sábado, 22 de novembro de 2014

Primeiros encantos com a Igreja

Continuação do post anterior
Pouco depois de nossa Primeira Comunhão, terminado o curso de catecismo, o meu vínculo estreito com mamãe me ajudaria a discernir outras riquezas da Igreja Católica. Eu ia com ela às Missas de domingo na Igreja do Coração de Jesus e, sentado ao seu lado, me punha a analisar o ambiente do edifício sagrado, e o conjunto que seus diversos aspectos formava com os ritos e simbolismos da celebração litúrgica. Então, considerava o som do órgão, do sino que tocava para anunciar a entrada do padre, as expressões de fisionomia desta ou daquela imagem, tal paramento, tal gesto, tal vitral que me parecia muito bonito — de tudo aquilo resultava uma soma, uma unidade incomparavelmente mais bela e preciosa do que a soma das pessoas ali reunidas.
De tal maneira que, quando aquelas pessoas saíam e o templo se esvaziava, essa riqueza do ambiente permanecia inalterada até a Missa seguinte, quando outros fiéis ocupariam aqueles espaços e encontrariam aqueles mesmos e precisos aspectos dispostos para a contemplação deles.
Na minha mente de menino formava-se a idéia — incipiente e confusa como só podia sê-lo na cabeça de uma criança — de que se tratava de uma graça do Divino Espírito Santo a pairar naquele ambiente, e que agia na alma das pessoas, levando-as a compreender e a amar as belezas da Igreja. Daí, também, a noção do sagrado do templo católico, casa de Deus, onde se entra para adorá-Lo.
“Querendo bem à Igreja, queria bem à mamãe”
A concepção artística do interior da Igreja do Coração de Jesus é muito própria a despertar essas impressões. Por exemplo, do banco onde mamãe e eu costumávamos ficar, podia-se ver a imagem do Sagrado Coração de Jesus, na nave esquerda, e a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, do lado direito. Eu considerava aquelas imagens, que sempre me tocaram, analisava as decorações em volta, as pinturas que representam cenas bíblicas, as outras imagens de santos e, sentindo também a presença de mamãe, pensava: “Como ela se harmoniza tanto com todo esse ambiente! Como tudo isso penetra na sua alma e faz um com ela! Querendo bem a ela, quero bem a isso. Mas também, querendo bem a isso, quero bem a ela!”
Embora eu não conhecesse o conceito de “reversibilidade”, na minha cabeça estava a idéia de que havia uma analogia, uma certa semelhança, uma como que reversibilidade entre a Igreja e mamãe.
Cumpre dizer que a Igreja me impressionava incomparavelmente mais do que mamãe. E se é verdade que o convívio com Dona Lucilia me ajudou a compreender a Igreja, mais ainda a Igreja me ajudou a amar mamãe, porque eu a amei por ser ela um reflexo daquela Igreja à qual eu devotei minha vida inteira. Se quis tanto bem a mamãe, foi porque percebi na sua alma um reluzimento da mesma graça que pairava na Igreja do Coração de Jesus.
Lógica e coerente, como o lado racional da religião
Essa ideia da reversibilidade entre o espírito de mamãe e a Igreja se acentuou ainda mais quando comecei a frequentar o Colégio São Luís e, neste, além do contato mais assíduo com as práticas de piedade, fui conhecendo, pelos ensinamentos dos padres jesuítas, o lado racional da religião.
Como sempre tive particular apreço pela lógica, de um lado, e, de outro, como os jesuítas raciocinavam muito bem, diante de todo raciocínio bem feito por eles eu me extasiava: “Isso está direito, concatenado, é assim que se raciocina!”. E através daqueles ensinamentos, eu admirava o pensamento sério da Igreja que chega às últimas conseqüências. Encantava-me e me alegrava, com a alegria que a certeza tem de sentir-se a si mesma.
E então, voltava-me para a figura de mamãe: “Veja como ela é uma simples senhora, uma mãe de família, mas, naquilo que posso discernir dela, como é semelhante a tudo isso que me ensinam da Igreja. Como ela é lógica, coerente e direita! Portanto, eu a amo e a quero, porque ela se parece tanto v com a Santa Igreja Católica!”

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência em 21/9/1982

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Ensinando a amar Nosso Senhor Jesus

Recordando o modo como Dona Lucilia lhe falava da doçura de Nosso Senhor, Dr. Plinio evoca seus primeiros encantos com o Divino Mestre e com a Santa Igreja, aos quais sua saudosa mãe lhe ensinou a amar desde a mais tenra infância.
Quando minha irmã e eu éramos pequenos, e nos preparávamos para a Primeira Comunhão, mamãe reforçava nosso curso de catecismo, contando-nos episódios da História Sagrada. E se hoje, passado tanto tempo, não sou capaz de distinguir os fatos que ouvimos dela e os que conhecemos na catequese, lembro-me entretanto do ambiente que mamãe criava ao narrar essa ou aquela cena do Antigo Testamento, uma parábola do Evangelho ou algum momento da vida de Nosso Senhor. Fazia-o de modo a nos imbuir dos sentimentos de piedade e devoção que um bom católico deve ter, ao se inteirar da história e da doutrina cristãs.
Salientava a doçura de Nosso Senhor e de Maria
Recordo-me de maneira especial que mamãe nos falava muito da doçura de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, fazendo-nos compreender tudo o que essa doçura tinha de carinho, afabilidade e bondade verdadeiramente penetrantes. Ao mesmo tempo, ao dizer que “Ele era bom”, esse “Ele” vinha impregnado da ideia de uma majestade superior à dos reis, da infinita nobreza divina refletida, pela união hipostática, na natureza humana d’Ele.

Então, pelas descrições de mamãe, percebíamos como tudo quanto Ele fazia era repassado de serenidade, de significado, e de uma sabedoria que transcendia a qualquer outra no mundo. Tais eram a bondade e a superioridade absolutas de Jesus, as quais Dona Lucilia nos apresentava ao nos contar os episódios bíblicos. Sem deixar de nos fazer ver também — cumpre notar — um fundo de tristeza que transparecia no Divino Redentor, por causa da Paixão que sofreria por nós. Esse aspecto estava igualmente presente nas narrações dela.
Concepção lendária da Terra Santa
É preciso dizer, ainda, que mamãe imaginava um pouco lendariamente a Terra Santa. Quer dizer, para ela, os desertos da Judéia eram míticos e poéticos como os arenais de um Saara. Lembro-me de ela pronunciar certos nomes, por exemplo, Mar de Tiberíades: vinha de Tibério, imperador romano pagão, mas, ao dizer “Mar de Tiberíades”, na entonação da voz dela, parecia-nos ver as ondas se formando de modo prestigioso naquelas águas...
Quanto aos personagens do Antigo Testamento, mamãe os representava como profetas grandiosos, menos suaves e mais categóricos. Quando, mais tarde, conheci as imagens dos profetas do Aleijadinho, lembrei-me das descrições de Dona Lucilia e pensei: “Esses são bem os profetas que eu imaginava quando mamãe começou a me falar deles.”
Continua

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Preparação para compreender a misericórdia de Maria

Continuação do post anterior
Mas, insisto, era uma correção intransigente mesclada com tanto afeto que não hesito em afirmar ter constituído essa postura de Dª Lucilia uma preparação para eu compreender a superior e insondável misericórdia de Nossa Senhora. Tal ideia se vincou ainda mais no meu espírito quando pude contemplar a imagem da Mãe do Bom Conselho de Genazzano.
Chamou-me muito a atenção a inteira intimidade do Menino Jesus com Nossa Senhora, refletida até no modo pelo qual Ele envolve com o braço o pescoço d’Ela. E essa efusão de carinho me trouxe à lembrança a intimidade que eu tinha com minha querida e saudosa mãe, feita de respeito, cheia de admiração, cumulada de veneração e de ternura, mas verdadeira intimidade.
E mamãe soube ser pequena, afável, meiga, quando eu era ainda um menino em tudo dependente dela. Por isso, desde os primeiros momentos em que comecei a articular palavras, eu a chamei de “mãezinha”, e por não saber falar direito, eu dizia “manguinha”. Seja como for, era já a expressão da ideia do que havia nela de miúdo, de proporcionado ao filho pequeno, de exorável por mim, de compassivo para comigo. Essa era a noção que despertava em mim o contato com a mansidão e a bondade de Dª Lucilia.
Clemência para justos e pecadores
Bondade e mansidão inteiras que me ajudaram a compreender melhor a figura da Mãe do Bom Conselho, que expressa de maneira tão eloquente a infatigável clemência de Maria.
Dir-se-ia fluir da imagem um mundo de misericórdias para a alma boa que a contempla, assim como para a alma do pecador que por Ela não se sente rechaçado nem desclassificado. Pelo contrário, o semblante materno e acolhedor de Nossa Senhora lhe incute ânimo e o faz se sentir amparado. Do olhar da Virgem se depreende um imenso teor de santidade, que convida e encoraja a alma presa de pecados a rezar o “Lembrai-Vos”, a Lhe dizer, gemendo sob o peso de suas culpas, que n’Ela confia e n’Ela espera a salvação. Maria Santíssima se mostra então acessível, e oferece ao pecador o contato com sua insondável bondade.
Entretanto, não sei deveras se eu teria compreendido assim essa manifestação de clemência da Mãe do Bom Conselho, se não fosse o exemplo de bondade séria e de intransigência afetuosa que me foi dado conhecer, ao longo de várias décadas, na pessoa de Dª Lucilia...

Plinio Corrêa de Oliveira - Extraído de conferências em 6/5/1968 e 18/6/1968

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dois legados maternos

A harmonia entre o afeto e a severidade na pessoa de Dona Lucilia, manifestada por ela ao formar seus filhos, muito contribuiu para que Dr. Plinio um dia compreendesse melhor a insondável e superior clemência de Maria Santíssima.
Na ordem moral, os dois legados mais preciosos que minha mãe me deixou foram, de um lado, a bondade, e de outro, a severidade sábia.
Nunca uma censura por irritação pessoal
Com efeito, em toda a medida do razoável, ela demonstrava uma bondade imensa, inclusive na hora de admoestar a mim ou a outro por algo de errado que tivéssemos feito. A censura era logo seguida de um perdão, de uma indulgência repassada de suavidade, sem qualquer reclamação caso o mau ato houvesse atingido a ela. Nunca, no momento de nos corrigir, entrava a reivindicação de um direito dela transgredido; não eram pitos decorrentes de uma irritação pessoal, mas sempre por causa de um princípio ofendido, como, por exemplo, o da autoridade materna. Contudo, no que dizia respeito aos seus próprios interesses, manifestava invariável paciência e se mantinha quieta, como se nada a tivesse contrariado.
Antes de querer bem à mãe, amar os princípios
A par da bondade, porém, não posso me esquecer da seriedade no olhar de Dona Lucilia ao nos repreender, a sua compenetração de que era preciso fazer prevalecer um princípio, e sua convicção de que, se eu não conformasse minha vida com aqueles princípios, meu valor aos olhos dela seria menor. Quer dizer, ela esperava ver em mim o filho que, antes de querê-la bem, amasse e observasse os ditames morais que deviam ser obedecidos e amados.
“Só três medalhas?”
Além do olhar sério, suas palavras também exprimiam a sabedoria e a gravidade inerentes à atitude materna de corrigir e formar um filho. Embora, como disse, nessas correções o carinho não estivesse ausente, a intransigência dela em relação a algum relaxamento meu se mostrava inteira, como pude comprovar num dos marcantes episódios de minha infância, quando ainda aluno do Colégio São Luís.
Certo ano, no apogeu de meu desempenho estudantil, recebi quatro medalhas na festa de distribuição de prêmios, à qual mamãe não costumava comparecer. Como até hoje acredito fazerem os alunos premiados, voltei para casa — ainda me lembro — vestido com roupa de marinheiro, ostentando alegre e ingenuamente os distintivos de meus triunfos escolares. Ao me ver chegar, Dª Lucilia me recebeu com intensas efusões de afeto e contentamento pela aplicação do filho.
No ano seguinte, porém, retornei com apenas três medalhas... Mamãe me acolheu na porta de casa, olhou para meu peito e disse:
— Só três?
Havia no seu tom de voz aquela intransigência da censura materna:

— O que aconteceu para você decair?
Continua no próximo post

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Um grande Sinal da Cruz antes de partir

Continuação do post anterior
Eu formara a ideia de que seria melhor, nas minhas condições, que mamãe não morresse durante a noite, pois a dificuldade de me locomover, somada a outros incômodos, não me possibilitariam de dar-lhe toda a assistência que eu gostaria de oferecer a ela nesse supremo momento. Quisera, antes, que fosse de manhã, depois de eu ter dado as orientações necessárias ao desenvolvimento do nosso apostolado naquele dia, e assim, poder estar ao lado dela quando Deus a chamasse a Si. Contudo, não imaginei que esse passamento se desse tão logo.
No dia seguinte, 21 de abril, acordei e perguntei por mamãe. Disseram-me que o estado dela permanecera mais ou menos o mesmo. Trouxeram-me o lanche da manhã e o jornal. Ora, mal acabara de lê-lo, o médico que a assistia entra no meu quarto e me diz: “Dr. Plinio, venha depressa. Dona Lucilia está morrendo!”
Tão rápido quanto me era possível naquelas condições eu me dirigi ao quarto dela, e assim que entrei, o médico me disse: “Ela já morreu”. Contou-me, então, que a respiração de mamãe tornara-se cada vez mais ofegante, mas ela não quis me chamar. Quando ele percebeu que eram seus últimos instantes, foi me avisar e, ao voltar, a viu fazer um grande Nome do Padre e, em seguida, estender as mãos ao longo do corpo. Entregara sua alma a Deus.
Tristeza envolta em suavidade
Apesar dos meus 60 anos, à vista de mamãe morta, chorei copiosamente, e em altos soluços, entremeados com frases de gratidão e de amor para com ela. Na desolação profunda em que me encontrava, repetia que ela era a luz dos meus olhos, o que havia de mais precioso para mim na vida. Lamentei não ter podido vê-la no derradeiro momento, e rezei muito por sua alma.
Depois disso, era preciso que eu me aprontasse, e dei as recomendações necessárias para se preparar o velório e o sepultamento. Curiosamente, enquanto fazia minha toilette, não obstante a imensa tristeza que me confrangia, senti-me tomado de uma tranquilidade suave e distendida, de maneira que o peso trágico do fato deixou de acabrunhar a minha alma. Assim me foi possível estar o tempo inteiro ao lado do corpo de mamãe, até a hora em que seria levado para o cemitério.
Era minha intenção acompanhá-la até à beira da sepultura. Porém, a ferida cirúrgica no meu pé ainda não estava inteiramente cicatrizada, de um lado; de outro, era-me muito penoso vê-la pela última vez no caixão, e este em seguida ser depositado no fundo da cova, coberto de terra... Não tive coragem. Permaneci no meu automóvel, à porta do cemitério.
No restante do dia passei recebendo os cumprimentos de parentes e amigos. Na manhã seguinte, atendendo aos conselhos dos médicos que cuidavam de minha recuperação, dirigi-me a uma fazenda que nosso movimento possuía no interior de São Paulo e ali fiquei até retornar para a Missa do Sétimo Dia de mamãe.
Um sorriso do Céu...
Uma última recordação. Como se sabe, segundo a doutrina católica, mesmo almas que praticaram a virtude neste mundo podem passar pelo Purgatório, a fim de se purificarem de alguma imperfeição. Se, conforme se lê em relatos de certas visões, até mesmo almas de grandes santos tiveram de pagar esse tributo, era natural que eu me perguntasse se a de mamãe não estaria ainda ali, purgando-se de qualquer defeito. Essa idéia me incomodava, e eu, com confiança na misericórdia divina, pedi a Nossa Senhora que me desse um sinal de que a alma de Dª Lucilia já estivesse na bem-aventurança eterna.
Com essa esperança, dirigi-me à Igreja de Santa Teresinha, no bairro de Higienópolis, onde seria celebrada a Missa do Sétimo Dia. Ocupei um lugar no primeiro banco, junto com pessoas de minha família, e notei que nos degraus do presbitério havia sido colocada uma mortalha feita de rosas vermelhas, tendo no entroncamento dos dois braços da cruz um lindo buquê de orquídeas.
Ora, no momento da Consagração, surpreendo-me com este fato extraordinário: pela fenda aberta num dos vitrais da igreja passou um raio de sol que incidiu exatamente sobre a cruz de rosas, deslocando-se de modo lento até se fixar no buquê de orquídeas. Mas, iluminou-o com tanta intensidade que a luz parecia penetrar as pétalas das flores e fazê-las refulgir por dentro.
Ao término da Consagração, o raio de luz deslizou em direção à porta oposta à sacristia e desapareceu. Porém, moveu-se de um tal jeito que me fez lembrar o andar de Dª Lucilia, e então me veio o pensamento, senão a certeza, de que aquele era o sinal que eu havia pedido: “ela está no Céu!” Essa ideia muito me consolou, e saí da igreja aliviado. Sem dúvida, podem as almas do Purgatório rezar pelas que estão na Terra. A de mamãe, se lá estivesse, estaria pedindo por mim. Mas, que alegria saber que ela já o fazia na visão beatífica, inundada daquela felicidade eterna que um dia, pela misericórdia de Nossa Senhora, nos inundará a todos nós!

Extraído de conferências em 11/1/1982 e 20/4/1991

domingo, 5 de outubro de 2014

Presença enternecedora

Acolhida à sombra da árvore que plantara
É interessante constatar como essa compaixão de mamãe para comigo, embora se manifestasse sempre que as circunstâncias a despertavam, ia adquirindo feições novas ao longo de minha vida. Quando eu era menino, ela inteira se debruçava sobre mim para me amparar. Mais tarde, no período de constituição do meu caráter, a solicitude dela se fez sentir em relação à luta que eu era obrigado a travar, como adolescente, para a minha própria formação. Quando homem maduro, eu notava nela uma espécie de legítima ufania, à semelhança de quem construiu um barco e se compraz ao vê-lo navegar: “Deixe-o singrar, alegra-me ver como ele enfrenta as ondas; sinto satisfação por ter feito isso, em ter tido um filho e o haver formado para que depois enfrentasse a vida de peito aberto!”. Essa era a alegria dela.
E quando se aproximavam seus últimos anos de vida, a missão protetora e formadora da compaixão dela, enquanto mãe, ia cessando. Ela sentia esse compreensível minguamento e, por sua vez, passou a como que “se encostar” na minha compaixão para com ela. Portanto, deu-se uma nobre e natural inversão da situação antiga, ela veio se acolher à sombra da árvore que ela mesma tinha plantado.
Presença sempre enternecedora
Seja como for, já com seus 91 anos, a presença dela continuava sempre enternecedora, cumulando-me de agrado. Durante toda a vida, a conversa de mamãe foi agradável, mas sua presença era ótima, pelo fato de sua pessoa irradiar algo muito mais valioso do que a palavra humana possa exprimir, e de comunicá-lo com doçura, suavidade, alegria, ao mesmo tempo com tanto recolhimento, tanta dignidade e seriedade, que eu jamais me saciava de estar perto dela.
Lembro-me de que, às vezes, estando eu trabalhando no meu escritório, ela entrava, sentava-se na cadeira de balanço que ali havia e permanecia quieta ao meu lado, desfiando seu rosário. Quiçá, movida pela generosidade materna, ela encontrasse algum entretenimento na minha presença, mas a recíproca era inteiramente verdadeira, e eu me comprazia de modo prodigioso em estar com Dona Lucilia: dizia-lhe algo afetuoso, fazia-lhe um carinho, e a deixava contente.

Assim transcorreu nosso convívio, até alguns meses antes de ela falecer.
Na véspera da morte, calma e serenidade
Em fins de 1967, comecei a notar os primeiros sintomas da doença que haveria de me prostrar durante semanas, culminando numa operação1. Quando retornei do hospital, mamãe ainda estava viva, mas havia envelhecido muito. Acredito que ela não tenha percebido que eu estive fora tanto tempo, ou ao menos não se manifestou a esse respeito.
A convalescença me obrigava a permanecer com a perna estendida durante todo o tempo, numa posição bastante incômoda e desagradável. Após esse período de penosa recuperação, quando eu apenas começava a poder andar com o auxílio de muletas, afirmaram-me que a saúde de mamãe se agravara de modo alarmante: ela caminhava para o fim.
Recordo-me que na véspera da morte dela, mamãe se achava muito pior do coração, e por isso passei o dia inteiro no quarto dela. A falta de ar a oprimia de tal maneira que a impedia de conversar, e ela sofria muito com o mal-estar e a agonia que a asfixia traz consigo. Entretanto, mantinha-se calma, tranquila, serena.

Continua 

sábado, 27 de setembro de 2014

Compaixão e serenidade de Dona Lucilia

Dr. Plinio evoca alguns aspectos da bondade de sua mãe, manifestada ao longo de uma edificante existência, até o derradeiro sinal da Cruz com que se despediu deste mundo. Talis vita, finis ita: tal como foi sua vida, repassada de fé e compaixão, tal se apresentou a Deus.
Um dos predicados morais de Dona Lucilia que mais me tocava e estreitava minha união com ela era sua compaixão. Em diversos episódios e circunstâncias me era dado notar a ternura de mamãe para comigo e o modo como considerava as necessidades de uma criança, máxime sendo filho dela. A fragilidade daquele ser pequenino despertava em seu coração materno um desejo de proteção, ao lado de uma compreensão íntima, pormenorizada e delicada das carências próprias às condições de um menino.
 Compassiva nas doenças do filho
Ela percebia bem como eu mesmo sentia as minhas debilidades, e me acompanhava com um olhar solícito, como quem diz: “Essa é a trajetória de todo homem. Mas, é natural que um homem tenha uma mãe, e que esta seja toda ternura para ele. É conforme à lei da vida que as coisas se passem assim; você deve se sentir compreendido em tudo e não ter nenhuma espécie de amor próprio falso que lhe faça esconder de mim a sua debilidade. Pelo contrário, coloque-a em minhas mãos, que eu tratarei dela”. Essa disposição me era manifestada com um sorriso cumulado de afeto, e da promessa de que ela atravessaria comigo aquele caminho semeado de dificuldades.
De maneira especial, a compaixão de Dona Lucilia se mostrava inteira quando eu adoecia. Nessas circunstâncias, seu desvelo e seu carinho eram levados ao extremo, com uma preocupação inteira por causa de minha doença. Eu, sempre observador, não deixava de considerar sua atitude ao entrar no meu quarto nas pontas dos pés, sorrindo, com um copo de remédio de homeopatia nas mãos, e dizer-me: “Filhinho, chegou a hora de tomar o medicamento”. Na verdade, era a consolação de minha alma tê-la ali perto, e a presença dela compensava a dor que eu sofria.
Como se sabe, as analogias na cabeça de uma criança são vivazes, e eu fazia correlação entre o refrigério da água com que eu tomava o remédio e a bondade de mamãe. Pensava: “Ela é para mim o que esta água é para meu corpo doente — um refrigério. Sinto o meu espírito refrigerado na companhia dela”.
O mesmo desvelo na maturidade de Dr. Plinio
Essa compaixão manifestou-se invariável ao longo de toda a vida dela. Por exemplo, quando eu já era homem feito e formado, morávamos numa casa na Rua Itacolomi, onde tive uma indisposição física muito forte. Mamãe, num tom afetuoso e inquiridor de quem havia percebido, me perguntou:
— Filhão, você está indisposto, não é?
— Meu bem, realmente estou, mas prefiro não recorrer aos seus médicos. Eu não gostaria de dizer “não” à proposta da senhora de chamar algum deles, mas sobretudo não quero dizer “sim”.
Ela, com sua calma característica, aproximou-se de mim e colocou a mão sobre minha testa, e só aquele contato o frescor de sua mão me transmitiu alívio e tranqüilidade. Disse-me: “Você está com febre”. E eu pensei: “Agora ela vai colocar o termômetro e este indicará 38°, 39°. Mamãe ficará preocupada e eu vou me meter em uma engrenagem que não me agrada em nada”. Ela pôs o termômetro e, após alguns minutos, verificou a temperatura.
— Não é nada. O que você quer fazer meu filho?
— Meu bem, quero ganhar tempo, deitado e tranquilo.
Então, ela trouxe uma cadeira do quarto, colocou-a próximo à minha cama, sentou-se e começou a rezar. Ali permaneceu durante horas, até anoitecer. Em certo momento, eu disse:
— Meu bem, estou com muita fome e a senhora vai querer que eu coma algo.
— Diga o que você quer que sua mãe traz. Ela mesma foi preparar o que eu pedi, serviu-me, conversamos um pouco, e quando nos despedimos ela me disse, no mesmo tom de carinho e solicitude: “De outras vezes, você não esconda nada de sua mãe, porque ela percebe e não vai lhe impor coisa alguma”.
Só então eu percebi como ela não considerava bagatela aquela minha indisposição. Entretanto, a rogos de Nossa Senhora, a Providência me favorecera com boa saúde e na manhã seguinte eu já estava recuperado. Assim que me levantei, fui ao quarto de mamãe para cumprimentá-la, tranquilizá-la e agradecê-la pelos cuidados da véspera. E retomamos a vida comum de todos os dias.

Porém, ficara-me a certeza de que, se a doença se agravasse, o desvelo dela se desdobraria até o fim. E, provavelmente, se eu morresse, ela não sobreviveria por muito tempo. 
Continua no próximo post.