filho usar uma gravata comprada na loja, outra é envergar aquela cortada com carinho por sua mãe. E tudo levado a cabo com tal capricho que pensávamos: “Não era possível fazer, nesse caso, nada melhor do que ela fez”.
Sejamos perfeitos como Deus é perfeito
Esse anelo de perfeição era tão característico de mamãe que eu, acostumado a pôr-lhe apelidos — sempre respeitosos e afetuosíssimos —, durante algum tempo a chamei de Lady Perfection, isto é, Senhora, Madame ou Dona Perfeição . E quando eu me referia a ela por essas alcunhas carinhosas, ela demonstrava grande contentamento . Diante do quê, meu pai, homem de muito bom gênio, olhava para ela e dizia, arremedando o sotaque português:
Não te derretas . . .
Queria observar, com esse gracejo, que ela por pouco não se desmanchava de satisfação com os meus agrados. Mamãe lhe respondia com uma fisionomia séria, eu dizia outras afabilidades para ela, e nesse trato ameno terminavam nossos encontros.
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência em 10/9/1994

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Inocência e maturidade

Dona Lucilia sabia, como poucos, entreter uma criança. Formada segundo padrões dos antigos tempos, ela conhecia o meio de preservar a candura na alma dos pequenos, não porém mantendo-os na infantilidade, mas educando-os numa inocência amadurecedora.
A vida dos adultos apresentada com elevação de vistas
Como ela procedia?
Falava às crianças sobre a maneira de os adultos conduzirem sua existência, suas inclinações, as lutas, os dramas que enfrentavam, etc., apresentando tudo com uma tão alta elevação de horizontes, com tanto ideal e tanta seriedade, que incutia no espírito da criança os necessários elementos para que ela maturasse.
Eu mesmo, filho dela, sentia bem como esse modo de proceder era o que deveria ser adotado, e desfrutava um entretenimento único nos fatos e histórias descritos por mamãe, porque tudo — até os contos de fada que nos narrava — era orientado na direção do nosso amadurecimento. Acontecia-me de vez ou outra escapar dos brinquedos com minha irmã e meus primos e ir procurá-la pela casa, a fim de pedir que me desfiasse um de seus contos. Ela ficava muito comprazida com minha solicitação, e eu, super-comprazido com seu acolhimento.
Cumpre dizer que essa forma de nos educar me preparou para o choque inevitável que um menino, saído de seu ambiente familiar — sobretudo se católico e semeado de valores morais como era o meu —, teria com o mundo. Eu caminhava para esse confronto com os olhos postos naqueles ideais que mamãe soubera nutrir em minha alma, e para os quais eu deveria tender.
Uma inocência unida à seriedade
É preciso dizer, também, que a seriedade fazia parte dessa inocência, ao mesmo tempo manifestada e amparada por mamãe. Essa atitude decorria de uma escola de alma que ensinava como prolongar a inocência dentro da maturidade, fazendo-nos compreender como a inocência não é apenas um estado de espírito de uma criança, mas um programa de vida que, em última análise, leva o homem a cumprir o primeiro mandamento da Lei de Deus.
Fantasias de Carnaval que estimulavam a inocência
É interessante notar que os dias de Carnaval ofereciam a mamãe uma oportunidade especial de estimular em nós a inocência. Todas as crianças da família se fantasiavam, vestidas pelos pais. E eu me deixava trajar como Dª Lucilia quisesse, pois a vontade dela era indiscutível para mim. Agora, um detalhe: as fantasias que ela arranjava sempre tendiam ao sério, ao contrário de outras que exploravam o burlesco, impelindo a criança a tomar atitudes descompostas e apalhaçadas.
Lembro-me de certo ano em que ela, nas suas delicadas concepções, planejou para mim uma fantasia de marajá. Ignorando as características do personagem que eu iria adotar, logo quis saber do que se tratava, e mamãe então me descreveu as belezas da Índia, com seus lindos palácios, suas riquezas e mistérios.
Você, portanto, vai se fantasiar de marajá! — disse-me ela, num tom que era um convite longínquo para a criança encarnar e viver o papel de soberano hindu por alguns dias.
Recordo que minha fantasia comportava um turbante feito de várias sedas, ornado de uma bonita aigrette que acompanhava os meneios da cabeça e me dava a impressão de uma espécie de sismógrafo muito nobre da alma humana. Além disso, era presa ao turbante por uma grande pedra “preciosa”, e esse pormenor de uma “jóia” incrustada na testa, da qual se desprendia uma elegante pluma, parecia mais ou menos a profundidade do pensamento da qual se destacava uma construção alígera...
O resto da roupa era igualmente de seda, guarnecida de joias falsas, anéis, colares, etc. Os sapatos, com as pontas voltadas para cima e revestidos de cetim lilás, pareceramme particularmente graciosos, pois achei muito feliz a ideia de calçados que se erguiam da vulgaridade do chão, como se o seu usuário dissesse: “Eu toco no solo, mas o melhor de mim mesmo se faz alheio à poeira. Por isso viro a ponta para cima.” Assim como com as fantasias de outros Carnavais, essa do marajá era preparada no clima criado por Dª Lucilia, falando-me com seriedade acerca do personagem que eu iria representar, e imaginando uma vestimenta que, conforme os padrões e as posses dela, deveria ficar seriamente bonita. Quer dizer, com inocência e seriedade, ela tinha empenho em que eu me apresentasse bem.
(Plinio Correa de Oliveira - Adaptado e Extraído de conferência em 12/6/1982)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Bondade, suavidade e indulgência

Pelo afeto com que Dona Lucilia tratava Dr. Plinio desde o berço, ele conheceu a bondade de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus.
Nossa Senhora do bom Conselho de Genazzano
Durante as reflexões que, por ocasião de minha doença1, fiz sobre Nossa Senhora de Genazzano, me chamou muito a atenção a inteira intimidade do Menino Jesus com Maria Santíssima. Ele até passa a mão por trás do pescoço d’Ela.
Respeito, admiração, veneração e ternura
E me lembrava da intimidade que eu tinha com a minha querida e saudosa mãe, uma intimidade tão cheia de respeito, de admiração, de veneração e de ternura, mas uma verdadeira intimidade. Ela sabia ser pequena, afável, meiga ainda quando eu era um menino que dependia completamente dela.
Por isso, desde os meus primeiros dias, eu a chamava de “mãezinha”; não sabendo falar bem, eu dizia “manguinha”, mas já era a ideia do que havia nela de miúdo, de pequeno, de proporcionado a mim, de exorável por mim, de compassivo para comigo. Era a ideia que brotava em mim de toda a mansidão e bondade dela. A bondade de Dona Lucilia foi para mim o modo pelo qual eu conheci a bondade de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus.
Do que minha mãe me legou, as duas coisas mais preciosas que eu conheço na ordem moral, não na ordem religiosa, foram exatamente, de um lado, a bondade e, de outro lado, a severidade sábia.
Mamãe era tão bondosa que eu nem saberia dizer! Mesmo na hora de perdoar as coisas em que eu andava mal, ela manifestava uma indulgência, uma suavidade, e nunca uma reclamação porque algo a tivesse atingido. Portanto, jamais entrava reivindicação de um direito dela.
Os pitos de Dona Lucilia
Por possuir a cultura de uma senhora de antigamente, mamãe nem saberia bem explicitar um princípio, mas tinha os princípios em seu espírito.
Assim, nunca o pito dela era motivado por uma irritação pessoal, mas por um princípio ofendido, inclusive o da autoridade materna, e sempre com tanta bondade, tanto perdão, tanta paciência no que dizia respeito a ela. O que, em menino, eu fizesse de pior, ou outras pessoas faziam de horrível para mamãe — e que eu presenciava —, enquanto coisa ofensiva para ela, Dona Lucilia engolia quietinha e não dizia uma palavra.
Como eu me lembro dos pitos dela! Que seriedade no olhar, que compenetração de que se tratava de fazer prevalecer um princípio! Que convicção de que, se não conformasse minha vida com aqueles princípios, para ela eu valeria muito menos! Mamãe via em mim mais o filho que devia amar os princípios, do que o filho que precisava querer bem a ela.
E quanta sabedoria no que ela dizia! Que voz grave! E ao mesmo tempo a bondade não estava ausente. A intransigência dela para comigo chegava a esse ponto; acho que já contei isso aqui, mas estou me expandindo um pouco.
De larvas que somos, Nossa Senhora nos transformará em crisálidas
Uma vez — foi o apogeu de minha vida colegial, mas nunca fui o primeiro de minha sala de aula — eu voltei da festa de distribuição de prêmios no Colégio São Luís, com quatro medalhas no peito; os meninos vinham na rua ostentando as medalhas, naqueles tempos ingênuos.
Lembro-me que eu vestia traje marinheiro; mamãe abriu a porta de casa e me agradou, foi uma alegria.
No ano seguinte regressei com três medalhas; ela abriu a porta, olhou e disse:
Só três?
Mas, intransigente. E acrescentou:
O que aconteceu para você decair?
Dizia isso misturado com tanto afeto, que posso afirmar ter sido uma preparação para eu compreender o que era a misericórdia de Nossa Senhora.
Muitos dos que estão aqui a conheceram — alguns até bem de perto — e poderão achar que há exagero no que eu digo, mas não que existe uma invenção.
Não quero dizer que as mães dos presentes neste auditório não lhes tenham ensinado isso; também não desejo afirmar que eu tenha aprendido inteiramente o que ela me ensinou. Falo isso para exemplificar um pouco o que estou pensando.
E não sinto que nossa devoção à Santíssima Virgem seja inteiramente assim. Neste sentido, nós somos ainda como larvas que se vão arrastando pelo chão até o momento em que Maria Santíssima nos transforme em crisálidas.  
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferências de 6/5/1968 e 18/6/1968
1) Diabetes, cuja crise durou de dezembro 1967 a maio de 1968.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Educação dada a seu filho

Dª Lucilia nota mudança de situação do filho
Desde a infância de Dr. Plinio, Dª Lucilia desejava o desenvolvimento e a irradiação da personalidade dele e entrevia que, de algum modo, esta atingiria grandes proporções. Suas esperanças quanto ao invulgar futuro do filho, alimentadas por sua intuição de mãe, em parte haviam-se realizado quando ele, ainda moço, tornara-se líder das Congregações Marianas e do próprio Movimento Católico.
Entretanto, insondáveis são os superiores desígnios da Providência Divina, que sói permitir pesadas provações para aqueles aos quais ama e que tanto Lhe devotam o melhor de suas vidas. Não foi diferente com Dr. Plinio e sua querida mãe. Esta, havendo seguido passo a passo a brilhante ascensão de seu filho, começou a assistir penalizada a uma maré-montante de dificuldades que lhe perturbaram tanto a vida apostólica quanto a profissional.
À lista de dissabores acrescentavam-se ainda danos econômicos de monta, devidos não só à perda de seus melhores clientes, como também a uma lei de inquilinato que prejudicava a fundo os direitos dos proprietários de imóveis de aluguel, como era o caso de Dr. Plinio. Ao longo de várias conversas com sua mãe, ele ia-lhe narrando o que sucedia, descrevia suas vicissitudes, bem como as consequências daí decorrentes para a existência de ambos.
Com resignação cristã, mediu ela as consequências desses fatos em sua situação pessoal. Antes era a mãe daquele que fora o mais jovem e mais votado deputado do Brasil, pólo de pensamento da opinião pública católica e até da não-católica; daquele idealista diante de quem se abrira a perspectiva de brilhantes vitórias, até o triunfo final da Igreja sobre os seus inimigos. Agora se tornava a mãe de um homem ao qual o sucesso havia voltado as costas, e que passava a viver quase completamente isolado.
Porém, a Dona Lucilia um consolo restava, e isso era o mais importante: fosse no apogeu do prestígio ou em meio à contrariedade, seu querido “filhão” continuava sempre o mesmo.
“Não há o que quebre o Plinio”
Outro sofrimento afligia Dona Lucilia: nada poder fazer em favor de seu filho, a não ser auxiliá-lo por meio da oração. No entanto, alguns fatos que de vez em quando lhe chegavam aos ouvidos, por esta ou aquela pessoa conhecida, enchiam-na de consolação, pois lhe revelavam como, no meio de tantas tribulações, nada abatia o ânimo dele.
Um dia, por exemplo, Dr. Plinio voltava de balsa, em companhia de seu cunhado, Antônio de Castro Magalhães, de Guarujá para Santos, com destino a São Paulo. A pequena distância deles estava sentado um casal, do maior realce na sociedade paulista da época. Reconhecendo-o, sorriram com amabilidade, dando mostras de querer entabular com ele uma conversa Dr. Plinio de há muito conhecia o marido, mas jamais fora apresentado à esposa, razão pela qual julgou mais atencioso não tomar a iniciativa de procurar o casal para o saudar pessoalmente. Essa atitude de reserva, julgou dever conservá-la ainda quando a esposa se pôs também a cumprimentá-lo, de modo amável. Foi por isto que ele permaneceu no lugar em que se achava, em conversa com seu cunhado.
A dada altura, o marido não se conteve mais e, deixando a esposa a sós, levantou-se e foi alegremente falar com Dr. Plinio. A gentil atitude do eminente casal deixava ver como se mantinha intacto na sociedade paulista o prestígio do intrépido batalhador.

Antônio notou bem o que havia de reservado na cortesia de Dr. Plinio e, ao encontrar-se depois com Dona Lucilia, narrou-lhe esse pequeno episódio. Quando, à noite, ela esteve com seu filho para a habitual “prosinha”, o tema foi este. Cheia de contentamento, ela então lhe contou o comentário do genro: “Não há o que quebre o Plinio!”
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)