sábado, 22 de novembro de 2014

Primeiros encantos com a Igreja

Continuação do post anterior
Pouco depois de nossa Primeira Comunhão, terminado o curso de catecismo, o meu vínculo estreito com mamãe me ajudaria a discernir outras riquezas da Igreja Católica. Eu ia com ela às Missas de domingo na Igreja do Coração de Jesus e, sentado ao seu lado, me punha a analisar o ambiente do edifício sagrado, e o conjunto que seus diversos aspectos formava com os ritos e simbolismos da celebração litúrgica. Então, considerava o som do órgão, do sino que tocava para anunciar a entrada do padre, as expressões de fisionomia desta ou daquela imagem, tal paramento, tal gesto, tal vitral que me parecia muito bonito — de tudo aquilo resultava uma soma, uma unidade incomparavelmente mais bela e preciosa do que a soma das pessoas ali reunidas.
De tal maneira que, quando aquelas pessoas saíam e o templo se esvaziava, essa riqueza do ambiente permanecia inalterada até a Missa seguinte, quando outros fiéis ocupariam aqueles espaços e encontrariam aqueles mesmos e precisos aspectos dispostos para a contemplação deles.
Na minha mente de menino formava-se a idéia — incipiente e confusa como só podia sê-lo na cabeça de uma criança — de que se tratava de uma graça do Divino Espírito Santo a pairar naquele ambiente, e que agia na alma das pessoas, levando-as a compreender e a amar as belezas da Igreja. Daí, também, a noção do sagrado do templo católico, casa de Deus, onde se entra para adorá-Lo.
“Querendo bem à Igreja, queria bem à mamãe”
A concepção artística do interior da Igreja do Coração de Jesus é muito própria a despertar essas impressões. Por exemplo, do banco onde mamãe e eu costumávamos ficar, podia-se ver a imagem do Sagrado Coração de Jesus, na nave esquerda, e a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, do lado direito. Eu considerava aquelas imagens, que sempre me tocaram, analisava as decorações em volta, as pinturas que representam cenas bíblicas, as outras imagens de santos e, sentindo também a presença de mamãe, pensava: “Como ela se harmoniza tanto com todo esse ambiente! Como tudo isso penetra na sua alma e faz um com ela! Querendo bem a ela, quero bem a isso. Mas também, querendo bem a isso, quero bem a ela!”
Embora eu não conhecesse o conceito de “reversibilidade”, na minha cabeça estava a idéia de que havia uma analogia, uma certa semelhança, uma como que reversibilidade entre a Igreja e mamãe.
Cumpre dizer que a Igreja me impressionava incomparavelmente mais do que mamãe. E se é verdade que o convívio com Dona Lucilia me ajudou a compreender a Igreja, mais ainda a Igreja me ajudou a amar mamãe, porque eu a amei por ser ela um reflexo daquela Igreja à qual eu devotei minha vida inteira. Se quis tanto bem a mamãe, foi porque percebi na sua alma um reluzimento da mesma graça que pairava na Igreja do Coração de Jesus.
Lógica e coerente, como o lado racional da religião
Essa ideia da reversibilidade entre o espírito de mamãe e a Igreja se acentuou ainda mais quando comecei a frequentar o Colégio São Luís e, neste, além do contato mais assíduo com as práticas de piedade, fui conhecendo, pelos ensinamentos dos padres jesuítas, o lado racional da religião.
Como sempre tive particular apreço pela lógica, de um lado, e, de outro, como os jesuítas raciocinavam muito bem, diante de todo raciocínio bem feito por eles eu me extasiava: “Isso está direito, concatenado, é assim que se raciocina!”. E através daqueles ensinamentos, eu admirava o pensamento sério da Igreja que chega às últimas conseqüências. Encantava-me e me alegrava, com a alegria que a certeza tem de sentir-se a si mesma.
E então, voltava-me para a figura de mamãe: “Veja como ela é uma simples senhora, uma mãe de família, mas, naquilo que posso discernir dela, como é semelhante a tudo isso que me ensinam da Igreja. Como ela é lógica, coerente e direita! Portanto, eu a amo e a quero, porque ela se parece tanto v com a Santa Igreja Católica!”

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência em 21/9/1982

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