segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Educação dada a seu filho

Dª Lucilia nota mudança de situação do filho
Desde a infância de Dr. Plinio, Dª Lucilia desejava o desenvolvimento e a irradiação da personalidade dele e entrevia que, de algum modo, esta atingiria grandes proporções. Suas esperanças quanto ao invulgar futuro do filho, alimentadas por sua intuição de mãe, em parte haviam-se realizado quando ele, ainda moço, tornara-se líder das Congregações Marianas e do próprio Movimento Católico.
Entretanto, insondáveis são os superiores desígnios da Providência Divina, que sói permitir pesadas provações para aqueles aos quais ama e que tanto Lhe devotam o melhor de suas vidas. Não foi diferente com Dr. Plinio e sua querida mãe. Esta, havendo seguido passo a passo a brilhante ascensão de seu filho, começou a assistir penalizada a uma maré-montante de dificuldades que lhe perturbaram tanto a vida apostólica quanto a profissional.
À lista de dissabores acrescentavam-se ainda danos econômicos de monta, devidos não só à perda de seus melhores clientes, como também a uma lei de inquilinato que prejudicava a fundo os direitos dos proprietários de imóveis de aluguel, como era o caso de Dr. Plinio. Ao longo de várias conversas com sua mãe, ele ia-lhe narrando o que sucedia, descrevia suas vicissitudes, bem como as consequências daí decorrentes para a existência de ambos.
Com resignação cristã, mediu ela as consequências desses fatos em sua situação pessoal. Antes era a mãe daquele que fora o mais jovem e mais votado deputado do Brasil, pólo de pensamento da opinião pública católica e até da não-católica; daquele idealista diante de quem se abrira a perspectiva de brilhantes vitórias, até o triunfo final da Igreja sobre os seus inimigos. Agora se tornava a mãe de um homem ao qual o sucesso havia voltado as costas, e que passava a viver quase completamente isolado.
Porém, a Dona Lucilia um consolo restava, e isso era o mais importante: fosse no apogeu do prestígio ou em meio à contrariedade, seu querido “filhão” continuava sempre o mesmo.
“Não há o que quebre o Plinio”
Outro sofrimento afligia Dona Lucilia: nada poder fazer em favor de seu filho, a não ser auxiliá-lo por meio da oração. No entanto, alguns fatos que de vez em quando lhe chegavam aos ouvidos, por esta ou aquela pessoa conhecida, enchiam-na de consolação, pois lhe revelavam como, no meio de tantas tribulações, nada abatia o ânimo dele.
Um dia, por exemplo, Dr. Plinio voltava de balsa, em companhia de seu cunhado, Antônio de Castro Magalhães, de Guarujá para Santos, com destino a São Paulo. A pequena distância deles estava sentado um casal, do maior realce na sociedade paulista da época. Reconhecendo-o, sorriram com amabilidade, dando mostras de querer entabular com ele uma conversa Dr. Plinio de há muito conhecia o marido, mas jamais fora apresentado à esposa, razão pela qual julgou mais atencioso não tomar a iniciativa de procurar o casal para o saudar pessoalmente. Essa atitude de reserva, julgou dever conservá-la ainda quando a esposa se pôs também a cumprimentá-lo, de modo amável. Foi por isto que ele permaneceu no lugar em que se achava, em conversa com seu cunhado.
A dada altura, o marido não se conteve mais e, deixando a esposa a sós, levantou-se e foi alegremente falar com Dr. Plinio. A gentil atitude do eminente casal deixava ver como se mantinha intacto na sociedade paulista o prestígio do intrépido batalhador.

Antônio notou bem o que havia de reservado na cortesia de Dr. Plinio e, ao encontrar-se depois com Dona Lucilia, narrou-lhe esse pequeno episódio. Quando, à noite, ela esteve com seu filho para a habitual “prosinha”, o tema foi este. Cheia de contentamento, ela então lhe contou o comentário do genro: “Não há o que quebre o Plinio!”
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Nos cuidados da própria saúde, preocupação com os filhos

O precário estado de saúde de Dª Lucilia causava constante apreensão a seus filhos, e os levava a não pouparem esforços nem recursos a fim de aliviá-la — o quanto estava ao alcance deles — da penosa enfermidade de fígado que a acometia. Por tal motivo nunca deixaram de lhe proporcionar longas permanências em Águas da Prata, que resultavam em sensíveis melhoras para ela.
Porém, na sinceridade de seu desprendimento, mais preocupada com os outros do que consigo mesma, Dª Lucilia não queria pesar no orçamento deles. Receava fazerem excessivos gastos com ela e, como se pode comprovar por uma afetuosa resposta de Dr. Plinio, chegou a externar isso numa de suas cartas, infelizmente perdida:
 Santos, 27 de março [de 1942]
Mãezinha,
Recebi sua ultima carta, da qual lhe devo dizer francamente que, se uma parte me agradou muito, a outra não me desagradou menos.
Agradou-me muito, é claro, saber que a Sra. está, graças a Deus, passando melhor.
No entanto, a forma pela qual a Sra. se refere ao interesse que Rosée e eu tomamos por sua saúde, me desagradou categoricamente. Em tudo, meu bem querido, é preciso ser lógico. Em primeiro lugar, o que Rosée e eu estamos fazendo não passa de trivialidades, certamente feitas com grande afeto, mas que nem por isto deixam de estar na órbita das trivialidades. O que de mais natural do que ela levar a Sra. para a casa, e lá lhe dispensar todo o carinho? Pois não é sua filha? O que é ser filha? De minha parte, o que de mais vulgar do que empregar algum dinheiro para o bem-estar de minha Mãe? Se o dinheiro que, com o auxílio de Nossa Senhora, tenho podido ganhar, não se empregasse com suma satisfação neste assunto, mereceria eu o castigo de que ele me fugisse inteiramente das mãos, pois que, gastando-o assim, outra coisa não faço senão dar cumprimento a uma obrigação grave, cuja observância de minha parte é destes “minimuns” que se exigem de qualquer pessoa de sentimentos vulgarmente bem formados.
Por outro lado, ainda que o sacrifício fosse de monta, sendo feito para a Sra. estaria idealmente bem, e não poderia estar melhor. Se eu precisasse da Sra. um sacrifício pesado, pedi-lo-ia e aceitá-lo-ia com tão absoluta naturalidade, com tal certeza da inteira dedicação com que a Sra. o prestaria, que nem me ocorreria fazer lamentações sobre o caso. Não sei por que a Sra. ha de imaginar que a recíproca não deve ser a mesma......
Assim, meu bem, nada de lamúrias, de lamentações, de agradecimentos. Agradeça simplesmente a Deus e a Nossa Senhora que tenhamos com que fazer face às necessidades, e lhes peça que continue a ser sempre assim. Quanto ao mais, o assunto está definitivamente encerrado, ouviu meu bem?
A seguir, a carta nos coloca uma vez mais ante a perspectiva da Segunda Guerra Mundial, na qual o Brasil acabara de se envolver. De fato, após ter mantido, junto com o bloco maciçamente católico de nações latino-americanas, uma tal ou qual neutralidade, nosso País entrou na guerra quando a opinião pública de modo definido se decidiu contra o nazismo. Solidário com os Estados Unidos, que acabavam de sofrer o ataque de Pearl Harbour (7 de dezembro de 1941), o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo.
A propósito dos novos panoramas, Dr. Plinio comentava na mesma carta:
[Imagino que contaram] à Sra. o excelente passeio que fizemos ao forte Munduba. Estava muito impressionante a sensação de, em pleno território nacional, nos encontrarmos em uma autêntica “maginot” escavada dentro da própria rocha, e conversar-se sobre descida possível de paraquedistas, a eventual chegada de esquadras estrangeiras, a ação da quinta coluna em Santos, etc., etc. É um novo capítulo que se abre, uma nova era em que se entra, na História nacional. Em outros termos, começamos a ser “gente”, a correr riscos, a tratar de coisas sérias, e a impuberdade política em que nossa situação geográfica e nossa debilidade nos colocavam, parece ter cessado de vez. Assim se abre o capítulo: como se encerrará? Qual será o mapa do mundo, quando isto tudo amainar? É o que só Deus sabe.
Devo chegar terça-feira, não sei bem a que horas, mas certamente depois do almoço. Aí mataremos, se Deus quiser, as saudades que estão até rendendo juros, de tão grandes.
Papai já deve ter chegado. Mande-lhe um apertado abraço. Para a Sra., meu bem querido, muitos e muitos beijos e abraços do filho saudosíssimo, que lhe pede respeitosamente a bênção.
Plinio
Na solidão de seu quarto, Dª Lucilia deve ter lido e relido inúmeras vezes essas linhas, consolada por lhe haver dado Deus um filho tão dedicado e generoso...

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A presença repousante de Dª Lucilia

Os encargos do escritório de advocacia somavam-se às diversas outras tarefas que Dr. Plinio já desempenhava. Com efeito, além de exercer o magistério e de ser diretor de uma imobiliária, entregara-se de alma inteira à atividade apostólica, que muito o absorvia.
A justa nomeada que alcançara como líder católico obrigava-o a comparecer a grande número de atos públicos nos meios religiosos, sendo com freqüência convidado a fazer discursos e conferências nos mais variados ambientes.
Apesar de tão intensos trabalhos, nunca saía de casa sem antes se despedir de Dª Lucilia e de lhe dizer aonde ia. Ela o abraçava, beijava e depois lhe dava a bênção. Certo dia, porém, Dª Lucilia notou que Dr. Plinio saíra sem dela se despedir. Apenas encontrou, em local visível, um bilhete, encimado por uma pequena cruz sob a qual se liam as iniciais do lema de Santo Inácio: Ad Majorem Dei Gloriam.
Mãezinha de meu coração, Há perto de três semanas, marquei para hoje à noite, às oito e meia, uma conferência na Escola Paulista de Medicina, na Vila Clementino.
Depois esqueci-me da data. Ontem me telefonaram lembrando. E eu lá vou com grande antecedência (...).
Por isto, meu amorzinho, lhe deixo mil e mil dos mais saudosos beijos, pedindo-lhe desculpas, e prometendo voltar logo que termine, para matar as saudades.
Em outro dia ocorreu o contrário. Dr. Plinio não aparecera de manhã, à hora habitual, para dizer a ela bom dia. O tempo passava e ele não dava qualquer sinal de vida. Dona Lucilia mandou a empregada verificar o que ocorria não demorou: a porta do quarto estava fechada e tudo permanecia em silêncio. Desta vez, não era nenhuma doença que o prostrara na cama, mas o cansaço por uma vida muito atarefada. Ela disse então à criada que batesse na porta e passasse por baixo um bilhete, que escreveu, com o seguinte apelo:
Plinio,
Você já perdeu a aula, vê se não perde também o emprego! Levanta-te já, peço-te.
Na verdade, a fadiga que alquebrava Dr. Plinio não era só, nem principalmente, fruto dos muitos trabalhos, mas sim das incontáveis batalhas em defesa da Fé. Porém, se o combate levado a cabo com entusiasmo lhe pesava nos ombros, a simples presença de sua mãe compensava tudo, constituindo um bálsamo de suavidade. Sentia-o de modo especial quando chegava a casa, vindo do escritório, ocasião em que lhe era mais patente o choque entre o frenesi da rua e as bênçãos do lar.
Passava Dª Lucilia boa parte do dia rezando ou lendo, sentada na cadeira de balanço outrora pertencente a Dª Gabriela. Ao seu redor se criava uma atmosfera de indizível tranquilidade, o oposto do mundo agitado e tormentoso que se movia fora de casa. Era como se uma campânula invisível, colocada por um anjo, protegesse aquele ambiente do conturbado torvelinho da vida. Quem nele penetrasse, sentia a alma pervadida pela paz. Uma paz mais repousante que duas ou três horas de descanso...

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)

domingo, 1 de setembro de 2013

Demora preocupante

Os acontecimentos da Europa, convulsionada pela Segunda Guerra Mundial, alimentavam o fervilhar das polêmicas no Brasil. Das páginas do “Legionário”, Dr. Plinio fazia a tribuna, do alto da qual desafiava os inimigos da Igreja.
Dona Lucilia, que seguia com olhar atento as atividades de seu filho, bem avaliava os perigos pelos quais ele passava. Numa ocasião em que os ânimos estavam mais acirrados, Dr Plinio chegou a ser ameçado de morte. Por isso, à noite, Dª Lucilia nunca se deitava antes de seu filho ter chegado em casa. Quando ele demorava mais do que o habitual, com certa aflição despertava Dr. João Paulo e, para movê-lo a tomar alguma medida, lhe perguntava:
— Plinio não está demorando?
Como bom nordestino, mais dado ao otimismo e à despreocupação, o marido procurava sossegá-la dizendo:
— Senhora! ele chega a qualquer momento.
Esse otimismo, graças certamente às fervorosas orações de Dª Lucilia, nunca foi desmentido pelos fatos, naquelas circunstâncias.
Porém, a bonomia de seu esposo não era suficiente para tranquilizá-la, e ela replicava:
— Não!... Ninguém sabe o que pode acontecer...
E continuava a rezar, confiante na proteção da Providência. Às vezes, quando a saúde o exigia, recostava-se na cama e mantinha a luz acesa, esperando que o ruído dos passos firmes de seu filho anunciasse o fim da vigília. Depois que Dr. Plinio a cumprimentava e ela verificava com os próprios olhos a integridade física dele, se o tempo ainda o permitisse, iniciava uma pequena prosa para saber novidades do dia, como havia corrido o trabalho, o apostolado...
Dr. João Paulo, a fim de convencer seu filho a chegar mais cedo, contava-lhe, por vezes, os temores de Dª Lucilia com aquelas demoras. Porém, para Dr. Plinio as obrigações para com a Causa da Igreja tinham precedência, e em nada permitiam mudar seus horários. Dona Lucilia compreendia bem que isto não podia ser de outro modo e nunca se queixava, oferecendo pelo esposo e pelos filhos, ao Sagrado Coração de Jesus, o sacrifício que aquela situação representava.
Uma noite, porém, as horas foram escoando e Dr. Plinio não aparecia. Sempre que poderia ocorrer algum atraso, ele prevenia sua mãe. No entanto, naquela noite não recebera ela qualquer aviso. Bem podemos imaginar quantas e quão sombrias conjecturas passaram pela mente de Dª Lucilia. Teria ocorrido algum acidente com seu filho, ou sofrera ele algum atentado? Como sempre fazia nas ocasiões de angústia, recorreu ao Sagrado Coração de Jesus e, aos pés da imagem do Divino Redentor, ora sentada, ora em pé, lá foi desfiando com serenidade e confiança as contas do rosário.
Quando as primeiras claridades da aurora começaram a afugentar as trevas, cerca das cinco da manhã, Dr. Plinio afinal chegou. Ainda não terminara ele de dar a volta completa à chave na fechadura e já Dª Lucilia se dirigia ao hall de entrada para o receber. Às angústias da longa espera, sucederam-se as alegrias de o ver ali são e salvo. Por isso mesmo, antes de lhe fazer qualquer pergunta, recebeu-o com carinho. Após os primeiros instantes de evidente alívio, perguntou-lhe:
— Mas, meu filho, o que você fez até agora?
Dr. Plinio explicou-lhe o motivo de tão prolongada demora: dois religiosos para cuja Ordem advogava foram naquela noite ao seu escritório para tratar de alguns assuntos. A Ordem à qual pertenciam era um de seus melhores clientes. Como os padres apreciavam uma boa prosa, terminada a consulta, iniciaram uma conversa que se prolongou até as quatro e meia da manhã.
Dona Lucilia, ainda um pouco inconformada, replicou surpresa:
— Mas, padres, até essa hora na rua!?
— Sim, senhora. E era minha obrigação atendê-los. Se não fosse por outras razões, boa parte de minha advocacia depende deles.

Tranquilizada pela explicação, Dª Lucilia resolveu ir se deitar, não sem antes agradecer ao Sagrado Coração de Jesus por nada de grave haver acontecido.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Atendendo às solicitações maternas

Muito se preocupava Dª Lucilia com a saúde de seu filho, em vista da intensa atividade por ele exercida: apostolado, direção do Legionário, escritório de advocacia, magistério, conferências, discursos, palestras. Embora Dr. Plinio fosse muito robusto, graças aos cuidados que sua mãe lhe dispensara na infância, estaria sempre exposto a algum mal súbito, pelo cansaço resultante de tal operosidade. Por isso ela lhe recomendava sair de São Paulo a fim de descansar durante algum tempo, apesar de serem para ela tão penosas as ausências dele.
Mas, para ter certeza de que esses períodos seriam bem aproveitados para um repouso regenerador, pedia-lhe com afeto que não deixasse de escrever, contando seu dia-a-dia. Assim, ao menos para contentá-la, ele se sentiria obrigado a fazer algum passeio e a se distrair. Para tranquilizá-la, Dr. Plinio filialmente seguia as orientações maternas, sempre que alguma necessidade urgente da Causa Católica não exigisse o contrário. Estando no Grande Hotel de Guarujá, no verão de 1939, assim se exprimia em carta a Dª Lucilia, de 22 de fevereiro:
Mãezinha do coração!
Escrevo-lhe às dez e meia da noite, depois de ter passado um dia singular, mas delicioso: levantei-me às quatro e meia(!), fui esperar às seis da manhã em Santos um grande navio italiano de cujo nome não me lembro, mas que é o mais suntuoso que vi; lá assisti à Missa celebrada pelo famoso Jesuíta Pe. Laburu, basco, meu amigo, vindo de Roma de passagem para a Argentina, uma das maiores celebridades mundiais em telepatia, hipnotismo, etc.
Lá comunguei com o José, tomamos um delicioso café, e ficamos de prosa até nove e meia. Depois voltei de auto a Guarujá, li os jornais, tomei um banho de mais ou menos uma hora ou uma hora e quinze, almocei, e caí na cama a uma e meia e dormi com sono cerrado até seis e meia exatamente. Levantei-me, fiquei no terraço até oito e quinze, jantei muito bem, andei na praia, e agora estou matando as saudades, que são muitas. Encontrei aqui a Ilka com o Zito, que vieram um instante ao hotel, ver-me. Eles foram a S. Paulo e deverão estar de volta sexta-feira (...)
O hotel está quase vazio, e está delicioso! E a Sra como vai? e Papai? E a Katuchinha¹ queridinha? Vou escrever a esta.
Se vierem cartas para mim no escritório, no Legionário ou aí, mande.
Com um afetuoso abraço a papai, 1000000.....0 de beijos à Sra, do seu filho respeitoso, que lhe pede a bênção e lhe quer mais do que é possível dizer
Plinio
A leitura destas linhas fazia Dª Lucilia sentir-se consolada, por saber que seu filho estava repousando bem, e recompensada pelas grandes saudades que a ausência dele lhe trazia.
Por vezes Dr. Plinio ia a uma estância hidromineral no interior paulista, Águas de São Pedro, a fim de espairecer. Dali escreveu em certa ocasião a sua mãe:
Luzinha de meu Coração
Aí vai a carta que a Sra esperava. Vai atrasada, curta e cheia de saudades.
Estou descansando muito, passeando e comendo bem: vegetando, enfim, que é o de que eu precisava. (...)
Como vai a Sra? E Papai? Adolphinho já está bom? Diga-lhe que é pena que não esteja aqui.
Mil beijos para a Sra, abraços para Papai. Do filho que a quer a mais não poder, e lhe pede a bênção.
Plinio
Outras vezes essas viagens eram destinadas por Dr. Plinio a uma atividade intensa, que a tranquilidade de um confortável hotel à beira-mar tornava mais propícia.
Pelo caráter “telegráfico” das missivas de seu filho, percebia Dª Lucilia que dessa vez o descanso havia ficado bem distante. Tal é o caso de um belo postal com uma vista marítima, enviado em maio de 1939 de Guarujá:
Mãezinha querida
Com mil saudades, beijo-a respeitosamente e peço sua bênção.
Estou gostando muitissimo.
Do filho que a quer imensissimamente.
Plinio

Eram poucas palavras, mas transbordantes de amor filial. Dª Lucilia, ao receber o cartão, tê-lo-á quiçá depositado, até a volta do filho, aos pés da imagem do Sagrado Coração de Jesus, junto à qual passava horas mais longas, durante as ausências dele.
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Suaves repreensões

Foi o Sagrado Coração de Jesus, sempre pronto a perdoar e acolher o pecador arrependido, o modelo perfeito com o qual Dª Lucilia sempre procurou se identificar. Assim, em suas atitudes, palavras e gestos iam transparecendo de modo crescente, com o correr dos anos, a extrema suavidade e doçura de trato que tanto refulgiram na figura do Divino Mestre.
Já seu filho, exposto a rudes pelejas apostólicas, além da infinita Bondade, adorava de maneira particular a Nosso Senhor enquanto intransigente com o mal que se mostrava empedernido. Essa dualidade de aspectos do Divino Modelo fazia desprender do convívio mãe-filho uma melodia de notas opostas, mas sempre harmônicas. Dr. Plinio era tendente a manifestar categoricamente as próprias opiniões, até nas menores coisas, e Dª Lucilia procurava refrear um pouco este expansivo modo de ser, às vezes por demais contundente segundo os padrões dela.
Certo dia a empregada não acertou na compra da manteiga. Após ter untado abundantemente uma fatia de pão, Dr. Plinio, ao prová-la, logo sentiu um gosto desagradável, indicativo de que o alimento não estava fresco.
Dª Lucilia, que punha todo empenho em lhe proporcionar um cardápio de acordo com sua preferência, estava sempre atenta às reacções dele, e percebeu de imediato sua repulsa.
— Meu bem — disse ele — essa manteiga que a empregada comprou não serve nem para engraxar os trilhos dos bondes!
Dª Lucilia ficou com a fisionomia um tanto penalizada. Mesmo em se tratando de um alimento de qualidade inferior, não era bondoso um comentário tão forte, segundo seus critérios.
Mas, como admoestar um filho já homem feito, professor universitário? Era uma situação para a qual só ela podia encontrar uma boa saída. Estando sentada à mesa, ao lado dele, tocou-lhe suave e repetidamente com a ponta dos dedos no dorso da mão, como que a lhe dizer: “Meu filho... Meu filho!...” O macio dos toques, o sedoso da pele, reflexos de seu modo de ser, transmitiam uma censura que inundava a alma dele de doçura.
E sempre que Dr. Plinio dizia o que pensava a respeito deste ou daquele, Dª Lucilia, quando não tinha mais como defender o atingido — por ser indefensável — apelava para este último e mudo recurso: discretos toques no dorso da mão dele.

Era bem provável que Dr. Plinio tivesse vontade de acrescentar outro comentário, para que ela lhe proporcionasse mais uma suave repreensão...
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Consolar o próximo: dever de caridade

Como vimos, Dona Lucilia procurara formar seus filhos no hábito de fazer o bem a seus semelhantes, especialmente aos mais próximos. E mesmo após atingirem a idade madura, não cessava de lembrar-lhes tais obrigações, sempre que a ocasião se apresentava.
Igreja Santa Efigênia
Animada por essa caridade, tinha muita preocupação em confortar os conhecidos, a quem a morte levara um parente ou amigo. Exemplo disso é o bilhete que, um dia, deixou a Dr. Plinio:
Plinio
Realiza-se hoje às 9 horas em santa Ephygenia a Missa de sétimo dia do Dr. X. É preciso que vás, pois estimo muito ao seu cunhado Y, e sendo também co-parente de Dr. Z não pódes deixar de ir, porisso peço-te que vás.
Outro exemplo do empenho dela no cumprimento dos deveres familiares transparece num carteio de junho de 1937, durante nova temporada em Aguas da Prata, para onde ela fora acompanhada de seu esposo. Dr. Plinio, em missiva a seu pai, justifica-se longamente por não ter podido encontrar-se com um Corrêa de Oliveira, apesar da insistência de Dr. João Paulo e de Dona Lucilia de que o fizesse:
São Paulo, 28 - VI - 1937
Papai,
Recebi sua carta. Infelizmente, o Corrêa de Oliveira partiu para Santos e de lá para o Rio, muito inopinadamente, no dia de sua partida ou no dia imediato, se não me engano. Não houve, pois, tempo para ir visitá-lo. Os argumentos aduzidos pelo Sr. e por Mamãe, a este respeito, são todos perfeitamente razoáveis, a tal ponto que me considerava na obrigação de ir ao Esplanada, para cumprimentar o Corrêa de Oliveira, e até tinha pensado em voltar, caso não o encontrasse. Mas o Sr. vê que não foi possível.
Dr. Plinio segue a missiva tratando de algumas causas de advocacia que Dr. João Paulo deixara pendentes em São Paulo. Esse motivo acabou por exigir o regresso deste último mais cedo do que esperava. Para Dª Lucilia não ficar sozinha, seu filho sugere que Maria Alice, neta dela, então com 9 anos, lhe vá fazer companhia.
Ao terminar a carta, ele faz referência, com uma pontinha de jocosidade, a uma característica de suas famílias, tanto do lado materno, quanto do paterno: a arte da boa conversa. Por serem paulistas uns e pernambucanos outros, desenvolviam essa qualidade de modo bem diverso:
Como vai o tempo aí? E o Sr.? Está aproveitando o repouso? Está alguém aí, que lhe possa interessar para conversar, etc.? Aliás, para o Sr., conversa, principalmente com estranhos, está longe de ser gênero de primeira necessidade, como para Mamãe, para mim, e para todos os que temos um pouco de sangue de Ribeiro dos Santos.
Com um saudoso abraço, pede-lhe a bênção o filho amigo,
Plinio
À medida que os anos passavam e Dª Lucilia ia ficando mais idosa, seu filho multiplicava a solicitude para com ela. Isto fazia a fim de tornar menos penosa a solidão daquela que não teve a fraqueza de se adaptar às inovações da “modernidade” para alcançar cidadania no mundo. Com o objetivo de distraí-la, não raras vezes convidava à sua mesa alguns dos amigos mais chegados do “Grupo do Legionário”¹.
Ao escrever a sua mãe, naquele mesmo dia vinte e oito de junho, da sede do Legionário em cuja redação ficava trabalhando até horas tardias, Dr. Plinio conta-lhe que recebera duas cartas de um companheiro de luta o qual tivera a dita de amiúde jantar com Dª Lucilia, ficando indelevelmente marcado pelo convívio com ela. Além disso, procura uma vez mais tranquilizá-la com relação ao cumprimento dos compromissos familiares, destacando alguns com letras maiúsculas. Dª Lucilia muito recomendava a seu filho que prestasse especial assistência a Dª Rosée, embora ela já fosse casada, pedido ao qual ele atendeu até o último dia de vida de sua irmã.
São Paulo, 28-VI-1937 Mãezinha querida do meu coração,
Recebi com muito agrado seu telegrama e sua carta. Confesso que me esqueci de dar à Ana os recados referentes às janelas, etc.,etc. Se me lembrar, darei. Não posso prometer de dar ainda que não me lembre! Entrincheiro-me atrás desse sofisma, e passo a outro assunto.
Recebi duas cartas do José Gustavo², em dois dias consecutivos. Uma, a primeira que recebi, era datada de Perugia, se não me engano. A segunda veio de bordo do Neptunia, navio em que ele seguiu. Veja que desordem. Ambas as cartas eram muito afetuosas. Uma delas continha particulares referências à Sra. e aos “sossegados jantares de domingo”, dos quais ele me pede para lhe dizer que não se esquece, nem a caminho da Europa.
Almocei ontem com tia Yayá, depois FUI Á CASA DO ZITO³, PARA CUMPRIMENTÁ-LO PELO SEU ANIVERSÁRIO, percorrendo por isto, a pé, todo o espaço que vai entre a Rua Augusta e a Brigadeiro Luís Antônio, na Avenida Brasil, porque não conhecia bem o caminho. Tenho jantado FREQÜENTEMENTE com Rosée, e ela vai hoje em casa. (...)
Ontem, fomos jantar na Caverna. Depois, fomos dar umas voltas de automóvel, numa excelente Packard. Ás onze e meia estacionamos no Trianon, onde tomamos alguma coisa. Depois, fomos para casa. (...)
É possível que eu vá passar alguns dias em Santo Amaro, ou em Santos. Mas ainda depende.
Mande-me dizer detalhadamente como vai sua saúde, o que a Sra. anda fazendo, o que não anda fazendo, etc.
Maria Alice deve estar aí no dia dois, caso Papai siga no dia 1º, de sorte que a Senhora só ficará uma noite só. Antes disto, ela não poderia seguir porque as roupas não estão prontas, ou qualquer coisa assim.
Tenho a impressão de que Maria Alice está muito só. E não é só ela... Com muitos e afetuosíssimos beijos, pede-lhe a bênção o seu filho querido,
Plinio
“Tenha muito cuidado com sua saúde”
Ao saber alguns dias depois que Dª Lucilia fora acometida por um achaque, Dr. Plinio, embora tomado de ocupações, escreve nova missiva a sua mãe:
Mãezinha de meu coração Rapidamente, à meia noite e quarenta, escrevo-lhe uma palavrinha, para lhe dizer quanto sinto que a Sra. tenha adoecido aí, e quanto desejo seu pronto restabelecimento. Neste sentido, agora mesmo, acabo de rezar a Na. Sa., pedindo que tudo por aí lhe corra do modo mais suave possível.
Por aqui, nada de novo. No dia de anos de Tia Zili, ela me convidou, e a Rosée para almoçarmos em sua companhia na Caverna. (...)
Jantei em casa de Rosée, e, depois de um dia passado inteirinho na Rua, recolho-me exausto, fazendo esforço para lhe poder escrever.
Espero que o róseo portador desta carta lhe vá aliviar um pouco as saudades. “Um pouco”, porque tenho a ilusão pretensiosa de ser insubstituível. E, apesar de pretensiosa, creio que essa ilusão não está muito distante da realidade. (...)
Ontem, a Vasp convidou-me, como Diretor do Legionário, a fazer uma viagem de avião ao Rio hoje, ida e volta, gratuita. Era uma viagem dedicada a todos os jornalistas. Recusei, e indiquei um representante. E, por isto, mereço uma especialíssima aprovação de minha Mãezinha. Agora à noite, estive com o tal rapaz. Imagine que ele partiu às 8, chegou às 9 e meia, voltou parece-me que às 2 e meia, e chegou às 4. Portanto, foi almoçar no Rio e voltou. No tempo em que Vovô Gabriel fazia essa viagem em costa de burro, imagine o pasmo dele se imaginasse que seu bisneto poderia ir e vir do Rio em um mesmo dia!
Bem, minha Mãezinha querida, melhore muito, aproveite muito, reze muito por mim, e tenha muito cuidado com sua saúde.
Pede-lhe a bênção com muito afeto o filho respeitoso, que lhe envia mil beijos.
Plinio
(Nota, a assinatura vai à maquina, porque é mais fácil. Dado ser a portadora quem é, penso que a Sra. não duvidará da autenticidade...)

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)